Panóptico

Posts Tagged ‘censura

Dia mundial de ação contra a Retenção de Dados

leave a comment »

Hoje, 11 de outubro, marca o dia mundial de ação contra a Retenção de Dados. Nós gostaríamos de demonstrar nossa solidariedade e apoio àqueles que estão sendo forçados pela Diretiva 2006/24/EC da União Européia a participar na vigilância pre-emptiva da infra-estrutura de comunicação. Provedores de Serviços de Internet na Europa estão sendo forçados por esta Diretiva a serem agentes involuntários da polícia, armazenando os dados de comunicação de seus usuários. Nós gostaríamos de externar nosso desacordo com este ataque à privacidade e demonstrar
nosso apoio e solidariedade aos que lutam contra esta inacreditável marcha de acontecimentos.

Estamos construindo as redes de comunicação das próximas décadas, e temos uma importante decisão a tomar: será esta infra-estrutura uma que propicia a liberdade ou que facilita o controle e o monitoramento?

Atualmente nossos sistemas de comunicação estão sendo redesenhados de forma a montar uma espetacularmente eficiente máquina para manutenção de um total controle social. Isto esta sendo feito pelos governos democráticos do mundo, pela ONU, em nome da manutenção da lei. Estes
governos tem um problema: a internet e as novas tecnologias de comunicação estão diminuindo sua capacidade de vigilância legal. Sua solução para este problema tem sido tentar monitoramento total de todas as comunicações e obrigar que cada servidor de internet se torne um braço obtentor de informações para o governo.

As novas tecnologias de packet switching (Comutação por Pacotes), digitalização e criptografia são fundamentalmente diferentes das formas de comunicação do passado. Antes era caro e difícil obter informações de uma pessoa, hoje é possível obter informações detalhadas de milhões de pessoas com o apertar de um botão. Ao mesmo tempo estes novos sistemas de comunicação podem ser projetado de forma a tornar o monitoramento quase impossível. Infelizmente não há um meio-termo: ou nós construímos sistemas que são seguros ou sistemas que são profundamente falhos, facilmente abusáveis, e permissivos ao controle social.

O antigo contrato social com os estados democráticos terminou: não há mais a opção de vigilância estatal limitada. Nós devemos escolher entre uma capacidade de monitoramento estatal fortemente diminuída ou um sistema que permita completo e irrestrito monitoramento pelo estado. Isto decorre da natureza das novas tecnologias de comunicação.

Nossas reivindicações:

* Liberdade de Expressão: Todos devem poder se comunicar de forma anônima e privada. Nossos computadores não devem se tornar extensões da polícia estatal. Não devemos ser obrigados a coletar e armazenar dados de comunicação de nossos usuários. Não devemos ser obrigado a permitir
acesso por “back-doors” ao governo nas suas intenções de interceptar as comunicações de qualquer um.

*Liberdade de Associação: Todos devem poder associar-se livremente, sem estar sujeitos ao acompanhamento e monitoramento da rede com a qual nos associamos. Devemos poder usar ferramentas de comunicação que não revelem o remetente ou o destinatário. Ao governo não deve ser possível, legal ou tecnicamente, construir um mapa de como nossos movimentos sociais são organizados.

Muito das novas técnicas de monitoramento pode ser combatido com a adoção voluntária de melhores protocolos. Outros aspectos precisamos combater através da organização política, nas cortes de justiça, nas ruas e por meio da desobediência ativa à lei.

Há muito em jogo nesta disputa. Precisamos trabalhar no sentido de manter a capacidade dos movimentos sociais de se comunicar de forma privada e livre, caso contrário estaremos entregando nossa capacidade de resistência contra governos, corporações, e injustiça por muitos anos.

