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Mulheres anônimas

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mulheres_bergamo_01.jpg

Trecho da análise do Fósforo sobre a foto da reportagem “Entre rosas e espinhos” de Mônica Bergamo na Folha de S. Paulo do dia 20/01 :

(…) Fui à legenda, claro. A verdade estava lá inscrita, pétrea: “Fulana de Tal, vestindo Fórum Tufi Duek, na casa do estilista.” Só.

Apenas uma dessas mulheres existe, para o jornal. A outra pode ser confundida com um vaso ou um animal doméstico. Seu sorriso é uma miragem, seu corpo é uma abstração escondida sob o uniforme masculinizado. Talvez cozinhe melhor, cure melhor, console melhor, faça amor ou cuide dos filhos melhor que sua vizinha, mas isso não conta. Não merece ter o nome divulgado.

Aliás, não é gente. Não pode ter nome.

Fonte: Duas mulheres, Fósforo. (Via: Liberal, Libertário, Libertino)

Não há o que acrescentar, mas vendo as outras fotos da matéria e considerando o estilo da coluna, parece que a mulher sem nome serviu de decoração. A intenção da fotógrafa não parece ter sido apenas a de “integrar dois mundos, mostrar quanto as mulheres podem ter em comum” ou estava ali somente como um vaso, como comentou o Fósforo; tampouco tentaram cortá-la da foto, só permanecendo nela para a página não ficar fora de diagramação.

Foi decoração mesmo. Elemento de contraste. Como uma coluna de mármore ao lado do erudito, uma estante de livros atrás do intelectual, um copo à mesa do músico. A funcionária está ali para ressaltar o objeto central da fotografia, a mulher de vermelho. O tema da matéria era o desfile de fulano na casa do fulano e a funcionária compunha a foto que remeteria ao espírito da matéria, de que se estava na casa gigante de fulano para um desfile e que isso é inusitado, interessante, curioso, cool…

O estilo da colunista social e de seus ajudantes é cheio de artimanhas, apresentando o luxo com um suposto tom de crítica e espanto. Ao descrever os bastidores como se fosse uma investigadora desconhecida de seus objetos disfarça a promoção de certas figuras e a abertura de caça a outras. Ao adotar uma redação estilo diário de campo de antropóloga faz parecer que não faz parte da legião de jornalistas que busca no tema chiques e famosos a garantia das vendas de seus jornais.

As ações e opiniões das ricas, das importantes, das poderosas produzem notícias para os jornais. O jornal produz matérias para o consumo exclusivo da classe média, qual o melhor carro, a melhor escola de pós-graduação, a ginástica da moda, o hospital moderno. E as pobres, as vencidas, as esquecidas, as “comuns” que estão vivas, comem, dormem, consomem, brigam? Que são maioria, que têm nome? São apagadas, não passam de um bando de sem-legendas.

Written by panopticosp

janeiro 29, 2008 às 16:10

Publicado em mídia

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