Panóptico

A pergunta que não foi feita

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Em São Paulo, as empresas de ônibus têm uma tabela de horários de saídas das linhas. Para que ela serve os usuários não sabem, já que é absolutamente comum que, esperando no ponto, você veja três ônibus da mesma linha passarem num intervalo de cinco minutos e só tornar a ver outro dali 40 minutos.

Quem anda de ônibus diariamente começa a entender a lógica. Os horários da linha são ajustados à escala dos motoristas e cobradores. Os motoristas dirigem em marcha lenta quando querem se atrasar o suficiente para não terem que realizar mais uma viagem completa e aceleram quando querem, por exemplo, chegar antes de um outro companheiro da mesma linha. A pressa e o desrespeito aos passageiros, muitas vezes, acaba numa batida.

Hoje de manhã um ônibus bateu na traseira do ônibus em que eu estava. Após o barulho, demorei alguns segundos para entender o que estava acontecendo, só entendi quando vi os cacos do vidro traveseiro voando até a catraca. Retirei os cacos do meu colo e vi uma mulher sangrando, machucou o cotovelo e, como estava de sandália, cortou o pé

Todos os passageiros desceram, o motorista do ônibus entregou com raiva um papel para o cobrador e também desceram. Não perguntaram se alguém havia se machucado, nada. Ficamos dentro do ônibus só nós que estávamos nos bancos do fundo. Estávamos bem perto do Hospital das Clínicas, mas a moça não conseguia andar, chamei a ambulância e esperamos.

Os funcionários da viação Via Sul entraram discutindo com os da viação Samambaia sobre a culpa de um e de outro na batida. Pedi que saíssem. Se não estavam preocupados com as pessoas que levavam mas apenas com as possíveis advertências que levariam, que o fizessem do lado de fora.

O resgate chegou, fez o curativo no pé, ela avisou seu chefe e pronto. Os funcionários da viação tinham essa obrigação. Quando alguém está sangrando, chamar socorro, aguardar junto com a pessoa e tentar acalmá-la é simples e não custa nada.

É incrível que para dirigir um ônibus com 80 pessoas você só precise de uma carta de motorista profissional. É revoltante que após o vidro de um ônibus ter estraçalhado em cima dos passageiros, nenhum dos funcionários tenha gritado “Tudo bem aí? Alguém se machucou?”

Na verdade, é incrível que ninguém, nem os passageiros, tenham perguntado. Estavam todos atrasados para o serviço.

Written by panopticosp

abril 17, 2008 às 15:04

Publicado em transporte

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Uma resposta

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  1. Trânsito, poluição, caos… De dentro do meu fone de ouvido escuto a cidade muda gritar, todos correm, milhares de olhares se cruzam para nunca mais se verem, respeito? Solidariedade??

    Office-Boy

    abril 22, 2008 at 12:47


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