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Atenção! Este veículo está sendo roubado. Ligue para a Car System

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Meu caçula “joga” futebol com a parede do quarto; vira e mexe, eu recebo uma buzinada na orelha ao atravessar a rua; minha mulher, vindo do centro, gasta três horas para chegar ao Terminal Capelinha, todos os dias.

Um ano atrás eu não percebia como isso é injusto.

Eu organizo processos no principal Tribunal de São Paulo. Trabalho fácil e chato. Mas tem estabilidade e o café ajuda nas horas de maior angústia. Maldita estabilidade. Coisa rara. 17 anos de casa, agora em abril.

A questão é que esse maldito alarme exclamando, o dia todo, “Atenção! Este veículo está sendo roubado” está me deixando maluco. Doido mesmo.

Quando uma moto esbarra na outra na área de estacionamento de motos que tem na rua aqui ao lado do Tribunal, lá vem “este veículo está sendo roubado”. As motos se esbarram a cada 10 minutos, porque o espaço de estacionamento – do tamanho de dois carros – serve a uma multidão de motoboys.

Eu não entendo esse alarme. Não sei se alguém o leva a sério. Um dia resolvi ligar para a “Car system” dizendo que “um veículo foi roubado” para ver o acontecia. Talvez eles mandassem uma equipe armada até o local e recuperassem o “veículo”, não sei.

O atendente me perguntou se não se tratava de um disparo acidental; de repente, alguém tinha trombado numa moto estacionada.

Eu acho que se alguém vê um veículo sendo roubado, deve simplesmente ligar para a polícia. O dono do objeto deve se lamentar e arcar com o prejuízo.

Eu só gostaria de organizar as pastas e documentos em paz, como venho fazendo há quase 17 anos, sem que ninguém me mande ligar para a “car system”.

Neste último ano que meu cérebro foi esfaqueado pela “car system”, percebi que eu e minha família nunca fizemos parte do tal “trânsito caótico de São Paulo”, como diz a TV. Que apesar de gostar de usar esse assunto para jogar conversa fora, eu não tenho nada a ver com ele.

Nunca tive carro. Nunca tive nenhum “veículo roubado” e todos os dias desperdiço horas no ônibus voltando do Tribunal.

Isso só me veio à cabeça depois que a Car System chegou à minha vida.

Respeito muito o doutor Oliveira, mas não suporto mais. Vou deixar o Tribunal.

(de um cidadão qualquer)

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Written by panopticosp

março 20, 2009 at 16:08

A criminalização dos motoboys em São Paulo

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Foto: Luiz. Todos os direitos reservados.

Anda difícil a vida do trabalhador que usa uma motocicleta para ganhar o pão. Como tantos outros, ele leva e traz coisas variadas. A questão é que se o fizesse montado num automóvel de quatro rodas não encontraria pela frente uma blitz policial “só para motos”, não seria proibido de usar o banheiro de algumas rodovias (por seu veículo não pagar pedágio), não seria desrespeitado em rádios de grande audiência, não diriam em grande revista que ele cai sozinho, não veria um colega morto no asfalto a cada 24 horas e não seria alvo de leis malucas a cada semestre.

Se em vez da câmara os legisladores realizassem suas audiências em botecos pela cidade, digamos às sete da noite, boa parte das leis e medidas implantadas sairia para a rua e não voltaria micada, com vergonha. Pouparia os sábios de dar entrevista veemente num dia e no outro dia falar baixinho que talvez volte atrás.

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Na revistinha do rei carro: “…vivem em guerra com os motoristas, são temerários e, quando resolvem protestar, atravancam ainda mais o tráfego de São Paulo” (Imagem via xforum)

Em São Paulo voltou a pauta a proibição da garupa em motos. Dizem que muitos assaltos são realizados por duas pessoas sobre uma moto. Para os legisladores a solução seria simples, proibir todos de usar seu veículo de forma plena. Coisa inteligente, para facilitar o serviço da polícia chuta-se um direito do consumidor e criminaliza-se uma categoria paulistana do tamanho da população de São Caetano, sua vizinha.

A exposição do assunto na mídia não levou a nada, simplesmente porque a mídia é da classe média (motorista de automóvel), vê o motoboy como uma praga e quer higienizar a cidade. O que a mídia chamou de “debate” só reforçou o preconceito ao trabalhador que pára com sua moto no semáforo e vê os vidros do carro do trabalhador ao lado serem fechados rapidamente.

