Panóptico

Governando através da janelinha do carro, uma coletânea de Andrea Matarazzo

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moradorrua

Entre as medidas para a “revitalização” do centro de São Paulo está dar um jeito de sumir com as pessoas em situação de rua. Eles enfeiam o bairro e espantam a classe média consumidora.

Para a prefeitura de São Paulo, “revitalizar” o centro é mais importante do que “revitalizar” as pessoas que não tem onde se abrigar. Já que a prefeitura não pode simplesmente matá-los, a solução encontrada foi levá-los à morte.

A distribuição de comida, por exemplo, feita por entidades religiosas e outros grupos foi proibida na área central. Ou seja, é proibido oferecer comida a quem você acha que precisa. Multar um grupo de pessoas que doa uma cumbuca de sopa para quem está congelando na rua, parece-me o resumo mais conciso da perversidade da atual política para o centro.

Na madrugada paulistana, guardas municipais espantam quem dorme nas ruas com a esperada delicadeza, enquanto a equipe de garis recolhe colchões, sacolas, papelão e outros pertences. O caminhão-pipa lava as calçadas e escadarias; as pessoas, então, zanzam sem rumo.

É crime ser miserável. E é crime defender seus direitos.

O secretário das subprefeituras Andrea Matarazzo, um pouco em baixa nos bastidores do poder paulistano, encontrou uma boa forma de propagandear suas idéias: postar no twitter. Com a promessa de atender a população diretamente através do canal, as frases postadas revelam, num tom politicamente correto, sua forma de pensar.

Eis algumas frases do Secretário, seguidas de nossos comentários.

No centro, muitos moradores de rua nas marquises da Av são joão (no início num bingo abandonado) e na Boa vista. Centro velho esta quase bom

Poxa, o centro está quase bom. Se todos os moradores de rua morressem de uma vez só, ficaria ótimo.

Não tem perigo. O que é sim, é muito triste. Claro q não desço do carro. Embora os dependentes da novaluz não oferecem perigo

Conheço bem a realidade. Vou sozinho, guiando. Um pouco de segurança é preciso. Vou quase todas as noites [à Luz, chamada por muitos de “cracolândia”]

Trata-se de uma técnica de observação da fauna selvagem? Uma técnica de camuflagem? Ou é apenas a sensação de segurança trazida por uma tonelada de aço com arranque rápido? Se “não tem perigo” qual seria o motivo de “conhecer a realidade” de dentro do carro? Quem seriam os perigosos? Os moradores do bairro?

Na Novaluz foram lacrados e emparedados 22 estabelecimentos entre ontem e hoje. Maioria botecos ou depósitos.Outras áreas do centro em ordem

Secretário, ontem, passando de carro por uma rua do centro, parei no semáforo e pude ver, em frente a um casarão antigo, um punhado de pessoas conversando. Uma criançada danada correndo, alguns bebendo, uma bagunça. Fiquei imaginando como aquelas pessoas podiam morar naquele lugar. Deve ser uma pensão ou até imóvel invadido, não sei, mas sei que o local era totalmente insalubre e sem qualquer segurança.

Poucos metros a frente, avistei três botecos, um ao lado do outro. Nem botecos eram, eram dessas portinhas onde se juntam bêbados, desempregados e mulheres que gostam dessa vida.

Como sei que o senhor é o secretário que mais se dedica ao centro, peço providências. Lugares nestas condições não podem ser tolerados. Muito menos no centro, onde começou esta cidade que tanto amamos.

Moradores de locais interditados em operação no Centro de SP não aceitam ir para abrigos da prefeitura, reportagem, Rácio CBN
Para Andrea Matarazzo catadores são problema, artigo, Panóptico
Centro Vivo, artigo, Panóptico
”É difícil ganhar uma eleição twittando”, reportagem e entrevista, Estadão

Written by panopticosp

julho 27, 2009 às 12:31

Publicado em mídia, política

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7 Respostas

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  1. Uma carta singela, publicada no Estado de SP de domingo, faz coro à solução final desejada para o centro:

    “É triste ver reportagens sobre como a Cracolândia resiste à operação integrada por policiais, médicos, sociólogos, para que se comece a revitalizar essa degradada área da cidade. Fica difícil ERRADICAR AS PESSOAS que lá vivem, pois estão ali há muito tempo e não têm nem para onde ir. Muitos também não querem ajuda e resistem ao tratamento e, mesmo os que concordam em ir para um centro de triagem, logo pegam sua trouxa e fogem, voltando ao mesmo lugar. O poder público fica de mãos atadas, pois não pode obrigá-los a sair das ruas para se tratar. Mas essa lei que diz que não se pode obrigar as pessoas não contempla o fato de que elas estão se matando e matando outras pessoas, pois vendem, traficam ou mesmo dão drogas aos outros. A situação se tornou complicada e só haverá uma cidade mais humana e livre dessa violência se for adotada a famosa TOLERÂNCIA ZERO para qualquer tipo de crime.”

    maria tereza

    julho 27, 2009 at 13:45

  2. pois é, não adianta nada tirar a cracolândia da luz e parar aí. vários craqueiros já estão migrando pra santa cecília, outro dia estive lá e quase fui assaltada por um nóia. vi um menino morador desse bairro reclamando no twitter da mesma coisa.

    flávia d.

    agosto 4, 2009 at 18:12

  3. oi, não entendi o trecho:

    “Secretário, ontem, passando de carro por uma rua do centro, parei no semáforo e pude ver, em frente a um casarão antigo, um punhado de pessoas conversando. Uma criançada danada correndo, alguns bebendo, uma bagunça. Fiquei imaginando como aquelas pessoas podiam morar naquele lugar. Deve ser uma pensão ou até imóvel invadido, não sei, mas sei que o local era totalmente insalubre e sem qualquer segurança.

    Poucos metros a frente, avistei três botecos, um ao lado do outro. Nem botecos eram, eram dessas portinhas onde se juntam bêbados, desempregados e mulheres que gostam dessa vida.

    Como sei que o senhor é o secretário que mais se dedica ao centro, peço providências. Lugares nestas condições não podem ser tolerados. Muito menos no centro, onde começou esta cidade que tanto amamos.”

    quem é que está dizendo isso?

    gira

    agosto 11, 2009 at 0:36

    • A classe média paulistana hehe

      Fiquei imaginando ele recebendo um email com esse texto. Tenho certeza que a resposta dele seria bem parecida com o que ele disse:

      “Na Novaluz foram lacrados e emparedados 22 estabelecimentos entre ontem e hoje. Maioria botecos ou depósitos.Outras áreas do centro em ordem”

      Relendo agora, vejo que não ficou claro, mas era uma ironia com essa visão

      abraço!

      panoptico

      agosto 11, 2009 at 15:16

      • ah! foi o que pensei… típico discurso de classe média. mas estranhei porque ficou parecendo que era você quem estava dizendo isso.
        abraço

        gira

        agosto 11, 2009 at 17:03

  4. […] morador de rua foi apenas mais um no processo pelo qual passa o centro de São Paulo hoje. Uma pessoa que não interessa ao leitor de jornais, alguém que não tem amigos jornalistas, um […]

  5. […] urbano: seja demolindo quarteirões inteiros da Santa Ifigênia para promover a "Nova Luz" — pois tal tecido urbano não teria "valor histórico", segundo a […]


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