Para mais informações sobre o dia mundial de ação veja Freedom Not Fear (Liberdade não Medo)

Fonte: Riseup

Anúncios

Written by panopticosp

outubro 11, 2008 at 20:06

Publicado em mídia

Tagged with ,

Banco de pesquisa sobre saúde bloqueia resultados de buscas por “aborto”

leave a comment »

Traduzímos a notícia abaixo sobre o bloqueio da palavra “aborto” no Popline, um banco de dados sobre saúde mantido com capital do governo dos EUA. Mas antes de publicarmos a notícia, ficamos sabendo via Boing Boing, citando o Women’s Health News, que eles voltaram atrás.

“Eu não poderia discordar mais intensamente da decisão e ordenei que os administradores da Popline restaurem, imediatamente, “abortion” (aborto) como termo de busca”. (Trecho da nota de Michael J. Klag)

Sem a denúncia dos bibliotecários envolvidos, o bloqueio censurador teria passado despercebido. E sem a rápida mobilização de blogs e sites, provavelmente, teria permanecido.

Segue a notícia traduzida amadoramente na última sexta:

Um site de informações médicas mantido pelo governo dos Estados Unidos, que se auto intitula a maior base de dados sobre saúde reprodutiva, discretamente bloqueiou buscas pela palavra “aborto”, ocultando cerca de 25.000 resultados de busca.

O site de busca Popline é dirigido pela Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health, em Maruland, e foi fundado pela Agência para Desenvolvimento Internacional dos Estados Estados (USAID, na sigla em inglês), o escritório nacional encarregado de promover ajuda internacional, incluindo fundos para saúde para nações em desenvolvimento.

O banco de dados indexa um amplo campo da literatura sobre saúde reprodutiva, incluindo títulos como “Previous abortion and the risk of low birth weight and preterm births” (Abortos prévios e riscos de nascimentos abaixo do peso e prematuros) e “Abortion in the United States: Incidence and access to services, 2005” (Abortos nos Estados Unidos: Incidência e acesso aos serviços, 2005).

Mas na quinta-feira, uma busca por “aborto” resultava apenas a mensagem “”No records found by latest query” (Nenhum dado foi encontrado para esta última busca). Stephen Goldstein, porta-voz da Johns Hopkins, disse que não se trata de censura e que no momento não poderia comentar.

Sob a política de Reagan, reaviavada pelo presidente Bush em 2001, a USAID rejeitou manter uma organização não-governamental que realizasse abortos, ou que vissasse “promovê-lo ativamente como um método de planejamento familiar em outras nações”.

Um bibliotecário da University of California em São Francisco percebeu a nova censura na segunda, enquanto realizava uma pesquisa de rotina a pedido de acadêmicos e pesquisadores da universidade. O termo de busca vinha funcionado corretamente desde Janeiro.

Perplexo, ela contatou o gerente do banco de dados Johns Hopkins’ Debbie Dickson, que respondeu em 1º de Abril por e-mail que a universidade tinha recentemente bloqueado o termo de busca porque o banco de dados recebou capital federal.

“Nós recentemente bloqueamos todos os termos relacionados a aborto”, Dickson escreveu em nota a Gloria Won, bibliotecária do centro médico da Universidade da California. “Como um projeto de fundos federais, nós decidimos que isso é o melhor no momento”.

Dickson sugeriu outros tipos de estratégias de buscas, como palavras mais obscuras e alternativas para desviar do bloqueio às palavras-chaves. “Além dos termos que você já usou, você pode tentar usar ‘controle de fertilidade, pós concepção’. Este é o termo paralelo para o nosso termo ‘aborto’ e a maioria dos arquivos possuem ambas palavras-chave”, ela escreveu.

Ela também sugeriu usar como estratégia de pesquisa o eufenismo “gravidez não desejada”. Mas as palavras alternativas não satisfizeram os críticos da censura. “A principal função do site deles é a busca por palavras-chave, e se você usa uma frase que contenha a palavra ‘aborto’ ele ignora este”, percebeu que Melissa Just, diretora da biblioteca do Instituto de Pesquisa sobre Câncer e do hospital City of Hope, em Duarte, California. Just acompanhava a conversa numa lista de discussão, e se viu indignada quando se deparou com o insidente da censura.

