Panóptico

Cidade das artes?

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A “Praça das artes” é mais um passo na descoordenada tentativa municipal de “revitalizar” o centro. A revitalização da demolição e expulsão dos pobres.


Antes. Cinema pornô (e grafite ilegal)


Depois. Futuras instalações do conjunto de orquestra sinfônica municipal, coral, estacionamento, escola de música e centro de documentação

Quem circula pelo centro, e tem olhos não embaçados pelas Globos e Vejas da vida, sabe que há vida no bairro. As pessoas moram, trabalham, vão ao mercado, à escola, ao bar, como em qualquer bairro da cidade.

De que “vida”, então, fala a revitalização do centro de São Paulo? Fala da vida de “classe média”.

Empreendimentos culturais como Sala São Paulo e Museu da língua e o incentivo a instalação de centros privados como CCBB e Sesc 24 de maio foram e são o pilar desse projeto. Junto a essas iniciativas as condições para que a classe média circulasse eram colocadas em prática.

Primeiro pela modificação da estrutura urbana do bairro. Como vão chegar ao Sesc da 24? Retiremos o calçadão e haverá espaço para o “vallet”. Há insegurança p/ caminhar até o CCBB? Coloquemos uma van para recolher o pessoal no estacionamento. Há moradores de rua demais na praças? Retiremos todos os bancos onde se deitam, plantemos espinhos.

Segundo, pela criação de regras de ocupação para tornar a área mais “bonita”. Assim, perseguição sistemática a camelôs; tomada dos objetos dos moradores de rua; proibição da distribuição de comida aos sem-teto; proibição da circulação de carroças de recicláveis e o fechamento de estabelecimentos populares, como bares e pensões, se tornou rotina no centro. Na sofisticada São Paulo até a instalação de toldos em todos os bares e cafés foi exigida.

Enquanto casamentos de celebridades eram realizados na Sala São Paulo e a Prefeitura propagandeava seu “choque de cultura” através dos jornais, os traficantes de crack expandiram seu negócio e criaram uma massa de seguidores viciados.

Quando a fumaça dos cachimbos ameaçou estragar a imagem política de alguns, a solução, mais uma vez, foi a limpeza social, com a polícia enchendo ônibus de viciados com destino a delegacia.

Enfim, a revitalização não deu certo. A classe média continua lotando shoppings, Cirque du Solei e super-produções musicais enquanto, afora eventos extraordinários, despreza o centro.


Prédio lacrado (e grafite oficial)

Aos moradores das áreas que receberam algumas melhorias sobrou o aumento do aluguel gerado pela especulação imobiliária. Muitos foram simplesmente expulsos de suas casas.

Como a imagem de certos candidatos nas próximas eleições está ligada ao sucesso da revitalização, as tentativas tem que continuar.

A decisão de leiloar um bairro inteiro e passar a bola para as tão confiáveis construtoras imobiliárias foi a última grande demonstração de incompetência administrativa e desprezo pela população e pelo patrimônio público.

No momento, para justificar as centenas de promessas e bilhões gastos, conquistar a simpatia da classe média é tão importante quanto erguer desesperadamente novos centros culturais. E a arte continua servindo muito bem a este propósito. Afinal, quem seria contra um centro de artes ou contra eventos artísticos?

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Written by panopticosp

novembro 18, 2009 às 15:14

Publicado em cultura urbana, política

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7 Respostas

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  1. enqnto nao houver um plano de moradia, um plano para estruturar a familia, todo esse dinheiro vai ser em vão.

    eles tirando os moradores do centro, estão acabando jogando eles para outro lugar, na verdade a prefeitura nao sabe lidar com o problema q tem sido criado a mtos anos q eh a não educação, saude e cuidado com o mais pobre

    sempre todas as politicas sao para os mais ricos…pois estes podem dar retorno imediato aos politicos.

