Panóptico

Quem precisa de transporte público?

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Mecânicos, motoristas de guincho, taxistas, motoristas de ônibus, bilheterios de trem. O que estariam fazendo todos eles num comercial de carro?

Os comerciais de carros não são aqueles filmes em que um carro desliza velozmente por uma estrada cheia de verde, uma praia moderna, uma cidade tranqüila?

Estes cenários são usados para, primeiramente, claro, deslocar o carro do ambiente degradado por ele próprio. Primordialmente, são usados para posicionar o potencial comprador como alguém melhor: mais moderno, mais bonito, mais sensual, sofisticado…

Mecânicos e motoristas não são profissões almejadas. Mais que profissões desvalorizadas pelo mercado, são trabalhos realizados por pessoas descriminadas socialmente. Não são o “tipo de gente” que as mães sonham ter como genro. São pessoas sem valor.

Quando estas pessoas são úteis? Quando “precisamos”, quando não há alternativa. Como a canção em inglês diz: “você precisa de mim”. O carro quebrou, não sabe consertá-lo; não tem jeito, vamos apelar para aqueles seres sujos. O carro está na oficina, a alternativa é o táxi. O carro está na oficina e sem dinheiro, o jeito é tomar um ônibus junto com o “povão”.

Eles também são úteis como selvagens. Em novelas e filmes expressos: o mecânico sensual, o motoristas de guincho primitivo, o taxista terrorista árabe. Mas este é outro capítulo da mesma história. Na propaganda em questão, eles são úteis como para mostrar com destaque como são os perdedores. Para lembrar o público-alvo do comercial quem é o cidadão comum, aqueles que não possuem carros. Relembrar qual a aparência destas pessoas. Homens gordos, com uniformes antigos, roupas fora de moda, que usam bonés e luvas, fazem gestos bobos e têm trabalhos comuns demais.

O detalhe da presença dos bilheteiros de trem e motoristas de ônibus fecha o pacote. Quem são as pessoas que precisam e usam transporte público? Pessoas que o espectador não quer ser, claro.

O garoto que assiste ao intervalo comercial quer se parecer com aquele jovem bonito, descolado e cheio de garotas; o senhor se vê como aquele executivo elegante num carro poderoso, o pai de família sonha com uma viagem familiar por uma estrada tranqüila.

Imagens ideais como estas nos são mostradas todos os dias. Como podemos perceber pelo estado das cidades de todo o mundo, dão certo. Mostrar-nos o que não gostaríamos de ser, lembrar-nos o que sobra depois que são separados quem têm carro de quem não têm. Lembrar-nos quem é o resto, também vende carros.

Written by panopticosp

julho 24, 2008 às 11:45

Uma resposta

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  1. […] ser desqualificando trabalhadores, indicando que mulheres babarão pelo motorista, ligando a força da natureza à força do motor […]


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