Panóptico

De como construir um estacionamento silencioso

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Às vezes a cidade parece o tabuleiro de um joginho em que as peças andam por um caminho pré-definido a cada rolar dos dados, mas é só deixar o olho correr livremente que avistamos sinais de autonomia, de criatividade, de despretensão, de vida, enfim.

A vida casa-trabalho-trabalho-casa-microondas-televisão-cama, com uma garagem em cada um dos destinos e um carro entre cada um deles, não é a desejada pela maioria.

Uma cidade sem alternativas, uma cidade em que só é possível prosseguir ou retornar a cada jogada de dados, em que não é permitido parar e estar, não é uma cidade na qual gostaríamos de viver.

Enquanto investimos em condomínios, em pontes e túneis, o animal coletivo vai se acanhando, se isolando. Machucado, fica arredio e a cidade vai se tornando um terreno de disputa e estresse.

No final de semana precisamos “relaxar” e a solução é encarar estradas entupidas para fugir do chão em que vivemos.

Os guias “fuja de São Paulo” nos orientam rumo a praias poluídas. Na cidade, os shoppings centers nos levam à monotonia estética, ao esperado, ao certo e ao seguro. Os “barzinhos” da “balada” nos trazem as imitações plastificadas dos bares bonitos e despretensiosos de antigamente.

A cultura do entretenimento doméstico, do automóvel, do condomínio e da disputa corporativa afasta o Homem de seu lugar público, a cidade fica abandonada à escuridão dos Seres. A sociedade vira assunto desprezado, a política assunto de almoço de negócios e os negócios assunto de todos.

O mercado municipal central de São Paulo aos sábados é tomado de gente que pretende morder um lanche de mortadela enorme que “todos os guias recomendam”. Os comerciantes do local criam suas estratégias para aproveitar o movimento de turistas, porque o local, no dia-a-dia, longe dos guias, das reportagens ufanistas e das novelas que vendem a São Paulo italiana já não atrai tantos compradores.

O lugar em que as pessoas iam comprar seus artigos, baterem papo, pechinchar e matar o tempo por vontade própria não funciona aos sábados e durante a semana não tem nem metade do vigor de outros tempos.

Pergunte aos lojistas quanto daquela multidão compra alguma coisa. Todos acham tudo muito bonito, pegam fila e pagam caro pelo lanche de mortadela, mas não estão interessadas na promoção de queijo, para tal preferem os hipermercados.

A sensação de que os dados (…você sabe de quem estamos falando) levaram todos até ali está presente.

Há anos se discute a construção de estacionamentos subterrâneos no centro da cidade de São Paulo, um deles ficaria próximo ao Mercado Municipal. Recentemente houve mudanças no estacionamento rotativo do local (a zona azul), porque o estacionamento não comporta o ataque em massa de carros. Claro, continua não comportando.

Nos fundos, tudo parece continuar igual. Não precisam de autorizações, de filas, de guias, nem “zona azul”.

Não precisam passar, estão.

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Written by panopticosp

maio 8, 2008 às 23:05

Publicado em transporte

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