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Dell descrimina cidadãos e cientistas de Cuba, Irã e outros

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Paulo R. S. Gomes estuda física, é membro do Instituto de Física da Universidade Federal Fluminense e comprou um computador da Dell. Como o computador iria para um Instituto de física a Dell exigiu que seu cliente assina-se documentos com termos como:

– Não transferir [o computador] para Cuba, Irã, Coréia do Norte, Sudão, Síria, ou a qualquer estrangeiro com dupla nacionalidade, ou a qualquer outro país sujeito a restrições sob leis e regulamentos aplicáveis onde não estejamos situados, sob o controle de um indivíduo natural ou residente deste país;

– O cliente está usando algum cartão de crédito internacional de algum país com embargo? (Afeganistão, Cuba, Irã, Iraque, Líbia, Coréia do Norte, Sudão ou Síria)

Paulo Gomes já havia recebido o computador quando sua assinatura foi requerida, ele não assinou nada, devolveu o computador e propõe um boicote à Dell.

A Dell diz que precisa saber qual será a destinação final dos seus produtos, onde e por quem serão utilizados.

Os estudos científicos são desenvolvidos há séculos de forma simples: alguém tem uma idéia baseada num método científico, publica seu estudo, ele é discutido e avaliado por outros cientistas, qualquer um que queira utilizar o estudo para ter uma idéia é livre (e estimulado) a fazê-lo. Todos os estudos científicos são herdados pelas gerações seguintes, que por sua vez discutem, aprimoram e propõem novas teorias que serão avaliadas.

Gerações de homens e mulheres trouxeram-nos ao presente estado da arte da computação. A Dell lucra produzindo máquinas desenvolvidas pela Humanidade e agora quer restringir a colaboração entre um físico brasileiro e outro que por obra do acaso nasceu num país inimigo daquele onde a Dell é sediada.

Ao exigir que um cliente pesquisador deixe de colaborar com cidadãos de certos países em nome da hegemonia dos Estados Unidos, a Dell quer decretar o fim da idéia de “comunidade científica”; em nome do lucro privado, quer decretar o fim do desenvolvimento coletivo.

A Dell diz obedecer às leis dos EUA. Paulo Gomes é brasileiro e acredita que deve obedecer às leis brasileiras.

Leia a carta do físico apoiada pela diretoria da Socidade Brasileira de Pesquisa:
Exigências absurdas da Dell do Brasil, por Paulo Roberto Silveira Gomes e Diretoria da SBF.

Termos da Dell publicados pelo físico:
Carta Explicativa EC Juridica-Dell
Declaração Pessoa Juridica-Dell
TCP Trade Compliance Profile-Dell

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setembro 17, 2007 at 12:23

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Estudar o problema ignorando as soluções

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Foto: wjpbennett. Alguns direitos reservados.

Está disponível uma tese de doutorado do Departamento de Engenharia de Energia e Automação Elétrica da Poli que diz que em rodovias em que o tráfego de automóveis é intenso, adotar uma velocidade baixa, pode reduzir o congestionamento.

O pesquisador adaptou um software usado em linhas de produção e automação industrial para simular o trânsito num trecho de 3 km de rodovia.

O estudo descobriu uma daquelas coisas que não nos são ensinadas, mas todos sabemos por observação. Numa montoeira de gente, num espaço delimitado, não adianta sair todo mundo correndo na mesma direção, ao mesmo tempo. É melhor ir um pouco de cada vez.

Os 2.990 metros iniciais do percurso em estudo foram destinados à velocidade controlada. Nos 10 metros finais do percurso foi considerada uma obstrução parcial de uma das faixas da rodovia, simulando um acidente ou obra em andamento.

Os “acidentes de trânsito”, apesar de continuarem levando este nome, não são acontecimentos casuais, fortuitos, inesperados. Acontecem todos os dias do ano, todas as horas do dia. Não são tragédias que podem gerar alguma tristeza aos alheios. São obstáculos que atrapalham a vida dos motoristas durante o dia, são estatísticas no final do mês. São fatos tão inesperados e raros que são considerados em simulações.

