Panóptico

A missa da toalha úmida continua

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Outro dia, o G1 disse “No trânsito, não tem jeito. Se há poluição, é melhor fechar os vidros e ligar o ar-condicionado. A fumaça de carros e caminhões parados no trânsito causa mais irritações nas vias aéreas do que o ar-condicionado”

Hoje a Folha de S. Paulo disse: “No trânsito, se estiver num congestionamento, é melhor fechar os vidros e ligar o ar-condicionado. A fumaça dos veículos parados irrita mais as vias aéreas do que o ar-condicionado”

O G1 escreveu “não tem jeito”; a Folha, “é melhor”. O G1 escreveu “carros e caminhões”; a Folha, “veículos parados”. De resto, os textos são quase iguais.

Repeteco

Não, não estamos preocupados com cópia. São notinhas num quadro. Imaginar que alguém copiou algo assim seria demais. Aí seria melhor fechar a lojinha de papel de uma vez. O que assusta é como a imprensa brasileira reproduz idéias e estilos.

Reproduz a pauta de jornais estrangeiros diariamente. Uma pauta internacional não é relevante até que os grandes jornais do mundo a considerem assim. A América Latina, por exemplo, não merece maior, ou melhor, cobertura no Brasil do que nos Estados Unidos, como seria de se esperar.

As pautas do dia-a-dia são uma série de textos descritivos que obedecem a um padrão antigo e chato. Uma ou outra liberdade, como “não tem jeito”, foi introduzida depois que perceberam que blogs e outros páginas estavam atraindo leitores, mas o texto feito em 5 minutos predomina e fica evidente a quem lê jornais com freqüência.

Nessa hora o leitor fica com a sensação de que alguém está ofendendo sua inteligência. Além de perceber que foi enganado como consumidor (comprou uma notícia enlatada achando que era natural), jogou fora tempo do dia sempre curto.

As fontes que ninguém sabe, ninguém viu

A Associação Nacional de Jornais diz que os jornais são os veículos mais confiáveis. Há fonte, checagem, entrevista, apuração etc.

Seria mais fácil de acreditar na afirmação se o jornal respeita-se um pouco mais os estudantes que estão aprendendo o que é “fonte”. Num dia digo ao meu sobrinho que quando ele cita um trecho interessante de um livro, ele deve colocar o nome do livro e do autor no rodapé para que as pessoas saibam de onde veio a citação e possam consultá-la. No outro, o garoto pega o jornal, assusta-se as informações sobre o clima seco da cidade e vê como fonte da informação “médicos”. Certo dia, decide usar uma citação de Lawrence Lessig e no rodapé escreve “autores”. A professora reclama. Ele explica que no jornalismo é assim que se faz.

Só o privado interessa

Quais são as situações resumidas no quadro da Folha? “Em casa”, “No escritório”, “No trânsito”, “Animais”.

Será que o cidadão que mora em São Paulo sofre de alguma anomalia e “sente” o clima seco apenas dentro de ambientes privados? Não, a anomalia é o viés jornalístico. A imprensa está preocupada com seu “segmento”. A maioria dos leitores de jornais (pelo menos, os que mais intere$$am, como assinantes) são do tipo casa-escritório-trânsito-animal-casa.

Quais são as dicas para os pedestres que andam nas calçadas ao lado dos carros? Quais são as dicas para os usuários de ônibus que estão nas mesmas ruas e avenidas que os carros? Sabemos quais são: “evite atividade física durante o dia”. Então beleza, todo mundo de carro com ar-condicionado para a rua!

Além de falar para o “seu público” (classe média motorizada), este tipo de “dica” é bem conveniente. Consegue falar do tema sem tratar do tema em si. A poluição do ar é um problema público – pelo menos enquanto o ar for público -, mas as reportagens “puxam” o tema para o privado.

No escritório, em casa, no carro até é possível minimizar por alguns momentos os efeitos do clima seco. Mas como seriam as dicas jornalísticas em ambientes públicos? Pendure toalhas molhadas nas árvores que sobraram? Enquanto caminha até a escola feche os vidros? Não seria difícil imaginar o texto, “se tiver que ir até a padaria, vá de carro, é melhor do que respirar nas ruas” e por que não “se tiver que ir até a padaria a pé, não tem jeito, respire o menos possível”

Dica de morte rápida

É interessante que a imprensa recomende que em casa o cara abra as janelas para o ar circular (geralmente, recomendam vaporizadores e toalha úmida mesmo), e que no trânsito feche as janelas.

Um carro a sua frente, outros ao lado, você fecha a janela (por onde entra a maioria do ar) e liga o ar-condicionado. Ele condiciona que ar? A não ser que seu carro crie ar, ele condiona o ar que está poluído. Não existe outro. Você ficará respirando o mesmo ar “parado” e poluído pelo tempo que ficar no carro. Não há como lacrar o carro e purificar o ar interno. (link via Vá de bike)

Claro, quando você liga o ar condicionado, o consumo de combustível aumenta e a emissão de poluentes aumenta, mas isso é problema do carro de trás.

Relacionados:
A missa da toalha úmida, artigo, Panóptico
Creminho antipoluição, artigo, Panóptico
Pedalar no trânsito não faz mal para a saúde, artigo (com diversos outros textos relacionados), Vá de bike

Written by panopticosp

agosto 21, 2008 às 21:06

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