Há cidades em que o capacete não é exigido para que o moto-ladrão seja reconhecido. Idéia de governante de cidade pequena. Em São Paulo já se pensou em escrever o nome, o R.G. e a placa da moto no capacete e num colete especial do potencial infrator. Idéia de síndico que acha que é prefeito de cidade grande, quer que o faxineiro o chame de doutor e não sabe como disfarçar sua fúria discriminatória. É assim toda vez que se fala em segurança e cia na grande cidade, a primeira idéia que surge é perseguir o trabalho e proibir alguém de existir.

Alguém importante é assaltado ou morto por um motoqueiro e logo um representante salta para proibir motoqueiros e motos, mas, claro, toma o cuidado de restringir a limpeza. No Rio, graças ao deputado Pedro Fernandes, foi colocada na mesa, nua, a vontade dos poderosos de varrer os moto-pobres das metrópoles. O projeto de Fernandes pretende proibir que motos com menos de 500 cilindradas carreguem alguém na garupa. Assim, o pessoal que só tem 125 cilindradas no bolso não pode pegar a namorada na saída do trabalho, mas quem tem mais de 500 cilindradas na carteira pode levar a esposa para a praia.

Peculiaridades do direito brasileiro. Cada grupo de brasileiros tem os seus. Juiz manda a imprensa não falar o nome de acusados de agredir prostitutas e diz que sua decisão “independe de raça, profissão ou gênero”; deputado quer proibir garupa para motocas de trabalho e, com certeza, também não tem nada a ver com raça, classe ou profissão. Vivemos em cidades cada vez mais perigosas, sim. A saliva higienista que atualmente escapa das bocas dos governantes é grossa, corrosiva e nojenta; respinga a promoção da exclusão, o incentivo ao desrespeito e a reafirmação de desigualdades justamente naqueles que estão mais desprotegidos e apenas tentam sobreviver. Um conhecido grande perigo.

Com tantos problemas a maioria dos motoboys tem uma situação trabalhista muito pior do que seus colegas que possuem mais que duas rodas: não tem honorário, porque trabalham “na informalidade”, recebem por entrega, por dia, por fora e cia; não tem seguro de vida; não tem convênio saúde; não tem vale-refeição; tiram uns R$700 por mês. Se depois de um tombo ficarem em casa, digamos, duas semanas, recebem zero reais e os gastos médicos são de sua própia conta.

Sim, tudo vai mal, mas estão mobilizados, já levaram 5 mil às ruas e ninguém mexe com eles sem pensar três vezes. Todos os representantes de São Paulo sabem disso.

Relacionados:
como não poderia deixar de ser, vou comentar a nossa matéria que saiu na Veja SP…, artigo, Motoblog
Motoboy, invisível que incomoda, artigo, Panóptico
Motos x carros, artigo, Panóptico
Motos, trânsito, status e mortes, artigo, Panóptico

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fevereiro 9, 2008 at 10:15

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Mentira para idiotas é a alma da Veja

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Imagem via xforum

Legenda da mentira: “Cena comum: motoboy se desequilibra e cai sozinho na Avenida Doutor Arnaldo”

Atualmente a revistinha é inbatível. Chegou lá, conseguiu ser uma das piores revistas do mundo com mentiras diretas, óbvias, claras e infantis.

Segundo dados da CET, a maoria esmagadora dos acidentes fatais ocorre devido a colisões laterais, ou seja, a moto é atingida lateralmente, o motocilista cai e é atropelado em seguida. Dado o caráter frágil do corpo exposto, os ferimentos são geralmente graves. O serviço de resgate do corpo de bombeiros estima que a cada dez saídas para um atendimento de emergência, três são para resgatar um matociclista ferido ou morto. As motocicletas mais acessíveis apresentam poucos dispositivos de segurança, o que é agravado pela grande quantidade de motos sem condições de uso que trafegam pela cidade. Muitas motocicletas ainda usam um sistema de frieo à lona, em detrimento do sistema a disco, mais moderno. Na hora da freada de emergência, o custo do equipamento transfere-se ao estado que mobiliza sua infra-estrutura para cuidar da vítima. O Hospital das Clínicas de São Paulo já é um dos centros mundiais de amputação de membros inferiores — uma das áreas do corpo mais atingidas nas quedas de moto.