    SAO!

    novembro 19, 2009 at 8:39

  2. Panóptico, concordo com seu texto, e essa política de chutar as pessoas pra embelezar o bairro, ta rolando em muitos picos, já rolou na minha quebrada nesse ano http://www.flickr.com/photos/artetude/sets/72157616661937801/detail/, despejaram uma favela inteira pagando uma merreca que na mão dessas pessoas desaparece antes dela conseguir um lugar estável pra ficar. Portanto, essa política além de ser elitista ainda deixa as famílias despejadas em condições ainda mais miseráveis. Em relação às minhas pinturas nos tapumes, aceito a critica que o trampo não seja algo transgressor, pois não é graffiti(eu nunca disse que era) é um mural, mas discordo quando disseram que meu trampo ali era decorativo, afinal eu pintei moradores de rua deitados no chão com garrafas na mão, carroceiros circulando que a prefeitura tanto persegue, pintei a bandeira nacional com 1 cidadão com as mãos pro alto, acho que isso é exatamente o contrário do q a prefeitura quer ver no Centro ou associar com futura “praça das artes”. Então no meu caso eu que usei a prefeitura e não o contrário, usei pra mostrar minha visão pra milhares de pessoas que passam ali, foda-se se tive autorização ou não, fiz algo construtivo. Eu reproduzi a idéia do Abapuru da Tarsila e o Homem Vitruvioso de Da Vinci, só que com a cabeça do meu boneco nitidamente com uma feição triste e indignada com o que ta rolando ao redor ali nas ruas do centro. Pintei um cabeção com diversas palavras de protesto inseridas, e em outro canto vários personas juntos sendo 90% com cara instisfeita e 10% satisfeita, que é bem o que rola por ai na cidade de São Paulo. E não pintei por tinta ou por puro ego, pintei pelo espaço e pelo o que eu acredito, afinal ali passam milhares de pessoas todos os dias, e elas poderão ver minha releitura da bandeira do Brasil, por exemplo, e refletir. Eu quero sim que minhas mensagens cheguem ao povo e de graça. É necessário lembrar que os tapumes do largo do São Bento, assim como os do Teatro Municipal, só rolaram de pintar pq eu e Nomiez catamos na caruda os tapumes do Municipal que estavam “branquinhos” desde que foram construídos e por conta disso passamos uma noite presos e assinamos processo criminal. Portanto, fica claro que a intenção de botar minha mensagem de indignação nesses tapumes do centro é anterior a essas desapropriações e aos novos tapumes . Continuo na atividade nas ruas, gastando meu tempo e minhas tintas, passando minha mensagem pq é o que me faz sentir vivo.

    abraços mundanos

    MUNDANO

    novembro 24, 2009 at 10:37

    • Opa, Mundano!

      Creio que suas manifestações são bem recebidas pelos catadores e todo pessoal e tb reconhecidas pelos ativistas sociais em geral.

      Sobre o atual estado do grafite em sp, parece que o debate vem sendo bem complicado. Para além da liberdade artística x legalidade x ilegalidade vejo que há muitas impressões pessoais de quem participa diretamente das ações envolvidas (grafiteiros, galeristas, fotógrafos, pixadores…).

      Não sei sobre a validade dessas impressões, pois estou fora desse “movimento”. Basicamente, me preocupo com o manutenção do grafite como expressão autônoma. Espero que seja uma preocupação de todos os grafiteiros.

      Abraço!

      panoptico

      novembro 24, 2009 at 16:44

  3. Olá,

    Gostei do conteúdo de seu blog.

    Aproveito a visita e compartilho com vocês meu blog, sobre Vigilância e Controle Social.

    http://aeradopanoptico.blogspot.com/

    Espero que gostem.

    sds,

    cb

    Carlos

    novembro 27, 2009 at 22:06

  4. […] pior, a insistência no principal erro continua. Boa parte do Vale do Anhangabaú será convertida em Praça das Artes. Focado na música clássica, o projeto pretende dialogar com um faraônico centro de dança de R$ […]

  5. Adoro este post! Cito sempre. Como sou incapaz de ter idéias proprias, uso como muleta e até já postei no meu flickr. Não sei se entendi direito mas tudo bem.

    Adriano

    março 22, 2010 at 14:07

  6. gostei do texto. parabens!

    Soosbons

    março 22, 2010 at 22:07


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