O pesquisador disse a Agência FAPESP:

“Tradicionalmente utilizado em sistemas de filas para otimizar a produção industrial e reduzir as perdas, o software foi adaptado para simular o tráfego veicular. É como se um pedaço de estrada fosse uma máquina que produz e consome veículos por minuto”

A engenharia é maravilhosa. Uma máquina, uma estrada, pessoas. Qualquer unidade pode ser considerada dentro de um sistema, ser estudada, calculada, e, portanto, é passível de controle e melhorias.

A imagem do simulador de linhas de produção consumindo peças e do simulador de estradas consumindo veículos poderia ser natural à engenharia, se não fossem veículos dirigidos por pessoas, se não fossem traumatismos cranianos as “obstruções parciais” da via, se não fossem pessoas queridas por alguém as “perdas” da linha.

O esforço público em periodicamente encontrar paliativos à questão do trânsito é cínico, mas tão cínico quanto em outras áreas onde a iniciativa pública é essencial. A produção científica dedicada à simples demonstração de determinada técnica, que se venda diante das demais soluções possíveis conhecidas, que não faz mais que adiar a possibilidade de solução é odiosa.

O estudo, em vídeo abaixo, chamado Eficiência do transporte público e do privado não utiliza um software de linha de montagem industrial para simulação, utiliza um órgão que permite detectar a luz e transformar essa percepção em impulsos eléctricos, o olho.

As soluções estão aí para quem quer ver. Não sou engenheiro, mas parecem muito mais simples.

Referências:
Controle de congestionamento veicular, de Plínio Castrucci; Roberto Godoy. IN Revista IEEE América Latina, Volume 4, Março de 2006.
Trânsito livre, por Thiago Romero. Artigo da Agência FAPESP.

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junho 5, 2007 at 18:41

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Seminário sobre impactos das mudanças climáticas em SP

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Na próxima quarta-feira, dia 06/06, acontece o seminário Impactos das Mudanças Climáticas e Cenários no Estado de São Paulo, na sede da CETESB, Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental.

Os assuntos são: possíveis impactos das mudanças climáticas na agricultura; biodiversidade; nível do mar; saúde humana no Estado; conclusões dos Relatórios I, II e III do IPCC; articulação das políticas públicas; história das mudanças em São Paulo; e outros.

Programação e informações na página do Instituto de Estudos Avançados da USP

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junho 4, 2007 at 12:38

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Consulta pública sobre conhecimento tradicional

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Foto: André Campos, publicado em Repórter Brasil. Copyleft

O Conselho de Gestão do Patrimônio Genético (CGEN) prorrogou até a segunda semana de agosto a consulta pública sobre a legislação que trata da repartição de benefícios gerados a partir do uso do conhecimento tradicional associado ao patrimônio genético.

Convenção sobre Diversidade Biológica coloca que

Quando o uso de conhecimentos tradicionais tiver finalidade de exploração econômica, que gera benefícios (por exemplo, um medicamento desenvolvido a partir daquele conhecimento tradicional), esses benefícios devem ser repartidos com as comunidades.

A consulta é um questionário sobre quais os procedimentos mais adequados para garantir a repartição desses benefícios.

Na introdução do questionário o Conselho de Gestão do Patrimônio Genético sugere quatro formas de acesso ao conhecimento tradicional, são elas:

– Na primeira alternativa, a instituição escolhe uma comunidade, que lhe passará o conhecimento. Assim, há um Contrato entre a comunidade e a instituição. Neste caso, os benefícios irão apenas para a comunidade que passou o seu conhecimento. As outras comunidades que têm o mesmo conhecimento não receberão nenhum benefício.

– Na segunda alternativa, a instituição faz um Contrato com a comunidade que passou o conhecimento. Além disso, a instituição também tem que repartir benefícios com outras comunidades, financiando projetos no valor equivalente ao estabelecido no Contrato.

– Na terceira alternativa, a instituição faz um Contrato com todas as comunidades que têm aquele conhecimento. Neste caso haveria que se procurar todas as comunidades que possuem o conhecimento que ela quer e, em seguida, convencer a todas que concordem em passar as informações.