Fonte da verdade: Remoto, Canal*Motoboy

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fevereiro 8, 2008 at 14:54

Publicado em mídia, transporte

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Motoboy, invisível que incomoda

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A informalidade que caracteriza o serviço do motoboy coloca-o fora do abrigo das instituições formais da sociedade. Trafegar pelo meio do corredor, muitas vezes entre ônibus e caminhões, é apenas uma das conseqüências do enredo informal no qual o motoboy está inserido. Nesse ponto ele se torna um violador das normas instituídas, pelo simples fato de não participar delas. Andar na contramão, furar farol, parar sobre a faixa e outras irregularidades acabam adequando-se ao esquema de quem se percebe alijado das instituições sociais. Essa “agilidade” tem um preço e faz pensar na capacidade da sociedade em tolerar e incentivar toda uma categoria a viver e trabalhar fora do abrigo da institucionalização. As leis e normas que idealmente são feitas para regular a vida em sociedade e zelar pelo funcionamento das instituições acabam sendo inóquas quando dirigidas a quem não participa formalmente do jogo social.

O motoboy acidentado aparece nos noticiários graças ao agravamento do trânsito de uma cidade cujas veias não suportam mais a seiva que transporta. O motoboy que agiliza serviços e encurta prazos, atrasa a rotina cidade quando sai de sua rotina invisível. Nesse ponto, ele passa a ser visto. Vira assunto no jornal. Leis são feitas para ele. Umas “pegam”, outras viram moeda de troca entre os representantes do poder e quem a ele deve se submeter. Outras simplesmente somem. Leis num país de apenas alguns cidadãos carecem de eficácia. Leis são elementos públicos, num país em que as calçadas são mosaicos desarranjados da privacidade de cada imóvel a invadir o espaço público das ruas. A falta de normatização é a falta de um projeto unitário. Isso incentiva a criação de mais leis, para tentar normatizar o caótico, o que provoca a ingerência nas coisas mais básicas.

Fonte: Remoto, Canal*Motoboy

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fevereiro 8, 2008 at 14:18

Publicado em transporte

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Motos x carros

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Foto: Beiço. Todos os direitos reservados.

Publicado nos jornais semana passada:

A Comissão permanente de trânsito, transporte, atividade econômica, turismo, lazer e gastronomia convida ao público para participar de audiência pública tendo como tema “Motocicletas – Motofrete – Proibição de circulação nas vias expressas das marginais Pinheiros e Tietê – Reivindicações da categoria”
Data: 6 de fevereiro de 2008
Horário: 13:00 horas

Local: Plenário 1º de maio, 1° andar. Câmara municipal de São Paulo, viaduto Jacareí, 100, Bela Vista, São Paulo

Todos os dias um motoqueiro morre em São Paulo. A história é simples. Numa cidade com um enorme número de empresas de serviços e com congestionamentos diários, sacaram que as motos eram os únicos veículos motorizados capazes de escapar do trânsito. Micro empresas recrutaram jovens com baixa escolaridade e alta disposição para passar o dia costurando a 50km/h com os joelhos entre duas filas de carros.

A garotada foi tombando pelas ruas, as emergências dos hospitais enchendo, fabricantes e financiadoras de motos dirigindo sua produção e serviços para este público. Os motoristas de automóveis a cada dia se enfurecendo mais com a audácia dos novos veículos. As rádios que tocam trânsito 24 horas relatando os casos de retrovisores arrancados e veiculando declarações de ódio aos “cachorros loucos”.

Nem as mortes, nem a repulsa dos motoristas paulistanos brecaram o crescimento do número de motoboys em São Paulo. A pressa é exigência dos clientes, o trânsito é de carros; e enquanto não se reduzem nenhum dos dois, os motoristas continuarão a tolerá-los.

Diante dos números de mortes e acidentes, este mês a Prefeitura testou uma faixa exclusiva (improvisada com cones, num curto trecho, das 10h às 16h) para motos na 23 de maio, uma das principais vias expressas da cidade. Claro, o trânsito piorou e o teste que seria de uma semana foi encerrado antecipadamente descartando-se a idéia. (Politicamente, diante do sindicato dos motoboys, a faixa exclusiva seria uma espécie de compensação a possível proibição de motos na via expressa da marginal Pinheiros – via mais veloz que a local – ainda em discussão).

É óbvio que uma faixa exclusiva deveria existir para o transporte público e não para o individual, qualquer que seja. Mas o que cabe chamar a atenção no caso é que o trânsito de carros com 100% de certeza pioraria ao se dedicar uma faixa às motos. O trânsito piorou. Pronto. Esquece. Próxima idéia. É para isso que foi feito um teste? Ou para saber o quanto se poderia restringir a circulação do rei carro?

As notícias das rádios, das TVs e jornais locais se dedicam ao motorista de carro de passeio e ao taxista. Sobre transporte público só se ouve falar em dia de greve, porque atrapalha o trânsito; sobre o caminhão, só quando há alguma fiscalização de poluição; sobre a carroça, a bicicleta e o pedestre…. esquece.

