Panóptico

Calçadão para quem?

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Quatro carros, três policiais. Um calçadão invadido.

Os calçadões do centro de São Paulo são alvos especiais das prefeituras que trabalham para os automóveis. Ao mesmo tempo que prometem uma teórica “revitalização” do centro, financiada pelo Banco Internacional, acabam com o espaço dos pedestres que estão no bairro e o mantém vivo de graça.

É uma multidão de pessoas que não tem medo do lugar que trabalha, mora e/ou passeia.

Um cidadão que não conhece o centro da cidade, porque não tem motivo para visitá-lo, pode passar num concurso público, ir trabalhar no bairro e descobrir que foi um tonto ao acreditar que o local é um amontoado de prédios antigos.

Uma cidadã que vai fazer compras econômicas de natal na rua 25 de março pode entrar numa travessa, noutra, noutra, e acabar descobrindo que pode passar prazerosas horas passeando pelo bairro. Vai perceber que a nostalgia das fotos preto e branco é uma invenção cultural que tenta desprezar o presente do bairro mais importante da cidade.

Uma dona-de-casa que vai tirar a 2ª via do seu R.G. num posto rápido do centro, enquanto aguarda sua senha pode sair dar uma volta e descobrir que está num bairro onde é possível resolver todas suas pendências da semana em não mais do que três ruas. /

A destruição da Rua 24 de maio, do Largo São Bento, da Rua Sete de abril e outros espaços é comandada por uma revitalização que entende que o centro está morto.

Uma revitalização que pretende apenas estimular uma parte da classe média, que abandonou o bairro há tempos, a voltar a freqüentá-lo. Aparentemente, nada de mau. Não fosse a destruição dos espaços de que não o abandonou; a falta de entendimento de que não é possível conhecer a atmosfera do centro dirigindo um carro; e a falta de senso pedagógico, já que é desperdiçada a oportunidade de proporcionar uma tarde sem carro ao cidadão viciado em engatar, acelerar e frear.

Os comerciantes que perduraram, os camelôs que sobreviveram, os sem-casa que dormem preocupados, os trabalhadores que chegam de ônibus, os funcionários públicos que por lá caminham todos os dias, os desempregados de currículo na mão, as casas de lanches cheias de motoboys, os bares de uma porta apinhados de velhos conhecidos, as prostitutas amorosas, os skatistas suados, os sebos empoeirados… Todos estão no centro, não o abandonaram como o fizeram governos e governos.

Written by panopticosp

abril 10, 2008 às 15:30

Publicado em transporte

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Uma resposta

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  1. […] “especiais”. Carros-forte, carros do tribunal, da prefeitura, das secretarias, de todas as policias imagináveis, carros de centros culturais, e assim […]


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