– Na quarta alternativa, a instituição faz um Contrato com a União. Depois a União repassa os benefícios para as comunidades. Neste caso, o Contrato deve ser assinado depois do consentimento prévio fundamentado da comunidade provedora.

Podem participar comunidades indígenas e locais, o setor acadêmico e empresarial, organizações governamentais e não-governamentais.

As contribuições podem ser enviadas por e-mail cgen@mma.gov.br e também por escrito ao Ministério do Meio Ambiente. endereço e outras informações aqui

Questionário em PDF

Relacionados:
Conselho de Gestão do Patrimônio Genético
Ministério do Meio Ambiente
Biopirataria

Technorati tags: propriedadeintelectual, indigena, quilombolas, biotecnologia

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abril 27, 2007 at 14:42

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Programa de Aceleração do Crescimento e Malária

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A Agência FAPESP entrevistou o parasitologista Luiz Hildebrando Pereira da Silva, da Universidade Federal de Rondônia. Para ele grandes construções, como barragens, na região amazônica podem causar uma explosão de malária.

Agência FAPESP – Por que a malária continua sendo um grave problema na região amazônica? Quais são os maiores problemas atuais?

Luiz Hildebrando Pereira da Silva – Historicamente, os grandes surtos de malária ocorreram durante a construção da estrada de ferro Madeira-Mamoré, devido aos grandes deslocamentos de pessoas de outras regiões do país para o garimpo, e como conseqüência da construção de hidrelétricas. Isso sugere que a região tem um forte potencial para desenvolver epidemias concomitantemente a essas grandes obras. A despeito desse fato, o governo federal quer construir mais duas hidrelétricas ao longo do rio Madeira e gastar bilhões com isso. Com muito menos dinheiro poderíamos controlar a ocorrência da doença na região. Nosso objetivo é estudar o porquê desse potencial malarígeno. Já temos algumas pistas que podem nos ajudar a controlar a doença.

leia a entrevista

O próprio Ministério da Saúde em seu site, coloca no histórico da doença:

A partir da década de 70, os projetos de desenvolvimento da Amazônia, promoveram uma grande migração interna no País, com alterações ambientais importantes e exposição de grande contingente populacional à área malarígena. Essa situação provocou a dispersão da malária pelas regiões Norte e Centro-Oeste, com aumento significativo do número de casos, passando-se a alcançar níveis de 450 a 500 mil casos anuais.

mais do Ministério da Saúde

Marcos Cueto, da Universidade Peruana Cayetano Heredia, declarou à Agência FAPESP que

A resistência dos mosquitos aos inseticidas era maior do que se previa. Além disso, houve pouca comunicação com os setores de saúde regionais. Também não se previu o impacto dos movimentos de migração por motivos econômicos, como o impulsionado pelo garimpo, por exemplo.

(…) Não devemos esquecer que a malária é, sobretudo, uma questão rural, e o problema da transmissão da doença está relacionado à forma de desenvolvimento adotada pelos governos.

mais

Technorati tags: malaria, pac

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abril 19, 2007 at 18:05

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Prefeitura de SP disponibiliza geoinformações

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Infolocal

Uma das maiores dificuldades dos pesquisadores é encontrar dados regionais das cidades estudadas. Em São Paulo são muitos dados a disposição, mas dados gerais (não regionais). Numa cidade com condições de vida gritantemente diferentes, trabalhar com dados do munícipio como um todo é dar com os burros n’água. Dados sobre o abastecimento de água encanada, por exemplo, são muito modificados com a região de Parelheiros e Marsilac no bolo. É aquela história da média: eu como dois frangos por dia, meu vizinho nenhum, na média a população come um frango e, portanto, vive bem alimentada.

A cidade quase 11 milhões de habitantes já foi fatiada de diversas formas. Desde 2000 são 96 distritos. A análise distrital permite sacar vulnerabilidades, concentrações e, claro, planejar políticas públicas focadas.

O IBGE fornece uma enorme quantidade de dados através da ferramenta Cidades@, mas não os fornece segundo distritos municipais.