“Mesmo que você esteja tentando formar um argumento para alguém defendendo que o aborto não é uma boa idéia – quer seja considerando o risco à saúde, ou a preocupação com o bem-estar mental -, você não conseguirá encontrar artigos sobre suas pretensões”, ela diz. “São escluídos ambos os acessos, pró e contra [o aborto]”.

Fonte original: U.S. Funded Health Search Engine Blocks

Written by panopticosp

abril 7, 2008 at 15:38

Publicado em política

Tagged with

Tibete livre

with 4 comments

Encontrar informações independentes sobre a situação no Tibete não é muito fácil. Traduzimos de forma amadora e bastante atrasada o relato-resumo “Tibet: nearly 1,000 jailed in Lhasa, Dalai Lama offers to resign”, de Xeni Jardin, publicado originalmente em Boing Boing, no dia 18/03. Os links contidos no texto não foram traduzidos, permanecem em inglês.

__Acima: vídeo do dia 15/03/2008 (capturado por celular). Milhares de monges protestam no mosteiro Xiahe em Labrang, província de Gansu na China

death_tibet.jpg

__Acima: Os corpos de oito manifestantes foram levados para dentro do mosteiro Ngaba Kirti, na área de Ngaba, ontem. A imagem de phayul.com indica que os observadores estão jogando dinheiro sobre os corpos, numa tradicional expressão de luto. Estudantes de Students for a Free Tibet relataram que mais de 20 manifestantes foram mortos em Ngaba. Aqui estão as fotos dos mortos (imagens fortes). Cópias das mesmas fotos aqui.

__Aqui a primeira impressão pessoal de Spende Palermo, técnico de som e documentarista de Oregon, que estava neste mosteiro trabalhando para um programa de TV da National Geographic no último sábado, quando irromperam os protestos. Quando seu trabalho acabou, ele enviou este e-mail para seus amigos, da China.

__Após dois dias de patrulha do exército e polícia chinesa, aproximadamente mil tibetanos foram detidos por autoridades chinesas em Lhasa:

“Pesquisas na cidade dizem que 600 pessoas foram detidas no sábado e outras 300 no domingo. Não está claro onde estes grupos estão aprisionados, isso porque acredita-se que a principal prisão de Lhasa já esteja lotada.

Estes detidos podem ter sido levados para a prisão Número Um, no distrito de Sangyio, noroeste de Lhasa, que atualmente não estava em uso. Eles também podem ter sido levados para a prisão Número Quatro e para a nova prisão de Lhasa, no mesmo distrito que, recentemente, vinha sendo usado como centro de reeducação através do trabalho. Eles ainda podem ter sido levados para a nova prisão de Chushur, fora de Lhasa, local onde a maioria dos prisioneiros políticos são confinados após a condenação.”

Estas prisões são notórias violadoras dos Direitos Humanos no Tibete, como é Abu Ghaib no Iraque.

__O Dalai Lama declarou que renunciará como chefe do Estado do governo do Tibete no exílio se a violência prosseguir:

“’Se os tibetanos escolherem o caminho da violência, ele terá que renunciar, porque é completamente comprometido com a não-violência’, disse Tenzin Talha. ‘Ele renunciaria como líder político e chefe de Estado, mas não como Dalai Lama. Ele sempre será o Dalai Lama’”

__Aqui temos mais sobre ao bloqueio do You Tube na China no momento: o site está sistematicamente bloqueado, junto com o Google News, devido a explosão de material sobre o levante no Tibete.

