Panóptico

Motos x carros

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Foto: Beiço. Todos os direitos reservados.

Publicado nos jornais semana passada:

A Comissão permanente de trânsito, transporte, atividade econômica, turismo, lazer e gastronomia convida ao público para participar de audiência pública tendo como tema “Motocicletas – Motofrete – Proibição de circulação nas vias expressas das marginais Pinheiros e Tietê – Reivindicações da categoria”
Data: 6 de fevereiro de 2008
Horário: 13:00 horas

Local: Plenário 1º de maio, 1° andar. Câmara municipal de São Paulo, viaduto Jacareí, 100, Bela Vista, São Paulo

Todos os dias um motoqueiro morre em São Paulo. A história é simples. Numa cidade com um enorme número de empresas de serviços e com congestionamentos diários, sacaram que as motos eram os únicos veículos motorizados capazes de escapar do trânsito. Micro empresas recrutaram jovens com baixa escolaridade e alta disposição para passar o dia costurando a 50km/h com os joelhos entre duas filas de carros.

A garotada foi tombando pelas ruas, as emergências dos hospitais enchendo, fabricantes e financiadoras de motos dirigindo sua produção e serviços para este público. Os motoristas de automóveis a cada dia se enfurecendo mais com a audácia dos novos veículos. As rádios que tocam trânsito 24 horas relatando os casos de retrovisores arrancados e veiculando declarações de ódio aos “cachorros loucos”.

Nem as mortes, nem a repulsa dos motoristas paulistanos brecaram o crescimento do número de motoboys em São Paulo. A pressa é exigência dos clientes, o trânsito é de carros; e enquanto não se reduzem nenhum dos dois, os motoristas continuarão a tolerá-los.

Diante dos números de mortes e acidentes, este mês a Prefeitura testou uma faixa exclusiva (improvisada com cones, num curto trecho, das 10h às 16h) para motos na 23 de maio, uma das principais vias expressas da cidade. Claro, o trânsito piorou e o teste que seria de uma semana foi encerrado antecipadamente descartando-se a idéia. (Politicamente, diante do sindicato dos motoboys, a faixa exclusiva seria uma espécie de compensação a possível proibição de motos na via expressa da marginal Pinheiros – via mais veloz que a local – ainda em discussão).

É óbvio que uma faixa exclusiva deveria existir para o transporte público e não para o individual, qualquer que seja. Mas o que cabe chamar a atenção no caso é que o trânsito de carros com 100% de certeza pioraria ao se dedicar uma faixa às motos. O trânsito piorou. Pronto. Esquece. Próxima idéia. É para isso que foi feito um teste? Ou para saber o quanto se poderia restringir a circulação do rei carro?

As notícias das rádios, das TVs e jornais locais se dedicam ao motorista de carro de passeio e ao taxista. Sobre transporte público só se ouve falar em dia de greve, porque atrapalha o trânsito; sobre o caminhão, só quando há alguma fiscalização de poluição; sobre a carroça, a bicicleta e o pedestre…. esquece.

Em São Paulo, o carro é o rei. O carro tudo faz, tudo pode, tudo consegue. Caminhão é odiado porque solta muita fumaça e não se mantém na faixa da direita; ônibus solta muita fumaça e não se mantém na faixa; moto é muito abusada, costura, faz loucuras, passa no sinal vermelho e quebra retrovisor; carroças são “pilotadas por mendigos”, param o trânsito para levar lixo; bicicleta, skate, patins… passeio, deveriam ir para um parque; pedestre, aquele de dispensou o veículo, atravessa fora da faixa, se arrisca achando que a rua é dele.

Nenhum destes veículos serve para alguma coisa. Nenhum deles existe. Caminhão não leva produtos e matérias: motos não levam documentos, alimentos e tudo mais; carroças não levam material reciclável; ônibus, bicicletas e demais não levam pessoas. Na cidade em que o carro de passeio monopolizou o espaço público, todos os demais veículos existem apenas para atrapalhar o trânsito, não fazem parte do trânsito; ninguém os enxerga; são apenas obstáculos ao carro de passeio e a sua expansão.

Mortoboys, artigo, Casa de Hael
Canal Motoboy, fotografias e depoimentos de motoboys de São Paulo
Atualização:
Motofaixa na Av. Sumaré, artigo, Vá de bike!
Motos na Sumaré ou “Verde? Que verde?”, artigo, Apocalipse motorizado

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Written by panopticosp

fevereiro 5, 2008 às 10:04

Publicado em transporte

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8 Respostas

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  1. Creio que o trecho “ônibus solta muita fumaça e não se mantém na faixa” iria bem com um link para a postagem anterior (Clássicos de São Paulo).

    Ulisses Adirt

    fevereiro 7, 2008 at 14:24

  2. Infelizmente São Paulo é uma coleção de pessoas intolerantes, que o tempo todo, não somente no trânsito, acham-se donos de toda a razão. É triste dizer isso, pois sou paulistano, mas vejo como somos um povo carregado de ódio, e sempre achamos que temos razão em tudo. Exemplo, como motociclista, acredito que a solução para a cidade seriam motos e scooters e o fim de carros de passeios congestionando para carregar apenas o motorista. Legisladores, porém, não andam de moto…

    hugobci

    fevereiro 10, 2008 at 17:51

  3. Oi, Hugobci.

    Nas grandes cidades poucos possuem carros ou motos e as ruas decidadas estão por toda a cidade, ou seja, a minoria ocupa quase todo o espaço disponível. Veja a situação das calçadas, um cantinho de nada para os pedestres.

    Acreditamos que o transporte coletivo bom e barato é o caminho para grandes cidades, qualquer veículo individual motorizado congestiona, polui e ocupa um espaço que é de todos.

    Como transporte individual as biciletas são a melhor opção, não poluem, não fazem barulho, são fáceis de dirigir. Seria ótimo se pedestres, ciclistas e pouquíssimos veículos motorizados pudessem conviver em harmônia.

    abraço!

    panoptico

    fevereiro 11, 2008 at 12:01

  4. Concordo contigo. O modo como todo o problema do trânsito é abordado é totalmente pontual, pois a solução envolve uma mudança cultural intensa, que envolve o respeito múltuo em todas as esferas, e não somente no trânsito.

    hugobci

    fevereiro 19, 2008 at 15:29

  5. […] segunda dica é a coletânea de textos abaixo: Motos – parte I Motos X Carros Motoboy, invisível que incomoda Mentira para idiotas é a alma da Veja A criminalização dos […]

  6. Bom texto. Em resumo, a rua é de todos.

    Willian Cruz

    fevereiro 26, 2008 at 16:11

  7. […] por jovens pobres como fonte de renda, a moto rapidamente foi eleita a culpada por acidentes. Logo, assaltos ligeiros em motos foram parar na conta de todos os trabalhadores do ramo. As mortes […]

  8. […] por jovens pobres como fonte de renda, a moto rapidamente foi eleita a culpada por acidentes. Logo, assaltos ligeiros em motos foram parar na conta de todos os trabalhadores do ramo. As mortes […]


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