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Nos calçadões de SP, carros são bem-vindos

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Outro dia o secretário Andrea Matarazzo disse que os câmelos ocupam o espaço público e que não daria trégua a estes “distribuidores de contrabando”.

Entretanto, quem visita São Paulo sai daqui com ao menos uma certeza: o espaço público da cidade tem um único dono, o automóvel.

Nos últimos anos, o processo de abertura de avenidas e ruas, nos mais variados bairros, se intensificou. E o centro da cidade não escapou. Quando cada uma das faladas reformas de “revitalização” acaba, pode esperar: onde havia um largo, um calçadão, um espaço qualquer dando mole, surgirá uma rua para carros.

Nos calçadões do centro, todos os dias se vê câmelos correndo e, claro, carros circulando. Geralmente, são carros “especiais”. Carros-forte, carros do tribunal, da prefeitura, das secretarias, de todas as policias imagináveis, carros de centros culturais, e assim vai.

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Trata-se de uma tolerância infinita com os automóveis. Os direitos dos pedestres, simplesmente, não são conhecidos e, portanto, não são fiscalizados.

Em qualquer cidade descente espera-se que num domingo de feriado as pessoas desfrutem do centro, que os turistas possam caminhar, passear, fotografar. Em São Paulo, o que se vê são, além de trabalhadores apressados, grupos de turistas perdidos dando com a cara na porta de prédios históricos.

No último domingo, mais uma vez, tinhamos o desprezo pelo espaço público materializado numa só cena. Guardas municipais com o celular em mãos, tirando fotos e admirando os carros coloridos sobre o calçadão. Ao lado, moradores de rua, apequenados a sua condição, aguardando a noite cair, quando os mesmos guardas os expulsarão das calçadas.

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Mas quem enxerga desrepeito na invasão das calçadas? Ao questionar o fiscalizador, sempre são grandes as chances de você receber como resposta um “é rapidinho”, “é domingo”, “dá pra passar”, “não está incomodando ninguém”

Tiramos algumas fotos e fomos perguntar aos guardas metropolitanos o óbvio.

Panóptico: Vocês já ligaram para a CET?
Guarda Municipal 1: CET?! Mas por quê?
Panóptico: Aqui é área exclusiva de pedestres. Pelo menos é o que diz a placa.
Guarda Municipal 1: Hoje é domingo, não tem problema.
Panóptico: Não ligaram?
Guarda Municipal 1: Não precisa.
Panóptico: Eu vou dar uma ligadinha, então.
Guarda Municipal 2: Foi autorizado.
Panóptico: Tá certo.

Dois minutos depois, sabendo que haviam sido registrados pela câmera, ligaram a viatura e se mandaram. O poder de uma câmera fotográfica grande é impressionante. Seria um repórter ou algo assim? Melhor não arriscar.

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Written by panopticosp

julho 14, 2009 at 22:58

Para a PM, estacionar na rampa de deficientes é normal

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Foto: Cinara Assênsio. Todos os direitos reservados.

Assim como todos os motoristas de São Paulo, os policiais motorizados da cidade estão sempre procurando uma vaguinha para estacionar suas viaturas.

O “procedimento padrão” é estacionar sobre a calçada (com a frente para a rua – para “evacuar” rapidamente em caso de ocorrência) e ficar ao lado da viatura assistindo aos pedestres desviarem do carro.

Na imagem acima, a rampa de acesso à calçada, construída para facilitar a vida de cadeirantes e pessoas com dificuldade de deslocamento, pareceu ao policial um ótimo local para estacionar.

Como cobrar direitos rotineiramente na nossa cidade, se a cada poucos quarteirões vemos as autoridades policiais desrespeitando não só direitos mas regras de bom senso elementares?

Já quando se trata de defender o direito de circulação de veículos, a história é outra

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Written by panopticosp

fevereiro 3, 2009 at 20:46

Como esmagar pedestres com malotes de dinheiro

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Não sabe exatamente como acuar pessoas num calçadão?

Existem várias maneiras de fazer isso. Uma das mais eficientes e comuns é utilizar dois caminhões blindados cheios de dinheiro.

Parece complicado, mas não é. Apenas siga estas três orientações básicas: ignore todas as leis e sinalizações de trânsito, ignore princípios de cidadania, abandone o bom senso.

Aprenda com as empresas Protege e Brinks como se faz.