Em São Paulo, o carro é o rei. O carro tudo faz, tudo pode, tudo consegue. Caminhão é odiado porque solta muita fumaça e não se mantém na faixa da direita; ônibus solta muita fumaça e não se mantém na faixa; moto é muito abusada, costura, faz loucuras, passa no sinal vermelho e quebra retrovisor; carroças são “pilotadas por mendigos”, param o trânsito para levar lixo; bicicleta, skate, patins… passeio, deveriam ir para um parque; pedestre, aquele de dispensou o veículo, atravessa fora da faixa, se arrisca achando que a rua é dele.

Nenhum destes veículos serve para alguma coisa. Nenhum deles existe. Caminhão não leva produtos e matérias: motos não levam documentos, alimentos e tudo mais; carroças não levam material reciclável; ônibus, bicicletas e demais não levam pessoas. Na cidade em que o carro de passeio monopolizou o espaço público, todos os demais veículos existem apenas para atrapalhar o trânsito, não fazem parte do trânsito; ninguém os enxerga; são apenas obstáculos ao carro de passeio e a sua expansão.

Mortoboys, artigo, Casa de Hael
Canal Motoboy, fotografias e depoimentos de motoboys de São Paulo
Atualização:
Motofaixa na Av. Sumaré, artigo, Vá de bike!
Motos na Sumaré ou “Verde? Que verde?”, artigo, Apocalipse motorizado

Written by panopticosp

fevereiro 5, 2008 at 10:04

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Feridas e veículos inofensivos

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Os motoboys são pobres diabos que se acidentam continuamente e morrem como moscas em troco de uma miséria. São uma ferida social que não se cura com queixa na polícia. (Fonte: Diários da motocicleta)

Realmente não consegui entender a razão dos motoboys serem chamados de ferida social pela jornalista.

O trecho completo é:

Muita gente quis que eu fizesse boletim de ocorrência do atropelamento. A culpa, no entanto, não foi do rapaz que me atropelou. Enquanto motos forem consideradas veículos inofensivos pelo Detran, enquanto costurar for prática rotineira e aceita por todos, enquanto empresas prometerem a seus clientes que podem entregar qualquer coisa em qualquer lugar da cidade em dez minutos, não haverá boletim de ocorrência que adiante nada. Os motoboys são pobres diabos que se acidentam continuamente e morrem como moscas em troco de uma miséria. São uma ferida social que não se cura com queixa na polícia.

Certamente, a não aplicação das leis de trânsito e a rotina de “vale-tudo” no trânsito não se resolverão com boletins. Ontem, indo para o aeroporto de Congonhas um motoboy estava no chão, o taxista que me levava disse “todo dia eu vejo 2, 3 acidentes com moto; 2, 3…todo dia”, lembrei desse artigo de Cora que eu havia lido e sentido uma pegada de que as motos deveriam ser exterminadas e deixar as ruas para os carros, que sabem o que fazem. Uma pedestre atropelada com uma visão de motorista?!

Lembrei-me dos comentários cheios de cidadania da Rádio CBN, “os motoboys fazem o que querem”, “a rua x está cheia de buracos”, “radares e a indústria da multa”, “caminhões na pista da esquerda, quem eles pensam que são”. Todas as manhãs os comentários têm um víeis, digamos, jornalismo-cidadão, “cobre das autoridades”, “ligue para o seu vereador” e assim vai.

Escamoteiam uma visão motorista-taxista, digamos assim, as ruas e a cidade é sempre vista pela janela do carro. Todos os absurdos que os cidadãos devem tomar partido, reclamar, são absurdos para o motorista.

“(…) Enquanto motos forem consideradas veículos inofensivos pelo Detran…”

Esta frase também não consegui entender. O raciocínio desconsidera que:

Não existe veículo inofensivo, existe veículo mais ou menos ofensivo;

Ser atropelado por um carro, em geral, a depender a velocidade e do “jeito”, é pior;

Considerando o peso do veículo, carros de passeio deveriam ser considerados mais ofensivos aos pedestres do que motos, os caminhões e ônibus mais ofensivos que o automóvel;

Entendi que talvez a frase parta da idéia de que carros cometem menos loucuras no trânsito do que motos, o que não é verdade. Os motoristas costuram e se arriscam tanto quanto os motoboys, sabendo que têm uma armadura de metal como proteção. As estatísticas de “acidentes” estão por aí, é só pesquisar.