__Erick Schonfeld do TechCrunch pergunta,

“O que o Google fará para restaurar o acesso ao You Tube e ao Google News na China? A China é um grande mercado que o Google precisa estar. A empresa vai retirar voluntariamente todos os vídeos e notícias sobre o Tibete? Ou o governo chinês vai ter que descobrir sozinho como fazê-lo? Existe um precedente: na China, você não consegue encontrar na web muita informação sobre o protesto da Praça Celestial de 1989, incluindo aí a famosa imagem de um homem bloqueando sozinho uma fila de tanques de guerra.”

__O presidente George Bush retirou a China da lista dos maiores violadores dos Direitos Humanos apenas três dias antes da explosão de violência no Tibete. Dê uma olhada no editorial de hoje do New York Times, “China aterroriza o Tibete”:

“Em seu relatório anual sobre os Direitos Humanos em 190 países, o Departamento de Estado considerou que a avaliação de Beijing, de forma geral, permanece pobre. Mas, no que parece ser uma recompensa política ao governo, o Departamento retirou a China da lista de dez maiores violadores.

A China teve a chance de brilhar com a festa das Olímpiadas e a arruinou. Seus líderes terão que continuar a combater protestos e agitações – e com o endurecimento da reprovação internacional – até que assegure mais liberdade para todos seus cidadãos, incluindo tolerância religiosa e liberdade ao Tibete.”

__Muitos leitores do Boing Boing que estão na China têm relatado que eles não conseguem acessar nosso site sem censura, por conta do conteúdo relacionado ao Tibete. Chris, da china, explica:

“Desde que Boing Boing começou a escrever sobre o Tibete, ele tem sido freqüentemente bloqueado na China. Eu não acho que é um bloqueio muito específico como “You Tube está bloqueado”, mas sim que o grande Firewall (filtro) está encontrando a palavra-chave ‘Tibet’ e a bloqueando. Já está melhor, eu consigo carregar parte do site antes da mensagem ‘Connection Reset’ aparecer, mas não consigo carregar vídeos do You Tube (que está bloqueado) e imagens do Flickr (que parece ter sido bloqueado, novamente).

Eu posso acessar o site através de um proxy (gladder do firefox, fortemente recomendado), entretanto, vídeos continuam não funcionando, e são expecionalmente lentos.

Mais um ponto interessante. Eu vi rapidamente no Boing Boing sobre a antipatia dos chineses em relação aos ‘ingratos’ tibetanos. Este parece ser o consenso entre meus alunos. Eu dei a eles um artigo do NY Times para leitura e ressaltei a diferença entre as contas das autoridades chinesas (8 pessoas mortas, sem soldados, sem armas) e as que tibetanos e repórteres têm confirmado (80 mortes confirmadas, soldados, tanques, tiros durante o dia). A resposta de meus alunos foi ‘é claro que eles dizem isso. Eles são estrangeiros. Eles não podem saber’. Tome isso simplesmente assim: mesmo quando confrontados com tamanha contradição, os estudantes chineses continuam acreditando em seu governo.

Isto não é nada inusual para muitos estudantes. Eu falo de censura. Eles sinceramente acreditam que a censura do governo os protege de mentiras e ‘coisas ruins’ (como uma sala de aula se referiu há um ano: quando eu perguntei o que eram ‘coisas ruins’, eles não tiveram respostas. Finalmente, um estudante disse ‘nós não sabemos, porque nosso governo nos protege disso!’). Eu sei que essa não é uma atitude universal aqui na China, mas eu considero esta uma anedota interessante e importante para se manter em mente ao observar o cidadão chinês mediano e sua resposta a censura ostensiva”.