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Rua Álvares Penteado, centro, São Paulo

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Rua do Comério, centro, São Paulo

No dia 07/01, a Folha de S. Paulo publicou duas boas matérias: “Prefeitura faz blitz contra invasão de calçada na Paulista” e “Peso de carros-fortes ameaça manutenção de piso da avenida”.

A Prefeitura e o jornal finalmente dão atenção ao evidente. Claro, trata-se da Avenida Paulista. A situação acontece em toda a cidade, o que o jornal não menciona, tampouco dedica matérias. Ontem, dia 08/01, porém, o jornal publicou editorial citando o número de trabalhadores que caminham até o trabalho (dados da ótima pesquisa DNA paulistano) e também a situação das calçadas nos bairros não centrais.

Um raro editorial que deixa de ser divulgado e lido. Parece brincadeira, mas a Folha ainda acredita em conteúdo fechado, quer que as pessoas paguem para ler seus textos na web. Por isso não lincamos seus textos neste artigo.

Written by panopticosp

janeiro 9, 2009 at 19:24

Publicado em transporte

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Em São Paulo, cavalo-de-pau de Fórmula 1 pode; ollie de skate, não

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A prefeitura de São Paulo discursa sobre ordem, enquanto subtrai o direito à espontaneidade dos cidadãos no seu próprio espaço de vivência.

Enquanto o secretário de esportes investe na prática do automobilismo e se mostra preocupado com este esporte popular, o governo coloca equipes de policiais na repressão aos carrinhos de manobras da molecada.

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Matéria: Metro. Todos os direitos reservados

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Enquanto a prefeitura bloqueia a passagem de pedestres para promover montadora de automóveis com dinheiro público, persegue ambulantes que “poluem o visual e atrapalham a passagem”.

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Fotos: Luddista. Alguns direitos reservados.

Enquanto instala bloqueios para pedestres em toda Av. Paulista, faz uso do argumento do direito do pedestre para criminalizar aqueles que andam sobre pranchinhas na mesma avenida.

Enquanto pede milhões para bancos internacionais para executar projetos de “estímulo à ocupação noturna das áreas centrais”, ordena que a polícia intimide aqueles que passam a noite se divertindo nas ruas dando ollies e outras manobras.

Uma cidade de guardas que se dedicam a perseguição de cada ato de liberdade não tem como ser uma cidade feliz.

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dezembro 3, 2008 at 18:17

Publicado em cultura urbana

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Treinados para desrespeitar

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Muita gente ao estacionar desrespeita o pedestre. Tem até gente que adorou as novas calçadas da cidade, porque ficou mais fácil para manobrar.

Diversas categorias de motoristas disputam o ranking geral de desrespeito e há especialidades em cada modalidade.

Os veículos de passeio, por exemplo, são líderes na modalidade duas rodas sobre a calçada, principalmente em pistas em frente a escolas e faculdades; na categoria faixa de pedestres, os taxistas estão sempre entre os mais cotados, concentrando seus esforços em regiões comerciais como Av.Paulista e Av.Faria Lima estes profissionais chegaram atingiram excelentes marcas.

A CET, por sua vez, é uma das campeãs na categoria quatro rodas sobre a calçada na cara-de-pau, disputando a liderança com os carros-fortes; os motoqueiros são conhecidos pelo arranque rápido e não deixam para ninguém quando o assunto é avanço sobre faixa antes do fim da travessia.

Agora que grupo organizado consegue estacionar de forma a impedir completamente a passagem pela calçada e ao mesmo tempo estar sobre a faixa de pedestres?

A polícia paulista é claro. Ela treina duro há anos para isso.

Relacionado:
Procedimento padrão, artigo, Apocalipse Motorizado

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junho 4, 2008 at 10:41

Publicado em transporte

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Nova calçada, velho hábito

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Na primeira foto a calçada antiga; na segunda, a nova. Ambas foram tiradas em frente a faixas de pesdestres. A semelhança entre elas é clara: o desrespeito ao pedestre é o mesmo de sempre.

Durante a reforma das calçadas da Av. Paulista, o pedestre foi obrigado em alguns trechos a passar no meio da obra, em outros a realizar um ziguezague esburacado e incompreensível. Não é uma intolerância nossa a algo que será “para o nosso benefício”, como dizem nas obras. É intolerância à humilhação que a Prefeitura teima em impingir as pessoas com dificuldade de locomoção. Nenhum cadeirante consegue transitar nos trechos em reforma. Os desvios são feitos para pessoas que caminham sem problemas, qualquer pessoa com uma dificuldade de locomoção pequena tem que ficar esperta para não cair num monte de pedra.

