Panóptico

Mais uma do Bilhete Único espião

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Foto: Rodrigo Rodrigues Melo. Todos os direitos reservados. Reproduzido com autorização do autor.

Em São Paulo, uma das medidas mais legais do Bilhete único especial para idosos (passagem gratuita) foi libertá-los da famosa e segregadora “gaiolinha”. Antes eram obrigados a permanecer na parte da frente do ônibus e descer pela porta dianteira, sem passar pela catraca, apresentando o RG ao motorista. A parte traseira era zona exclusiva dos demais.

Hoje, podem sentar-se onde quiserem, inclusive juntamente com os seres que ainda não chegaram a sua idade. Infelizmente, a maioria dos idosos desce pela frente mesmo. Natural, já que os solavancos e a lotação dos ônibus não estimulam a passagem pela catraca.

Mas temos mais um passo atrás na tentativa de libertar as pessoas da vigilância e da segregação. Justificando medidas anti-fraude, a SPtrans exige mais um cadastramento. Os idosos devem ir até um dos locais autorizados, apresentarem RG, comprovante de endereço recente e tirarem uma foto no local.

O idoso receberá o novo Bilhete via correio junto com “todas as informações para o uso correto”. Cartazes em ônibus e terminais lembram os portadores de Bilhetes especiais do uso correto e informam que milhares de pessoas já foram punidas e desligadas do sistema.

Já é difícil entender a sociedade atual através das tradicionais teorias de vigilância e punição. Quando um grupo gigantesco e historicamente considerado não-perigoso como o dos idosos passa a ser registrado, monitorado e, claro, punido em massa, nos damos conta do estágio de controle social que atingimos.

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Written by panopticosp

junho 5, 2008 às 11:45

Publicado em transporte

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10 Respostas

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  1. Cara, na boa, será que isso não é porque tem uns espertos que usam bilhete de idoso mesmo não tendo chegado nem nos 30? Na minha opinião é por causa desses caras que eles têm que fazer esse recadastramento. E aí eu tenho que concordar, porque esse tipo de “esperto” onera o serviço para todo mundo. Se o transporte público devia ser de graça ou não, aí já é outra questão, mas enquanto não for, quem faz esse tipo de coisa está prejudicando quem não faz, então não tem como ser algo aceitável.

    É como o ingresso do cinema, que é caro pra caramba porque uma boa parcela dos clientes paga meia, muitos deles por ter carteirinha obtida com documentos falsificados (sim, fotografar o boleto da faculdade de um amigo e editar no computador pra colocar outro nome é falsificar um documento). Aí as empresas têm que colocar um preço que, na média (entre meias-tarifas e tarifas inteiras), dê o preço que eles gostariam de receber por ingresso. Ou seja, de novo quem quer dar uma de esperto acaba prejudicando todo mundo: tá errado.

    Willian Cruz

    junho 6, 2008 at 11:57

  2. Oi, Willian, sem dúvida é por esse motivo. Mas eu queria chamar a atenção que estas medidas atentam cada vez mais contra um direito civil básico, que é o de privacidade.

    Nunca devemos esquecer da história, em diversos países justificativas contra o crime, contra fraudes etc., vem destruindo a idéia de liberdade pessoal e de privacidade que demoramos tanto para garantir.

    Não gosto de um bilhete que sabe onde eu moro, que diga onde eu vou todos os dias, em que horários, onde eu o carrego.

    Não podemos nos calar diante destes monitoramentos eletrônicos, independente da justificativas (anti-terrorismo? para não roubarem sua bolsa? para não pagarem passagem de ônibus?). Acho que devemos buscar soluções que não desrespeitem esse direito, hoje desconsiderar a privacidade parece muito natural.

    Se um dia um regime “mais rigoroso” me considera perigoso por este ou aquele motivo, já viu…

    panoptico

    junho 6, 2008 at 13:52

  3. E qual seria sua sugestão?

    Arnoud

    junho 7, 2008 at 4:35

  4. Olá, sou novo por aqui, gostei muito do blog, já está no meu igoogle.
    Segue link do blog do Rodolfo Lucena, corredor amador, sobre uma passeata de cicistas pelados.
    Abraços.
    Fabiano.

    http://rodolfolucena.folha.blog.uol.com.br/arch2008-06-01_2008-06-07.html#2008_06-07_13_38_40-11248503-0

    Fabiano

    junho 10, 2008 at 10:17

  5. Oi, Arnaoud. Não tenho, nem pretendo ter, uma resposta. Acho que esse debate é muito negligenciado e acabamos por achar que está tudo bem.

    Câmeras foram e são instaladas e, sinceramente, que mudança notamos? Estamos abrindo mão de nossa privacidade em troco de quê? É o caminho correto? Acho que a pergunta final é se esta vigilância tem nos dado mais liberdade ou apenas uma sensação de segurança.

    Minha sugestão é identificar o problema. Se as pessoas fraudam o sistema, estamos educando cidadãos de forma errada e punindo a todos com sistemas cada vez mais agressivos anti-fraude.

    Poxa, se precisamos deixar endereço e fotografia para pegar o ônibus a coisa vai mal!

    O sistema deve considerar medidas anti-fraude sim, mas sem ferir leis universais do Homem. O trabalho deveria ser de longo prazo, de formação de cidadãos e não de curtissimo prazo, de correr inventar um sistema anti-fraude quando uma nova fraude acontece. Mesmo porque sempre há formas de bular o sistema.

    No caso de São Paulo, de imediato, não sei o que poderia ser feito. Se tivessemos ônibus seguros e não lotados todos os idosos poderiam passar pela catraca. Quem usar bilhete de idoso e não for idoso seria questionado pelo cobrador, como acontecia com o RG (antes do bilhete)

    abraço!

    panoptico

    junho 10, 2008 at 13:51

  6. Aqui em Goiânia quem faz uso indevido do cartão do idoso (aqui chamado passe livre) é a própria família do idoso, geralmente os filhos. Como os idosos nem sempre precisam pegar condução diariamente, a família usa para ir trabalhar, para ir estudar… e uma hora a fiscalização pega.

    Helen Fernanda

    junho 16, 2008 at 12:12

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  8. Panoptico, muitas vezes (diria, todas) o próprio cobrador é desonesto. Ele mesmo tem lá no seu bolso alguns cartões de idosos. Quando passa pela catraca um cidadão que paga com dinheiro vivo, o cobrador passa o cartão do idoso e embolsa o dinheiro do cidadão. Eu sou um usuário ocasional de Ônibus, uso 1 ou 2 vezes por ano, e nas vezes que usei, foi assim. Levantar situações idealistas é muito mais fácil do que encarar a realidade. Seria muito mais simples se o cidadão idoso pudesse entrar no ônibus e sair sem pagar nada, afinal, a pele enrugada e a falta de cabelos já são suficientes para provar que o sujeito é idoso. Não é preciso nenhum bilhete ou documento para isso. Mas como sabe, aqui no Brasil nada é de graça: Criam-se as dificuldades para vender as facilidades.

    Daniel Ribeiro

    fevereiro 9, 2009 at 10:51

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