__Hoje, há uma enxurrada de reportagens sobre os novos protestos, novas ondas de prisões e novos mortos e feridos relacionados aos protestos pela indepedência tibetana por toda zona autonôma do Tibete e por todo o mundo. Alguns blogs e notícias específicas sobre Tibete que estou acompanhando: Phayul; Canada Tibet Committee; SFT, TCHRD; a tourist in Tibet. Ver também Images and News of Tibet Riots Seep Onto Web, Despite Chinese Authorities’ Clampdown

(Obrigado Christal Smith, monkey e outros)

————
PS. Se você tem alguma correção da tradução deixe um comentário. Se gostaria de traduzir os links do texto acima para o Português, envie para panopticosp arroba yahoo ponto com ponto br, publique no seu blog e retorne um link para este artigo, e/ou publique em sites de publicação aberta como midiaindependente.org

Relacionados:
Replay 1, China 3, blog da Soninha
Apelo, blog da Soninha
O Tibete, a China, o boicote e uma sinuca de bico, Pedro Doria web blog

Technorati tags: tibet, china, censorship

Written by panopticosp

março 20, 2008 at 20:02

Os “suspeitos” de sempre e os “jovens” de sempre

with 6 comments

Em 1888 os Anais da Câmara dos Deputados registravam:

As classes pobres e viciosas sempre foram e hão de ser sempre a mais abundante casa de toda sorte de malfeitorias: são elas que se designam mais propriamente sob o título de “classes perigosas”; pois quando mesmo o vício não é acompanhado pelo crime, só o fato de aliar-se à pobreza no mesmo indivíduo constitui um justo motivo de terror para a sociedade. O perigo social cresce e torna-se de mais a mais ameaçador, à medida que o pobre deteriora a sua condição pelo vício e, o pior, pela ociosidade (vol.3, p.73, sessão de 10 de junho de 1888 )

Faz tempo, mas nada mudou. Os perigosos de ontem continuam sendo os suspeitos de malfeitorias de hoje. Têm classe e raça bem determinadas. Quando o criminoso condenado não se encaixa neste grupo de sempre, o judiciário dá um jeito de encaixá-lo no papel de vítima de sempre.

No final do ano passado, o juiz Joaquim Domingos de Almeida Neto, do Rio de Janeiro, proibiu determinados jornais e emissoras de televisão de veicular nome e imagem de dois condenados (condenados, não suspeitos) por espancamento que não pertenciam ao grupo social eternamente suspeito.

O caso
No dia 04 de novembro do ano passado, Fernando Mattos Roiz Jr., de 19 anos, Luciano Filgueiras Monteiro, de 21, e um menor de idade roubaram um extintor de incêndio e o utilizaram para atacar um grupo de prostitutas na Barra da Tijuca, ferindo seriamente as vítimas. Uma pessoa viu tudo e chamou a polícia. Os agressores não pegaram cana; rodaram com uma pena alternativa, trabalhar oito horas por semana na limpeza de ruas, durante um ano.

O pai de um dos agressores deu entrevistas afirmando que a pena era injusta e que o espancamento não passava de uma brincadeira de criança. Virou notícia. Baita inconveniente. E jovem com futuro promissor não pode ter inconvenientes pelo caminho. Com a divulgação de fotos dos rapazes, o pessoal ficava zoando com eles. Não pode. Seus advogados, então, entraram com o pedido de censura prévia e o juiz assinou embaixo calando os dez principais veículos do RJ.

Primeiramente é bom lembrar que, num caso de agressão deste tipo, a pena alternativa é uma alternativa para quem tem advogado. Quem não tem alternativa fica com o defensor público e puxa cadeia por furtar uma tesoura ou coisa do tipo.

As declarações do pai do espancador e a posição do juiz revelam valores vigentes desde que se implantou sistema judiciário nestas terras. Quando se junta raça negra, profissão de baixo nível e pobreza o cara é um perigo para a sociedade de bem; quer logo passar a mão nas coisas de gente que conseguiu tudo com seu próprio trabalho (em vez de procurar a polícia, a vítima manda cartinha para jornal, que é a instituição que irá defendê-lo).

Quando junta-se profissão de bom nível, poder econômico, cor da pele branca e crime, alguma coisa está errada. Espancaram empregada doméstica que estava no ponto de ônibus? Coisa de jovem, pensavam que era uma prostituta, foi engano. Queimaram índio na rua? Poxa, a garotada o confundiu com morador de rua. Espancaram prostitutas? Foi brincadeira, todo mundo faz isso.

