Panóptico

Cuidado com os pedestres

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cuidadoveiculos.jpg Placa estilo avesso do avesso pede que os pedestres tomem cuidado e não machuquem os carros

Os avisos de “Cuidados: Veículos” são uma farsa. Uma inversão da lógica do direito de proteção à vida.

Quem usa uma tesoura deve tomar certos cuidados diante dos demais. Quem usa um maçarico deve tomar certos cuidados diante dos demais. Parece-nos óbvio, quem usa um objeto que pode colocar a vida alheia em risco deve estar ciente dos cuidados de manuseio necessários.

Um pedestre não pode machucar um carro. Ele não faz uso de um objeto que requer cuidado, ele apenas faz uso de seu corpo (e ao usá-lo como um objeto de ataque é responsável por ele).

Na sociedade do automóvel a lógica se inverte. Dentro de um carro o homem se enfurece e esquece dos demais seres ao seu redor, esquece que manipula uma máquina de duas toneladas movida à combustão. Ao motorista é comum a sensação de que todos o ameaçam, motos, caminhões, carros e pedestres. A cidade é perigosa e é preciso ser mais esperto. Cortar, ultrapassar, aproveitar o sinal amarelo, avançar antes do sinal verde, converter, enfim, chegar o mais rápido possível.

Quando milhões de veículos se juntam, formam um exército sem ordem. São pessoas armadas em busca em um só objetivo, chegar antes. Os pedestres formam um exército muito maior, mas estão desarmados, sua armadura pode quebra-se ao choque de tropeção.

Acelerar na faixa de pedestres é uma ameaça armada, avançar enquanto o pedestre realiza a travessia é um ataque armado. Ameaçar e avançar usando um carro são crimes, são ameaças de morte.

O direito universal à vida pede que protejamos os mais fracos. O direito universal entende que um Homem desarmado não pode ser atacado por outro armado. As centenas de mortes de pedestres não podem ser encaradas como acidentes, não podem ser entendidas como efeito colateral da sociedade motorizada, elas só podem ser encaradas como o ataque de uma pessoa armada a um inocente.

Motorista, é impossível atacar uma máquina de aço 16 válvulas, fiquem traqüilos não lhe pungiremos nenhum mal. Não lhe machucaremos, estamos desarmados. Só queremos andar desarmados sem sermos ameaçados em cada esquina percorrida.

Todos nascemos pedestres.

Todos somos pedestres.

cuidadopedestres.jpg
Placa estilo papo certo pede que os motoristas cuidem de não machucar os pedestres

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Written by panopticosp

fevereiro 22, 2008 às 12:30

Publicado em transporte

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8 Respostas

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  1. Ué, mas o aviso é para proteção dos pedestres, e não dos veículos! Sim, é evidente que é preciso alertar numa escala muito maior o motorista. Sei lá, essas generalizações de “motoristas malvados” parecem tão ingênuas… Se o uso do carro transforma papai e vovó em assassinos, a quem direcionamos nossa raiva?

    Debici

    fevereiro 22, 2008 at 14:24

  2. Debici, acho que vc não entendeu o post…

    Arnoud

    fevereiro 22, 2008 at 17:48

  3. Oi, Debici.

    É isso mesmo a segunda imagem é a que seria correta (eu esqueci de deixar claro, vou inserir uma legenda). O prédio faz o correto (diferentemente da primeira foto): pede aos motoristas que tomem cuidado com os pedestres.

    Sim, como quase todos os artigos do blog, trata-se de uma generalização. Claro que há motoristas respeitosos e claro que há pedestres, ciclistas, skatistas que colocam a vida de outras pessoas em risco (o grau muda bastante, já que as chances de um skatista matar alguém num atropelamento são bem menores das de um carro, mas deixemos isso de lado).

    A generalização (o panorama, o quadro ou qq outro nome) às vzs é necessária para analisarmos o todo.

    Uma análise caso a caso diria que às vezes motoristas aceleram quando o pedestre ainda não terminou a travessia, ou diria que isso é comum. Uma visão geral, que é a tentamos dar, diria que a primazia do automóvel é tão forte que faz com que a maioria das pessoas acreditem que não estão fazendo mal nenhum ao fazer o pedestre correr para não se lascar.

