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Televisão no meu busão, não

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Em caso de tentativa de furto do seu olhar, cubra a tela
Para informar abusos ligue para Movimento Acorda São Paulo 0800-156-1984 ou acesse http://www.minhamentenaoehpenico.gov.sp.br

No início de 2007, os usuários de ônibus de São Paulo foram pegos de surpresa. Quem entrava num ônibus e pretendia chegar ao seu destino com segurança, respeito e rapidez, recebia uma propaganda do Mcbacon, uma porção de videoclipes de grandes gravadoras e um bocado de “pegadinhas” e “videocassetadas”.

Começava aí o ataque em massa dos interesses privados sobre o espaço público e o tempo coletivo na autodenominada “Cidade Limpa”. O site da empresa responsável pela instalação dos televisores nos ônibus e pela transmissão do sinal deixava bem clara a vantagem do sistema: “Audiência cativa pelo período médio de duas horas por dia”, “único canal sem risco de zapping”, “foco único de atenção a bordo dos ônibus”.

Após um curto período de teste, o sistema foi expandido. Outras empresas de transmissão entraram no negócio e novas concessionárias de transporte instalaram televisores sobre a cabeça de seus usuários.

Numa época de queda geral de audiência, a novidade vinha bem a calhar com os interesses das grandes emissoras do país. Com uma massa de pessoas confinadas diante de telas de televisão exibindo uma programação incessante estaria instituído o fim do controle remoto, o fim da ida ao banheiro, o fim do botão “desligar”.

Foi, então, em 2009, que o sequestro dos olhares se consolidou. A Rede Globo, um dos maiores oligopólios de mídia do mundo, entrava no jogo. A teleidiotização dos cidadãos de São Paulo estava, finalmente, garantida.

Hoje, todos os dias, em centenas de ônibus da cidade, capítulos legendados das novelas e outros enriquecedores programas da Globo acompanham todo cidadão que, dentro do busão, revolta-se com o trânsito de carros parados e a qualidade do serviço de transporte mais caro do país.

Contra esse ataque a nossas mentes, contra a privatização do espaço público, contra a priorização do transporte privado motorizado e contra o avanço da comercialização de um direito, protestamos!

Relacionados:
Lei municipal nº 6681/65 ou como ser torturado em um ônibus [Update], artigo, blog do Tsavkko
Militantes do MPL protestam contra aumento nas tarifas e pela tarifa zero dentro da Secretaria de Transportes, notícia, CMI
Informação? Só ferindo privacidade, artigo, Panóptico
Mais uma do Bilhete Único espião, artigo, Panóptico
Tarifa única de ônibus em SP, só pagando adiantado, artigo, Panóptico
Notícias de um trânsito invisível, artigo, Panóptico

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Written by panopticosp

dezembro 23, 2009 at 0:23

Natura desrespeita lei Cidade Limpa

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Mais uma mega empresa faz a prefeitura de São Paulo de otária.

Com o tema “poesia concreta” diversos letreiros gigantes foram instalados na cidade. Com autorização municipal, os letreiros exibem as palavras “descanse”, “relaxe” e outras que remetem ao questionamento da rotina na metrópole.

A questão é que a empresa de cosméticos Natura veicula campanha da linha de produtos “Todo dia” tratando do mesmo tema. A campanha propõe a valorização da rotina e dos pequenos momentos que compõe o dia a dia. Obviamente, as imagens e mensagens leves e fofinhas vendem a idéia de que o uso de cosméticos deve ser incorporado à rotina de toda mulher.

Além do vídeo do tal dia a dia, que diz que é preciso “resgatar os momentos que estamos perdendo nessa rotina maluca”, a Natura tem uma campanha de… Poesia concreta, claro.

O jornal Folha de S. Paulo traz hoje, 14/07, boa reportagem crítica apontando a mensagem subliminar das instalações e registrando as declarações da presidente da Emurb, de um dos artistas e da Natura. Segundo o jornal, a Natura afirmou que apoia o projeto “Poesia Concreta”, do grupo artístico Bijari, mas ressaltou que “não veicula sua publicidade em mídias que interfiram na paisagem urbana”.

Em abril, a Vodca Absolut também desafiou a lei fazendo uso da mesma arte. A empresa instalou, em diversos pontos da cidade, globos espelhados sem logotipos ou qualquer outra publicidade evidente. Os globos remetiam a sua campanha “Absolut disco”, veiculada em diversos meios.

Written by panopticosp

julho 14, 2009 at 10:07

Ford ignora Cidade Limpa com anuência de Cine Unibanco

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Não parece, mas esta é a entrada de um cinema em São Paulo.

Eu, como muitos, tenho saudades de quando as salas de cinema não tinham nomes de bancos. Seguimos ignorando a maioria deles, basicamente porque não tem como chamar um cinema de “HSBC” e porque “Sala BNDES” não tem nada a ver com Bergman e Sganzerla. Para as gerações mais novas, entretanto, as nomenclaturas já soam mais naturais, e um cinema com nome de uma palha de aço é algo normal.

