Panóptico

Deixe de depender dos outros

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dafra
Propaganda veiculada no Metrô News, jornal distribuído nas estações do metrô de São Paulo.

A moto está entre os bens mais desejados pelos jovens assalariados com instrução média e capacidade de compra, ou como chamam, a classe C. Compete com o celular. Em comum, a facilidade oferecida ao portador de incrementar seu status social.

Um problema sempre por resolverem é como sair do bairro periférico onde moram e chegar ao trabalho com decência. Sem serem espremidos num ônibus durante horas, esperarem cinco trens do metrô passarem para conseguir entrar e, por fim, não chegarem atrasados ao trabalho. Tudo isso por quase quatro reais. E ainda tem a volta.

Durante o trajeto de metrô invariavelmente este jovem atendente de telemarketing dá de cara com anúncios. Primeiro, de motos; segundo, de cursos superiores e profissionalizantes.

Quem tolera gastar boa parte de seu salário para sofrer dentro de ônibus e trens? Quem tolera trabalhar a semana toda e esperar mais de uma hora no ponto de ônibus para ir até a casa da namorada num sábado à noite? Quem não gostaria de deixar um pouco o bairro sem grandes atrativos de lazer e pegar um cinema na Paulista? Agora, quem encara a espera e a série de baldeações do transporte público num final de semana?

Fazer uma faculdade (que facilita o pagamento), comprar uma moto (que facilita o pagamento), trocar o celular (que facilita o pagamento) e, quem sabe, um curso complementar (que facilita o pagamento) são parte de um pacote de ascensão social, constantemente na mente dos jovens trabalhadores.

“Deixe esta vida para trás”, esta é a idéia. Chega de pegar carona para cair na balada, para levar a mãe na consulta médica, chega de levar três horas para chegar ao trabalho, de ir sempre ao boteco mais próximo por falta de transporte.

Se o gasto mensal com transporte público equivale à prestação de uma moto em 48 vezes. Por que ser irracional e deixar de adquirir conforto, rapidez, status e um bem que pode ser vendido?

Afinal, a luta pela melhoria do transporte coletivo terá resultado, se o tiver, num prazo inestimável, certamente longo. E as soluções individuais trazem para a pessoa um benefício hoje. É uma disputa desigual.

Comprar uma moto em 48 vezes e já no próximo final de semana ter suas chances com as mulheres aumentadas, como propagandeado a cada intervalo comercial, ou encarar uma longa luta pelo transporte público de qualidade? Este é o desafio que qualquer luta por direitos enfrenta hoje.

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Cansado de esperar, artigo, Panóptico

Written by panopticosp

julho 30, 2009 às 19:47

Uma resposta

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  1. Esta semana, aqui na região da grande Porto Alegre um pai deu para seu filho a tão desejada moto e no dia seguinte ele bateu num caminhão, com um amigo na carona, e morreram. Isto resume a atual situação e o mal que a sociedade midiática motorizada estão fazendo com os jovens.
    Obrigado!

    Mateus

    julho 31, 2009 at 9:01


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