    Eu chuto que a maioria destes motoristas são pessoas comuns, sem intensão de machucar ninguém, mas, mais uma vez, a cultra que entende que as ruas é SÓ para os carros isenta estes motoristas de culpa.

    Numa fila de bar, ninguém sairia correndo com uma garrafa na mão, exigindo que os demais saiam da frente, certo? Provavelmente, as pessoas saíriam da frente com medo. Mas como não existe uma “cultura” nos bares que diz que quem tem uma garrafa na mão pode sair correndo por cima das pessoas, todas as pessoas do bar se revoltariam e não aceitariam que o pessoal começasse a usar garrafas para transitar numa balada lotada.

    Infelizmente, como disse, a cultura do automóvel, é forte e a gente acha normal que um carro avance sobre uma pessoa que atravessa a rua.

    abraço!

    panoptico

    fevereiro 22, 2008 at 19:47

  4. Acho que as duas placa tiveram a intenção de alertar aos pedestres o que fal tou foi uma virgula na segunda, porque sem a vírgula o alerta é para o pedrestre, nesse caso como a primeira não tem virgula estaria alertando aos veiculos. . .

    Lingua portuguesa a parte o problema não é os carros, é o ser humano.

    Eu moro em uma rua de pouco movimento, sempre que chego em casa tenho que desvia de bolas, crianças entrando na frente do carro , fazendo gracinhas, de bando de pessoas que ocupam a rua toda me fazendo trafegar pela contra mão e por aí vai. Tudo bem que perto de escola tenho que andar devagar, lógico, mas quando passo perto de uma escola o que encontro são adolescentes andando no meio da rua e tenho que parar para eles passarem, isso é certo? Porque não andam na calçada, poque eles andam no meio da rua, não é que estão atravessando não.

    Teve um dia que eu ia entrando em uma rua movimentada, acho que é normal olhar só para o lado de onde vem os carros, ainda mais que não é costume pedestre nesse local. Quando ia acelerando dei de cara com uma mulher em frete ao carro, não bastasse o susto que levei, escutei a frase o” jumento só olha pra um lado” Se fosse eu que estivesse no lugar dela o máximo que faria era dar uma risadinha sem graça, não pensei na raiva disse: Ainda bem que não machuquei a pata da jumenta que estava passando, se ele tivesse ficado calada ganharia um pedido de desculpa, mesmo sabendo que ela estava errada eu pediria desculpas.

    Eu não sou do lado de ninguém, afinal hora sou pedrestre, hora motorista, sou a favor é da boa educação que as pessoas não venham descontar suas amarguras em cima das outras, estejam ao volante ou a pe.

    Carmem

    março 20, 2008 at 17:49

  5. “Teve um dia que eu ia entrando em uma rua movimentada, acho que é normal olhar só para o lado de onde vem os carros”

    Não, Carmem. Vc é obrigada a olhar para os dois lados, pois os pedestres não precisam obedecer mão de direção. Os pedestres tb têm preferência de passagem. Vc estava errada.

    “Eu moro em uma rua de pouco movimento, sempre que chego em casa tenho que desvia de bolas, crianças entrando na frente do carro , fazendo gracinhas, de bando de pessoas que ocupam a rua toda me fazendo trafegar pela contra mão e por aí vai.”

    Quem disse que as ruas são para os carros? Seus vizinhos estão resistindo a dominação das ruas pelos automóveis. Pode acreditar que nas ruas com bolas e brincadeiras ao ar livre as pessoas são mais felizes do que naquelas em que só há carros, vidros pretos, fumaça e semáforos.

    As ruas são para as pessoas, não para os carros.