Passar em frente a um cinema e ver uma publicidade que faz da porta de entrada uma espécie portal rumo às maravilhas do SUV (carros-tanques-chiques) é um insulto. Um desrespeito ao frequentador do cinema de rua e um ultraje ao cinema não comercial.

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Obviamente, é também uma provocação à lei Cidade Limpa, que limita a publicidade na cidade. A propaganda (mesmo que, por acaso, tenha autorização municipal) é nitidamente exagerada e deixa claro que os donos das lojas e bares em frente, que tiveram que retirar suas placas, fizeram papel de bobos, pois a Ford pode inventar um evento, pendurar um painel do tamanho do prédio, instalar um valet e tudo está legal.

Que a situação financeira dos cinemas de rua não é das melhores, todos sabem. Com o objetivo de manter as salas abertas, concessões são compreeensíveis. Já estampar um carro gigante na fachada e delegar a entrada no salão a promotores de eventos é vergonhoso. Ao menos revela ao público a inspiração mesquinha dos proprietários do cinema.

Relacionados:
O glamour dos valets e a “revitalização” do centro, artigo, panóptico
Ford Edge traz Metropolitan Ópera de Nova York para São Paulo, notícia, Ford

PS. A quem interessar e tiver paciência:
O panóptico arrumou mais informação para se coçar e está no twitter @panóptico

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abril 14, 2009 at 11:32

Cidade limpa e lucrativa

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Texto muito relevante de Ethel Leon, que só li hoje via Fórum Centro Vivo.

Trecho:

(…) Em São Paulo, é fundamental que os futuros móveis incorporem serviços importantes, especialmente para a população de pedestres e usuária de transportes públicos. Até hoje, os abrigos de ônibus apresentam (quando apresentam) mapas mal desenhados; e raramente há informações sobre as linhas de ônibus.

Os atuais relógios (que marcam horas e temperatura) são, em realidade, enormes suportes publicitários. A empresa responsável por sua instalação é a Policrono, que teve renovado seu contrato com a Prefeitura até o final de 2008.

Seria desejável que eles fossem repensados. A Prefeitura poderia, por exemplo, exigir que uma percentagem dos relógios fosse destinado à propaganda de atividades culturais dos órgãos municipais e mesmo estaduais. Ou que fossem menores.

A cidade deve ficar “limpa” para tornar-se atrativa aos grandes negócios do mobiliário urbano. Nada impede, no entanto, que os novos móveis ofereçam serviços úteis à grande maioria. Designers, arquitetos urbanistas e população organizada podem, certamente, abrir espaço e contribuir nessas regulamentações.

Por Ethel Leon, em Revista Brasileira de Design

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abril 7, 2008 at 11:47

TV Out, propagandas em ônibus avançam

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Foto: Yuri Alexandre. Todos os direitos reservados. Reprodução autorizada pelo autor.

A lei Cidade Limpa, deixou a cidade livre de publicidade, com algumas exceções, claro.

Quem detém os espaços onde é possível fazer propaganda dentro da lei em São Paulo? Na prática, prefeitura, governo estadual e empresas por estes controladas. Com a lei Cidade Limpa a exclusividade dos espaços publicitários está, basicamente, nas mãos do proponente da lei.

Quem pretende pegar um trem de metrô, logo perceberá que nos túneis subterrâneos a lei da Cidade Publicitária é a única vigente. Bilhetes, catracas, colunas de concreto, escadas rolantes, laterais dos vagões, televisores dentro dos trens estão tomados de imagens de cremes, chocolates, universidades mercenárias e financiamento de motocicletas.

Quem utiliza um metrô e um ônibus, além de deixar R$3,60 para o sistema, entende que dentro destes espaços públicos de transporte em massa, o território é outro. Eles não pertencem a São Paulo. Nestes territórios a publicidade feroz é permitida.

Nos ônibus, os televisores têm sido a alternativa mais usada para encher a paciência visual dos usuários. A empresa Tv Out se soma a outras, como BusTv e TVO, e tem permissão para entreter os usuários com piadas, previsões do horóscopo e notícias enquanto tenta vender Mclanches, motos e fogões. A empresa espera instalar seus televisores em 1.500 ônibus até o final de 2008.

Poderíamos pensar “foi uma boa deter a exclusividade da publicidade de rua da cidade; afinal, é grana entrando que será investida em melhorias do transporte público”. Não, não existe um único usuário diário do sistema de transporte de São Paulo que possa dizer que algo melhorou no metrô ou nos ônibus publicitários.

Na teoria do livre mercado, o governo concede a algumas empresas privadas o direito de explorar os lucros de serviços básicos. As empresas lucrariam algum, o governo fiscalizaria o trabalho e receberia o troco, que seria reinvestido no sistema.

Na prática do livre mercado, a escolha das empresas que terão permissão para lucrar nas ruas é viciada. O governo é parceiro de uma máfia. Fica com o prejuízo, tampa o buraco financeiro das empresas com o dinheiro público, deixa que a eficiência do lucro tome conta e larga o usuário, mesmo pagando tarifas caras, na mão. O governo, que achava que era parceiro, logo percebe-se refém e que, mesmo que quisesse, precisaria de uma operação policial para se livrar da máfia. Para manter o esquema, as relações obscuras entre público e privado vão se fortalecendo. Sempre em prejuízo do público.