A Fundação SEADE era a única fonte confiável de dados distritais a disposição, seus pesquisadores elaboraram diversos estudos, como o Índice Paulista de Vulnerabilidade Social; e seus dados são manipulados por diversos núcleos, como NEV e CEBRAP, este formulador do chamado Mapa da Exclusão de São Paulo. O SEADE também tem uma ferramenta que permite referenciar em mapa os diversos dados selecionados. A questão é que o sistema fica quase limitado a pesquisadores, pois sua linguagem é, digamos, demográfica e cheia de recortes pela situação x, y e z (são eles que interessam, afinal)

Vi no W2BR sobre o sistema implantado pela Prefeitura de São Paulo. O Infoloc@l utiliza a base cartográfica do ignorante Google Maps, que permite a visualização de fotos de satélite e de ruas.

A ferramenta é muito bonita, dinâmica, bem feita e, principalmente, fácil de usar. O que mais me impressionou foi a possibilidade de clicar sobre o dado adicionado ao mapa e verificar facilmente endereço, telefone e outros.

Os dados disponíveis para referência em mapa são bem poucos. Quase nada. O que não parece um problema, pois trata-se de uma versão de teste, portanto, imaginamos que ele ainda será bem abastecido. O problema principal do Infoloc@l na parte cartográfica são os dados com que é abastecido. Eu não encontrei a referência das fontes, ou seja, quem coletou as informações e garante sua veracidade; não encontrei a metodologia de coleta, ou seja, como foram coletadas; e não encontrei quando foram coletadas. São informações básicas para se utilizar um mapa, se não posso verificar se concordo com o modo como as infos foram coletadas, não posso utilizadas em meu trabalho.

Segundo a prefeitura,

Todas as informações do Censo 2000 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estão acessíveis pelo Infoloc@l, que também conta com um sistema de busca por palavra-chave. A proposta é facilitar o acesso a informações cadastrais, estimulando o conhecimento da cidade por meio de estatísticas georeferenciadas.

O que não se sabe é quais são as informações do IBGE e quais não são. Parte das informações certamente são da própria prefeitura. Cada Secretaria repassa suas infomações, as infos sobre escolas são fornecidas pela Secretaria de Educação e assim por diante. Aí que pode morar o problema, você pode estar olhando para um mapa com dados de 2000 (equipamentos de cultura, por exemplo) e outro de 1990 (escolas, por exemplo) achando que pode compará-los. Além disso, é bom lembrar dos casos em que divisões públicas-politizadas, como Secretarias, foram acusadas de categorização errada (vide dados sobre mortes violentas), desatualização, ocultação de dados politicamente desvantajosos e a inflação de dados vantajosos.

Como o público-alvo não é o pesquisador, não é preciso detalhamentos mil, mas o acesso claro à fonte é o mínimo. Diferentemente do que acontece nos mapas a parte de tabelas mostra a fonte, geralmente “SEMPLA/DIPRO”. A questão é que a SEMPLA na imensa maioria dos casos, gerencia dados, não os coleta. Sobre a usabilidade, na hora da montagem da tabela, não tem muito jeito, tem que saber mais o menos o que é uma variável na coluna, categoria, seguimento…

Segundo a prefeitura“, as bases de dados serão atualizadas periodicamente neste Sistema de Informações Geográficas (SIG), criado em 2002”.

Abaixo, podemos observar a forte concentração de equipamentos de cultura na região do centro expandido da cidade. A região da cidade mais adensada é a Leste e, como vemos, uma das mais carentes desse tipo de equipamento. A região Leste, porém, em relação a parte pobre da região Sul, tem mais facilidade de acessar estes equipamentos, por conta de outro equipamento fundamental, o metrô. Um cuidado aqui, pode-se ver que a maioria dos equipamentos são bibliotecas infanto-juvenis, seu acervo é muito pequeno e funcionamento é desconhecido, portanto… sempre deve-se considerar informações “qualitativas” na leitura de dados “quantitativos”.

Equipamentos de cultura e estações do metrô em São Paulo

Relacionados:

O que é Sistema de Informações Georeferenciadas – SIG
Estatísticas gerais do munícipio de São Paulo
Secrataria de Municipal de Planejamento de São Paulo – SEMPLA

Technorati tags: geoprocessamento, infolocal

Written by panopticosp

fevereiro 1, 2007 at 18:47

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