Panóptico

Folha ignora violência homofóbica

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paradagay2009

Sobre a Parada Gay de São Paulo, que ocorreu no último domingo, a Folha de S. Paulo, publicou um parágrafo revelador de sua ideologia.

No episódio mais grave, por volta das 22h, o morador de um edifício na avenida Vieira de Carvalho (centro) se irritou com o barulho de pessoas que dispersaram da festa e jogou uma bomba caseira no grupo.
Segundo a Polícia Militar, 30 pessoas ficaram levemente feridas pelo artefato. O morador não foi identificado.

Fonte: Brigas, furtos e até bomba prejudicam clima de festa, FSP, 15/06/09 (para assinantes)

Antes de tudo, noticiar o lançamento de uma bomba sobre um grupo de gays como um incidente é um absurdo desrespeito às vítimas e a vida. Dizer que uma bomba explodiu porque alguém achou que estava muito barulho na rua é um acinte à inteligência dos leitores.

A notícia também nos fala bastante sobre a prática do jornalismo. Num dia de manifestação festiva gay, seria demais imaginar que um jornalista consiga formar esta versão de “barulho”.

Ela fora, provavelmente, resultado de depoimentos da polícia e de pessoas que circulavam no local – como manda o manual do jornalismo. Transpor isso para o texto seria resultado de uma ignorância de contexto social tamanha que, logo, podemos considerá-la impossível; resta, portanto, acreditarmos que é produto do desprezo do jornal pela violência praticada contra minorias.

Vale lembrar que o caso aconteceu na avenida Vieira de Carvalho, tradicional ponto gay de São Paulo. Ponto que não é elencado entre as concorridas baladas gays do Guia da Folha, pois no local concentram-se, em sua maioria, gays pobres.

A versão que a Folha quer que acreditemos pode ser resumida assim: uma pessoa querendo assistir a novela se irritou com o barulho, ao lado do controle remoto estava uma bomba, que ela resolveu jogar pela janela.

O desprezo da Folha pela violência só não é mais latente do que o da polícia, que mesmo sabendo de qual prédio veio a bomba, até agora, não divulgou nenhum dado sobre a investigação.

Talvez o jornalista da Folha possa ajudá-los. Já que ele sabe que o agressor “se irritou com o barulho”, ele o entrevistou. Afinal, que outra fonte poderia dizer o motivo do crime? Será que o jornalista chutou o motivo? Não, claro que não. Como nos dizem as recentes propagandas dos grandes jornais, jornalismo sério só com fonte segura, apuração.

Ontem, Marcelo Campos, de 35 anos, negro, trabalhador e gay morreu vítima de um espancamento durante a Parada Gay. Não há notícias de que estava fazendo barulho.

Um protesto esta marcado para sábado, 19h, na avenida Vieira de Carvalho.

Relacionado:
Pra não dizer que não falei das flores ou bomba no cu dos outros é refresco, artigo, Jean Wyllys

Written by panopticosp

junho 19, 2009 às 10:58

Publicado em mídia

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2 Respostas

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  1. Post brilhante, parabéns.

    É realmente absurdo o esforço da Folha para tentar “normalizar” a situação, como se fosse realmente muito comum que qualquer pessoa que se sinta ofendida com um barulho jogue uma bomba na rua; como se a bomba não indicasse um ato premeditado (ou todo mundo guarda uma bomba na fruteira?); como se esta premeditação pudesse ser motivada pela simples ameaça de uma tarde barulhenta e não o indício de um ódio e uma estupidez grandes o suficiente para colocar a vida de várias pessoas em risco.

    Diminuir a real dimensão e tentar esvaziar as causas dos atos de violência ocorridos na Parada do Orgulho Gay é tentar ocultar a homofobia, buscando outras explicações (por mais improváveis que se apresentem, como esta inventada pela Folha), e não encarar o problema com a seriedade que ele merece é mais uma forma de ser conivente.

    Dri

    junho 19, 2009 at 19:23

  2. Isso é apenas a velha jogada de tentar arranjar um meio de “culpar a vítima”: “não existe homfobia, o que existe são viados que perturbam o silêncio dos cidadãos honestos”; “não existe racismo, são os negros que não conhecem o seu lugar” (Millôr); “o pedestre foi o causador de sua própria morte, ao não atravessar no lugar certo”; etc. Ou seja, se o cara se estrepou, foi porque “alguma coisa ele fez” (Pasquim). E com isso os cidadãos de bem podem dormir tranquilos.

    Henrique

    junho 22, 2009 at 23:33


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