O papai pode até achar que seu filho não deveria ter o nome no jornal. Já juiz aceitar o argumento dos advogados dele significa outra coisa. Afirmar que sua decisão “independe de raça, profissão ou gênero” é tirar onda com a cara de qualquer um que viva no Brasil ou saiba o que se passa nas ruas e casas do país, e é insultar quem apanha por ser suspeito.

Fica combinado, então. Já que o judiciário está preocupado com a exposição na mídia de pessoas envolvidas em crimes. E já que isso não tem nada a ver com classe, gênero ou raça é o fim da clássica foto do caçador com sua caça:

Não veremos mais cena de suspeitos negros sem camisa (zoom nas tatuagens) tendo o rosto levantado à força por policiais para que os jornais e TVs tenham uma boa imagem.

Conseqüentemente, os policiais também ficam liberados de emprestar camisa ou paletó para os condenados que possuem bons advogados esconderem os rostos.

O juiz decide poupar duas pessoas que, como bem resumiu Idelber, agiram claramente motivados pelo gênero, profissão e classe das agredidas, “numa clássica denegação freudiana”, para isso censura a imprensa e tudo bem, fica por isso mesmo?

Os grandes jornais dedicaram quantos editoriais raivosos contra a decisão do juiz? Quantos artigos argumentaram em defesa da liberdade de impresa? Só notícia curta e nota padrão. Discutir plano de controle externo do judiciário edemocratização da mídia propostas pelo governo é que é censura de verdade e merece enxurrada de artigos cheios de frases pungentes em defesa da democracia.

Jovens x Suspeitos
Sugestão: ler os jornais de amanhã contando quantos suspeitos ou culpados pertencentes à classe média/alta são denominados como suspeitos ou condenados. Depois conte quantos suspeitos ou culpados pertencentes à classe baixa são denominados como jovens.

Um adiantamento do resultado:

Jovens são acusados de espancar índio até a morte em MG” (18/09/2007, Folha de S.Paulo)
Jovens de classe alta são acusados de tráfico” (09/11/2007, Folha de S.Paulo)
“Minas Gerais: Polícia prende dois suspeitos de assassinato” (14/12/2007, Folha de S.Paulo)

Relacionados:
A última do judiciário, parte 328, artigo, O Biscoito Fino e a Massa
A mídia miou, artigo, Observatório da imprensa
O judiciário decide o que é notícia…, artigo, Na média
O filtro curto e objetivo, artigo, Acorda Brasil
Limpeza nos jornais, artigo, Consultor jurídico

Censura e demissão no Jornal do Comércio de Porto Alegre, artigo, Panóptico
A construção das classes perigosas no Brasil, artigo, CMI
Para não repetir a tragédia da Escola Base, artigo, Observatório do direito à comunicação

Notas públicas:
Associação Nacional de Jornais (ANJ) condena censura feita por juiz, nota, ANJ
Nota da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT), nota, ABERT
A Associação Brasileira de Imprensa (ABI) condena censura prévia imposta por juízes do Estado do Rio e Paraná, nota, ABI

Technorati tag: censura

Written by panopticosp

janeiro 15, 2008 at 16:45

Publicado em mídia

Tagged with , ,

Censura e demissão no Jornal do Comércio de Porto Alegre

with 2 comments

santiago.jpg
Charge: Santiago. Imagem: Blog dos Quadrinhos

Santiago, Kayser e Moa chargistas do Jornal do Comércio de Porto Alegre foram demitidos por desenharem charges sobre o sistema bancário. As charges não foram publicadas pelo jornal. Veja chargue sobre o Banco do Estado do Rio Grande do Sul no Blog dos Quadrinhos

Santiago relatou a Paulo Ramos, do Blog dos Quadrinhos que recebeu a seguinte justificativa do jornal por telefone:

“Você não pode fazer um desenho sobre o lucro, porque nós não somos contra o lucro”.