Nos trechos onde a obra está completa o resultado é bastante satisfatório. Agora entender o que aconteceu com os pontos de ônibus ainda é um problema. A questão é que a cidade de São Paulo é uma cidade na qual os carros têm um status superior. O cidadão quando está dentro de um carro tem direitos diferentes de quando está fora de um.

Atrapalhar o trânsito em São Paulo é expressamente proibido, legalmente e culturalmente. Se nenhum oficial reprimir e multar, todos os xingamentos possíveis serão dispensados por outros motoristas, porque a cultura paulistana não o permite desrespeito ao tráfego. Há minúcias, parar em fila dupla na porta de escola, na porta do restaurante e em outros locais é tolerado, por exemplo.

Parar no pequeno espaço reservado aos pedestres não gera multa, tampouco manifestações contrárias claras. É quase um direito. É proibido por lei, mas culturalmente permitido. O senso comum diz que a calçada é uma opção quando não se quer ou não se pode atrapalhar o trânsito. Como a regra é não atrapalhar o trânsito, acontece a todo instante. O pedestre se vira, passa no cantinho. Isso acontece numa rua meio isolada, numa calçada pouco movimentada? Não, acontece em todas as ruas, inclusive em avenidas pouco movimentadas e desconhecidas como a Paulista.

Reformar calçadas não muda essa cultura. O cara não enxerga nada, animado com a reforma da calçada, resolve ir tomar um sorvete na Paulista. Segue o piso tátil pela calçada lisinha, admirando o resultado, atravessa a rua rapidamente e dá de cara com um carro-forte.

Vai fazer o quê? Chamar a CET, sabendo que a própria tem o hábito de estacionar nas calçadas? Vai chamar a polícia? O jeito talvez seja bater na janelinha do carro-forte e pedir para o motorista retirar seu carro de dinheiro dali.

Relacionado:
Os caras-de-pau e Kafka sobre quatro rodas, artigo, Apocalipse motorizado

Written by panopticosp

maio 29, 2008 at 14:08

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Calçadão para quem?

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Quatro carros, três policiais. Um calçadão invadido.

Os calçadões do centro de São Paulo são alvos especiais das prefeituras que trabalham para os automóveis. Ao mesmo tempo que prometem uma teórica “revitalização” do centro, financiada pelo Banco Internacional, acabam com o espaço dos pedestres que estão no bairro e o mantém vivo de graça.

É uma multidão de pessoas que não tem medo do lugar que trabalha, mora e/ou passeia.

Um cidadão que não conhece o centro da cidade, porque não tem motivo para visitá-lo, pode passar num concurso público, ir trabalhar no bairro e descobrir que foi um tonto ao acreditar que o local é um amontoado de prédios antigos.

Uma cidadã que vai fazer compras econômicas de natal na rua 25 de março pode entrar numa travessa, noutra, noutra, e acabar descobrindo que pode passar prazerosas horas passeando pelo bairro. Vai perceber que a nostalgia das fotos preto e branco é uma invenção cultural que tenta desprezar o presente do bairro mais importante da cidade.

Uma dona-de-casa que vai tirar a 2ª via do seu R.G. num posto rápido do centro, enquanto aguarda sua senha pode sair dar uma volta e descobrir que está num bairro onde é possível resolver todas suas pendências da semana em não mais do que três ruas. /

A destruição da Rua 24 de maio, do Largo São Bento, da Rua Sete de abril e outros espaços é comandada por uma revitalização que entende que o centro está morto.

Uma revitalização que pretende apenas estimular uma parte da classe média, que abandonou o bairro há tempos, a voltar a freqüentá-lo. Aparentemente, nada de mau. Não fosse a destruição dos espaços de que não o abandonou; a falta de entendimento de que não é possível conhecer a atmosfera do centro dirigindo um carro; e a falta de senso pedagógico, já que é desperdiçada a oportunidade de proporcionar uma tarde sem carro ao cidadão viciado em engatar, acelerar e frear.

Os comerciantes que perduraram, os camelôs que sobreviveram, os sem-casa que dormem preocupados, os trabalhadores que chegam de ônibus, os funcionários públicos que por lá caminham todos os dias, os desempregados de currículo na mão, as casas de lanches cheias de motoboys, os bares de uma porta apinhados de velhos conhecidos, as prostitutas amorosas, os skatistas suados, os sebos empoeirados… Todos estão no centro, não o abandonaram como o fizeram governos e governos.

Written by panopticosp

abril 10, 2008 at 15:30

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