Enfim, sem o víeis motorista, o correto seria “enquanto os veículos automotores forem considerados inofensivos…” pessoas continuarão sendo atropeladas aos montes.

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Não assassinar, uma das vantagens de não dirigir

Written by panopticosp

dezembro 1, 2007 at 12:52

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Motos, trânsito, status e mortes

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Paulo Fehlauer. Alguns direitos reservados.

Muitas vezes a opressão do hoje leva a decisões de curto prazo que justamente comprometem o bem-estar futuro.

Cansado de ônibus lotados, carros “populares” com pagamento facilitado, você entra nessa também, 36 vezes, nada demais, você tembém pode. Uma decisão individual. Algumas avenidas engarrafadas começam a ser evitadas, alguns horários começam a ser evitados, logo rádios e TVs se especializam em relatar ao vivo o caos na cidade dos carros, cada motorista tem sua “rota alternativa” para tentar “desviar do trânsito”, agentes da CET estão nos cruzamentos pedindo para os carros acelerarem, multas são aplicadas.

De repente, não existe mais horário de pico, rota alternativa ou qualquer forma de programar o dia, e o carro que comprou para chegar mais cedo no trabalho, já não serve de nada, o jeito é sair de casa cada dia mais cedo.

Pessoas e coisas nunca chegam na hora que deveriam. Prejuízo geral. Nos anos 90 inventaram uma profissão: em troca de um salário mínimo, um cara é contratado para levar coisas numa mochila trafegando por entre o congestionamento montado numa moto. Perfeito, logo são milhares de motoboys, em todas as ruas. A moto tinha que ser pequena para caber entre os retrovisores, a potência não precisava ser grande, e as parcelas mensais do financiamento tinham que ser baixas.

Escravos do tempo dos patrões, estes rapazes arrumaram inimigos por toda a cidade ao cortar o trânsito como jatos. Os taxistas, motoristas por excelência, os odeiam; moços, moças e senhores pacíficos os hostilizam, nas rádios se ouve reclamações como “um motoboy me fechou e bateu no meu retrovisor”.

Os motoristas de SP são profissionais, sabem o tempo dos semáforos, a localização dos radares, as ruas onde não há agentes da CET e é possível furar o rodízio, eles dominam as manhãs do asfalto. Enfurecem-se quando um amador entra no caminho e não desvia por uma brecha, dá passagem para um inimigo num cruzamento ou não aproveita o sinal amarelo. São pilotos treinados para ultrapassagens, curvas fechadas, pista molhada e retomadas rápidas. São orgulhosos.

Com a explosão da quantidade de motoboys nas ruas, profissionais mais corajosos e dirigindo veículos mais ágeis, a coisa ficou séria. Os motoristas teriam que dividir as ruas com estes moleques sem respeito. Os carros desrespeitam a vida ao passar pelo sinal amarelo (amarelo em sp é verde), “nada demais”, “numa boa”, todos se entendem; mas os motoboys chegam e desrespeitam este desrespeito, passam pelo vermelho, pelo cantinho, se precisar derrubam retrovisores. “Não desrespeitamos, agilizamos o fluxo”, poderiam dizer; “já os motoboys não agilizam, desrespeitam”. Ou seja, nosso desrespeito é uma coisa, o desrespeito deles é outra.

Resumindo, o problema não demorou a aparecer. Jovens, negros e pouco escolarizados, que formam esta legião de enjaquetados de cara preta de poluição e touca na cabeça, começaram a morrer aos punhados.

Taxas padronizadas de óbitos por acidentes envolvendo motocicletas
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Fonte: Secretaria de Vigilância em Saúde – Ministério da Saúde

Basta ir um dia aos INSS. Em cadeiras de rodas, com pinos nas pernas ou com os braços moídos eles estão lá, esperando o atendimento para “entrar na caixa”.

“Um novo arranque na sua vida”

Atualmente, nas pequenas cidades do Brasil a moto é o sonho de consumo de todo rapaz ou moça, não está exatamente ligado ao trabalho como no caso dos motoboys de São Paulo e sim ao lazer e ao tão sonhado salto social que o veículo mais acessível que o carro promete.

Taxas padronizadas de óbitos por acidentes envolvendo veículos
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Fonte: Secretaria de Vigilância em Saúde – Ministério da Saúde

De fato, as chances da vida de um motociclista ser “arrancada” pelo trânsito vêm crescendo, mas isso não está na propaganda da Honda.

Ainda há muita gente para morrer.

:: Evolução da Mortalidade por Violência no Brasil e Regiões, Ministério da Saúde.

Written by panopticosp

agosto 21, 2007 at 23:19