Santiago também declarou que

“Uma hora, não podia falar mal de juiz. Depois, não podíamos falar mal do Germano Rigotto [governador do Rio Grande do Sul entre 2003 e 2006]. Depois, da Yeda Crucius [atual governadora].” (Fonte: Chargistas têm desenhos vetados e são demitidos de jornal do RS)

O CONAR tem horror ao controle do conteúdo publicitário veiculado nos canais sob concessão pública, chama de censura prévia e lança manifesto dizendo que agência pública é incompetente e que eles é que entendem de publicidade (ver “Anvisa não é competente para legislar sobre publicidade”, em conar.org.br).

Meu sobrinho acha o mesmo quando a gente tenta fazê-lo comer arroz e feijão. Ele está formando um conselho que discutirá mensalmente o cardápio oferecido pela família. Dizem que os pais censuram sua criatividade e que estes não entendem nada sobre o apelo hilário do trio pastel, refrigerante e chocolate como jantar. Decidiram que vão auto-regulamentar suas refeições e que os pais são censores, gente contra a livre escolha e os valores democráticos.

Jornal chama blogueiro de macaco e tudo bem porque a associação de jornais zela pela democracia; presidente da OAB de São Paulo advoga por Paulo Maluf e tudo bem porque eles são uma Ordem historicamente comprometida com a democracia; juiz exigir ser chamado pelo porteiro de doutor tudo bem, controle externo sobre as atividades do judiciário é atentado contra a autonomia.

Notícia via: Blog dos Quadrinhos

Written by panopticosp

dezembro 5, 2007 at 18:59

Publicado em mídia, política

Tagged with , ,

Seu Frias

leave a comment »

Os depoimentos de Hamilton Octávio de Souza e Vasco Oscar Nunes sobre a Folha de S. Paulo e Otávio Frias, recém falecido, foram disponibilizados aqui.

Quando começou a queima de carros da “Folha de São Paulo” como reação ao apoio à repressão policial em São Paulo, a “Empresa” criou, junto à portaria na Alameda Barão de Limeira, uma Delegacia policial “camuflada”

Fonte: Fazendo Media

——————————————————
Semana de Luta Antimanicominal
Está no ar a programação da Semana da Luta Antimanicominal.

Written by panopticosp

maio 15, 2007 at 17:21

Publicado em mídia, política

Tagged with , ,

Vaticano ameaça processo contra CMI

leave a comment »

Em abril de 2005, a imprensa mundial noticiou a intenção do procurador do Ministério Público italiano Salvatore Vitello de tomar medidas legais contra uma fotomontagem satírica, publicada no Centro de Mídia Independente (CMI), que representava em uniforme nazista o cardeal Ratzinger, recém-eleito papa. Há alguns meses, essa intenção se materializou na forma de uma carta rogatória que está em julgamento no Superior Tribunal de Justiça brasileiro. A carta rogatória pede o “seqüestro” da página e a quebra de sigilo do responsável pelo site, registrado no Brasil.

O caso em questão é um bom exemplo da utilização de pesos e medidas distintos para tratar de problemas relativos à liberdade de imprensa. Por ocasião da publicação dos cartuns que satirizavam o profeta Maomé no jornal dinamarquês Jyllands-Posten, a opinião pública das democracias liberais condenaram o fanatismo e o cerceamento da liberdade de expressão.

Agora que a sátira se dirige à orientação política de um indivíduo de uma religião que ocupa uma posição privilegiada no cenário internacional o Judiciário italiano, em consonância com o Vaticano, inaugura formas de perseguição política cibernética.


Leia a matéria completa no site do CMI

Fonte: Centro de Mídia Independente, Copyleft

Written by panopticosp

abril 4, 2007 at 20:53

Publicado em mídia

Tagged with , ,