Panóptico

Creminho antipoluição

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20% de umidade e o maior jornal da cidade propõe um “Arsenal de combate à secura” poderoso: água termal, loção, hidratante e umidificador.

Lendo os jornais de grande circulação esperando por notícias das propostas públicas, o paulistano acaba concluindo que o sangramento nasal de seu filho é um problema normal, que passará assim que chover.

Nosso amigo paulistano comenta com sua companheira o que leu. Assim como ele, ela vai e volta de ônibus do trabalho; seu filho vai a pé para a escola, como todos no bairro. Acabam entendendo que a culpa toda é deles e de São Pedro. A cidadã, então, resolve seguir as dicas do jornal e:

_ pendurar uma toalhinha úmida na porta da sala,
_ comprar um umidificador (R$248 ) para o quarto do filho,
_ passar hidratante com cheirinho marshmallow (R$ 89) nos lábios,

Eles também estão bebendo muita água e suspenderam as atividades físicas. Ficaram em dúvida sobre colocar uma bacia com água na sala, pois a propaganda havia dito que água limpa parada não pode, como não encontraram respostas nos telejornais, deixaram este conselho de lado.

Não é um problema local ou nacional. A banalização dos problemas públicos é um problema mundial. A imprensa individualiza questões que dizem respeito a todos, enquanto coletiviza questões privadas.

O privado é a grande pauta de interesse hoje. Apesar dos assassinatos, acidentes e da vida de famosos sempre terem sido pauta quente, chegamos num estágio em que a distância entre o interesse pela vida privada do escolhido da vez e a vida comum da coletividade é grande demais. Mais, a mídia especializou-se em criar famosos, explorá-los e destruí-los como produtos midiáticos (apesar de vivos) que são.

As questões coletivas não saíram de pauta. Não haveria como, as celebridades ainda não cuidam das crianças enquanto os pais vão trabalhar e as creches continuam necessárias. Mas as questões coletivas aparecem quase sempre em embalagem para consumo individual.

Como se a carência de creches não fosse grave em São Paulo e como os leitores do jornal querem saber o ranking das escolinhas privadas, publica-se um especial de dicas sobre como escolher uma escola entrecortado por “informes publicitários”. A maior cidade do país está com índice de umidade alarmante há um mês, em vez de discutir poluição, dá-se dicas sobre cremes hidratantes. Um mega criminoso histórico é preso e, em vez de ir direto aos nós do caso, publica-se matéria sobre os erros de redação do delegado.

A cultura do automóvel se alojou nos vãos deixados pela coisa pública em degradação. Floresceu entre os tijolos arrancados por governantes aproveitadores e empresários profissionais. Com a força da publicidade, rapidamente, possuir um carro se tornou o único caminho digno para um ser social de postura ereta.

Os jornais aconselham o uso de cremes e a suspensão das atividades físicas. Aconselhar não dirigir veículos motorizados, não dá. Não é para tanto. Todos sabemos, a atividade física é que é um perigo!

Restringir o direito sagrado de dirigir um carro, mesmo durante período de clima caótico, é considerado um suicídio político em ano eleitoral. Entendemos isso facilmente. Agora, os jornais não disputam o pleito. Não tocar no assunto significa o quê? Ignorância? Defesa da opinião de seus leitores (classe média motorizada)? Vício cultural? Tática comercial (não desagradar os anunciantes do motor)? Desinteresse pelo que é público?

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Written by panopticosp

julho 29, 2008 às 20:04

Publicado em mídia

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