Panóptico

Ato falho

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A Folha de S. Paulo do último domingo trouxe uma matéria sobre a “síndrome do ‘pavio curto'”. Vamos nos ater à manchete e seus resumos. Que existem justamente para serem lidos primeiro e, para a maioria, serem toda a leitura.

Nos textos de destaque. Um problema que possui forte ligação com o ambiente é personalizado, deslocado do plano coletivo para o individual. Você conhece essa artimanha faz tempo.

No telejornal do meio-dia ensinamos que as crianças devem comer frutas e verduras, durante o restante do dia veiculamos propagandas de guloseimas radicais. Então alguém questiona os fabricantes e publicitários. A criança está gordinha? Os pais não controlam o lanche da pestinha. Todos nossos produtos respeitam as normas. Cabe as pessoas se controlarem e educarem seus filhos.

Alguns anos adiante e uma bela porcentagem da população se vê com problemas de saúde ligados à obesidade e ninguém tem nada a ver com isso. Toda a questão é com o “descontrolado”. Restringir a publicidade? O quê? Isso é censura!

Ambiente violento, estressante, amedrontador, clima de “todos são inimigos” e, claro, supervalorização do carro. Erotização, poder e tudo que é desejado e está em falta na sua vida estão no carro. Encostou no carro, manda porrada e bala no safado.

A matéria da Folha traz bons exemplos e depoimentos sobre a violência no trânsito. Porém, ao ter como mote justamente um programa de tratamento de saúde, não conseguiu escapar da culpabilização do paciente.

A supervalorização do tabaco e do álcool gerou dependentes por onde passou. Esta cultura foi e é alimentada pela mídia e pela indústria pop. Hoje, o tabagismo já é recohecido como doença social pelo jornalismo e sua indústria é controlada governo. O alcoolismo ainda é visto pela imprensa como um problema de “descontrolados”, gente que não sabe beber. Afinal, eles avisam: “beba com moderação”.

Não somos muito bons em português (como podem perceber), mas até onde sabemos “até” (o advérbio) é usado para expressar com destaque “inclusive”. Desta forma, após o “até” vem o mais espantoso, o mais curioso, o mais absurdo. Como em “ele come todo tipo de carne: pato, coelho, porco, frango ou até cachorro”.

Na sociedade do automóvel é proibido tocar no carro dos outros. Se durante uma manobra encostarem no seu carro, você pode parar o trânsito no meio da avenida e sair xingando. Ninguém vai reclamar. É um direito supremo: ninguém mexe com o carro do outro.

Intimidar? É grave. Matar? Poxa, é grave. Destruir o carro? Gravíssimo. Até isso eles fazem… A que ponto chegamos! A Folha não pôde evitar este ato falho.

“..descontrole faz motoristas tentarem matar, machucar, intimidar pessoas ou até destruir carros alheios

Written by panopticosp

julho 16, 2008 às 13:56

Publicado em mídia

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7 Respostas

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  1. Excelente ponto de vista… e assustador!

    buragina

    julho 17, 2008 at 6:26

  2. Descontrole, falta de dinheiro, excesso de trabalho, controle de posse, segurança, insegurança… A mídia faz a massa e a massa assada é o bolo?

    Cassimano

    julho 17, 2008 at 10:40

  3. hahahahhahahha
    isso até foi engraçado.

    vini

    julho 18, 2008 at 12:36

  4. Sensacional… “Até” coloquei um link em texto mais ou menos sobre a mesma coisa.

    luddista

    julho 18, 2008 at 21:38

  5. […] dependência crônica do automóvel continua sendo uma patologia mais misteriosa que o […]

  6. É… Até dá para achar que foi de propósito…

    Ulisses Adirt

    julho 24, 2008 at 2:57

  7. Tem gente q lê mas não entende nada do q tá escrito. Isso é chamado de analfabetismo funcional. Ainda pior são esses outros q ESCREVEM (até para jornais) e não sabem o q escreveram. Analfabetismo funcional ‘graduado’?

    Pula o Muro

    julho 31, 2008 at 10:50


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