    panoptico

    março 20, 2008 at 18:01

  6. Ainda não concordo que estava errada no caso da mulher, se eu for olhar para o dois lados nesse cruzamento, eu não passo nunca, pois a rua em que iria entrar é muito movimentada e não custava ela dar a volta por trás do carro,ou esperar o carro passar, além do mais é muito dificil aparecer pedestre onde ela apareceu. e está no código brasileiro de Transito: o pedestre deve certificar-se da segurança ao atravessar. além do mais ela foi muito mal educada, ainda bem que eu ando devagar e a vi a tempo de não passar em cima.
    No caso de brincar na rua não é nem que eu seje contra, o problema é vir de encontro com carro, fazendo macaquices, são crianças e não têm noção do que é controlar um carro, mas seus pais podiam avisá-las o que é perigoso, e as correntes de pessoas que se formam atrapalhando o trânsito em uma rua que tem calçada pode até causar acidentes, mesmo sendo de pouco movimento ha carros passando e as vezes vêm dos dois lados também está na lei que as pessoas devem andar nas calçadas ou na borda da pista. Eu sempre obedeço às leis e ando devagar, mesmo assim é périgoso.
    Quanto a dominação das ruas pelos carro, eu te digo uma coisa: se não existissem carros e quando não existiam as ruas não eram como as que você conhece hoje.
    Eu entendo sua posição de ser contra os carros, afinal poluem o ambiente e são realmente armas se mal usados, em compensação levam agente à lugares legais onde não iríamos sem eles. Eu já dirijo há muitos anos nunca me envolvi em acidentes, procuro ser prudente, muitos dos que por mim cruzam, pdestres ou motoristas, é que não são, é claro que já cometi erros, mas procuro não cometê-los

    Carmem

    março 25, 2008 at 10:02

  7. […] mesmo raciocínio é válido para as dezenas de garagens que ostentam placas dizendo “cuidado, veículos”. É preciso “lembrar” os motoristas a cada 100 ou 200 metros que a calçada é um […]

  8. Carmem, tenho 34 anos e passei meus primeiros 10 anos de vida numa rua num bairro da Vila Sonia. Na minha época a gente jogava volei na rua e dava pra jogar um set inteiro e as vezes não passava um carro sequer. Na minha época a rua era viva, cheia de pessoas conversando, crianças brincando, a gente caminhava e ia dizendo bom dia, boa tarde para todos os vizinhos.

    Meses atrás passei na mesma rua e o que encontrei? Uma rua estreita, na minha época era muito larga. Havia carros parados dos dois lados da rua e nenhuma alma viva, parecia um deserto. Agora o que foi o responsável basicamente por isso? Os carros!

    Tenho inveja de você que mora numa rua onde os carros ainda não venceram as pessoas. Nessa mesma rua me lembro que havia uma placa que tinha uma criança correndo atrás de uma bola. Hoje não conheço um lugar na cidade que tenha uma placa dessa.

    Agora me desculpe, o carro não leva ninguem a lugar nenhum, eu conheci lugares maravilhosos onde jamais chegaria com um carro. E antes tenha certeza, as ruas existem bem antes dos carros, pontes eram construídas para ligar povos e não como hoje que só servem para levar carros de um congestionamento a outro.

    O carro só traz benefícios ao seu dono, em compensação poluem o ar, necessitam de muito espaço e o pior de tudo, não é acessível a todos. Ainda bem, pois se todo mundo tivesse condições de ter um carro nem planeta teríamos mais.

    Você é uma motorista que por mais que diga que dirige com prudência, infelizmente eu não senti em você uma valorização da vida, mais do que valoriza seu carro. Tudo bem, entendo sua posição, igual a você temos milhões de pessoas que sofrem com esse martelamento da mídia em que o carro é simbolo de Status, patrimônio que é mais importante que mulher e filhos, ir contra essa maré forçada é difícil mas não impossível.

    Eu na minhas raras vezes que ando de carro (Só ando de carro quando carrego alguém ou um peso que não consiga levar a pé do de bicicleta) não consigo me incomodar com um pedestre que atravessa fora da faixa. Sou pedestre e sei que muitas vezes eles são obrigados a andar na rua para desviar de um carro parado na calçada, isso quando há calçada. Jamais me sentiria oportunado com um pedestre, se sem querer não tivesse reparado em um como você fez, pediria desculpas na mesma hora.

    Quando dirijo presto muita atenção a minha volta e preservo a vida mais do que tudo. Sei o mal que estou fazendo a cidade usando o meu carro e tento compensar dirigindo dando preferência a todos os mais fracos.

    Somos pessoas diferentes, mas creio que com um pouco de esforço você compreenderá que esse é o único caminho para viver em paz consigo mesmo.

    André Pasqualini

    julho 18, 2008 at 22:53


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