Written by panopticosp

março 20, 2008 at 17:19

TVO continua a invasão privada aos ônibus de SP

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A empresa Bustv Brasil foi a primeira a se beneficiar do trânsito e da Lei Cidade Limpa. O trânsito mantém uma massa enclausurada todos os dias dentro dos ônibus, e a proibição dos anúncios externos garante a exploração privada dos espaços públicos internos (e externos, já que anúncios em equipamentos urbanos de propriedade do município são permitidos).

Em meio ao caos no sistema de ônibus na zona sul da cidade, a TVO, da produtora Mixer, inicia sua invasão nos ônibus de São Paulo.

O usuário compra um bilhete de R$2,30 que lhe dá direito a quatro passagens restritas as leis das empresas de transporte (estar com o bilhete cadastrado ou carregado, resolver tudo em até duas horas…) e, sem sua prévia autorização, disponibiliza à empresa e à prefeitura seu potencial dinheiro – seu poder de consumo.

Vale repetir o texto de março:

Você entra num ônibus do sistema público de transporte na Rua Augusta e só pretende chegar ao seu destino com segurança, respeito e rapidez, mas recebe uma propaganda do Mcbacon, uma porção de videoclipes de grandes gravadoras e um bocado de campanhas institucionais que dizem que você deve pagar seus impostos.

Segundo o presidente da Mixer, “a idéia é levar, principalmente, entretenimento ao usuário deste transporte público” (Fonte: Gazeta Mercantil).

Que ótimo, agora poderei assistir as tradicionais pegadinhas (na TVO, importadas) durante minha viagem até o trabalho.

Obs. O usuário que pegar um ônibus com o canal TVO paga R$2,30 e aluga para as empresas anunciantes apenas seu par de olhos, já que a TVO não tem som. Uma Grande vantagem em relação à Bustv, que aluga dos olhos e ouvidos pelo mesmo preço.

Relacionados:
Televisores invadem ônibus de São Paulo
Mixer lança TVO, de mídia em ônibus, notícia, Sandra Azevedo, Gazeta Mercantil
TVO está em fase de testes, notícia, Clube dos Criadores de São Paulo

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outubro 22, 2007 at 11:59

Ar Limpo

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Junto com a notícia de que a despoluição do Rio Tietê, iniciada nos anos 90 e usada nas campanhas eleitorais da vida, consumiu 3 bilhões e suas águas continuam uma podridão só, vêm as declarações do prefeito Kassab de que a prefeitura de São Paulo pretende reduzir 30% da emissão de poluentes em até 3 anos.

Segundo reportagem de O Estado de S. Paulo a Prefeitura pretende renovar a frota de ônibus, utilizar motores menos poluentes, fazer inspeções anuais e já baixou decreto estabelecendo novos parâmetros para o transporte de carga no centro.

Segundo a reportagem o projeto Ar Limpo é uma continuação do Cidade Limpa, que determinou novos padrões para publicidade externa. Nas declarações nada de regras ou ao menos campanhas que limitem o transporte particular motorizado.

É um tanto simples perceber que ônibus levam um bocado de gente, caminhões um bocado de coisas para um bocado de gente e que carros levam normalmente uma única pessoa ao seu destino. A relação custo benefício é nítida, os grandes vilões da poluição do ar são os carros, conforme reafirmou o recém divulgado relatório da CETESB.

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Foto: serafini. Alguns direitos reservados.

É incrível ouvir as reclamações de motoristas revoltados com a fumaça vinda de caminhões que param ao seu lado no trânsito, os ímpetos de cidadania dos cavaleiros ignoram que as montarias que utilizam todos os dias também cagam e que, apesar da bosta ser menor, ela fede da mesma maneira.

Como nesta cidade carros são cidadãos, não há governante que ouse mexer com esse eleitorado e de fato iniciar um sistema de transporte baseado na sustentabilidade ambiental e no compartilhamento justo do espaço público. Sem a limitação radical da circulação de veículos particulares motorizados as ruas continuarão sendo negadas as pessoas e o ar pesando nos pulmões de todos – motoristas e não-motoristas.

Esse projetos-espetáculo-polêmiquinhas, batizados de “operação alguma coisa” ou “lei fulano de tal”, são, via de regra, paliativos e miram engordar o capital político dos envolvidos e o favorecer financeiramente empresas, pessoas e governos. No caso do projeto de despoluição do Tietê tivemos os favorecimentos e tudo mais, mas, 15 anos depois, diante dos resultados nem de paliativo podemos chamá-lo.

Relacionados:
Relatório de qualidade do ar no Estado de São Paulo – 2006 (arquivo .zip)
Poluição do Ar (verbete wikipédia)

Technorati tags: poluicao, pollution.

Written by panopticosp

maio 17, 2007 at 21:02