Panóptico

A coleta seletiva de que a prefeitura fala e a coleta de quem faz

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Arte e foto: Mundano. Eu reciclo e você?. Todos os direitos reservados.

“São Paulo nos surpreende a cada dia”, nesta semana de aniversário da cidade, você provavelmente ouviu frase parecida. Bem verdade, pena que na maioria dos casos a surpresa é um atropelamento, camelôs correndo da polícia, guarda metropolitana espancando morador de rua…

Uma das surpresas dessa cidade que a todos acolhe baixou na manhã do dia 22/01 sobre o bairro do Glicério. Os catadores de materiais recicláveis que trabalham sob o viaduto do Glicério receberam um “corre que vamos levar tudo” de presente. A prefeitura queria limpar o depósito porque ele estava muito sujo, para isso levou sua melhor equipe de faxineiros, a Guarda Municipal Metropolitana. Não usaram vassouras, mas diante da resistência dos catadores organizados usou spray de pimenta para higienizar o direito ao trabalho.

Uma coisa é varejista milionário vender na marca “Compre Bem” enlatados para pobres com preços diferentes dos da gôndola e na marca “Pão de Açúcar” oferecer laranja descasca embaladas em isopor e carregadas em sacolinha plástica com mensagem para “um mundo melhor”. Ele joga o jogo, faz sua publicidade, se mente é coisa que o governo deveria conferir. Outra coisa muito diferente é o poder público perseguir o trabalhador que faz o trabalho que ela não faz ao mesmo tempo que estimula a reciclagem com frases tais “Programa de Coleta Seletiva da Prefeitura: Participe“.

Em dia de lançamento de projeto com coquetel para comemorar o convênio com associação de empresários todos são só amor à reciclagem. Mas a reciclagem deles é diferente, não tem pessoas coletando material descartado por toda a cidade, vendendo o material no mercado e comprando seus mantimentos.

Para a prefeitura trabalhar dentro das regras do capitalismo não pode, é sujo. Ela trata logo de desmontar um depósito de material aqui, chamar papelão de lixo contaminado ali, proibir carroças acolá, chamar carroceiro de animal logo adiante e assim segue seu argumento publicitário para dar a uma empresa amiga o lucro da coleta seletiva da cidade.

Os trabalhadores viram funcionários com salário mínimo, vale coxinha e cursinho de alfabetização para garantir a responsabilidade social; assim fica tudo dentro das regras do jogo do capitalismo brasileiro, garante-se o represamento do dinheiro e apaga a fúria da classe média contra os carroceiros que atrapalham o trânsito e enfeiam a paisagem de automóveis pretos e prateados.

Vozes e poderes de resistência dentro dos governos sempre haverá enquanto os cargos públicos não forem tomados por parentes e lobbistas. Quando um coordenador de ação social de subprefeitura diz que “a medida da subprefeitura é fazer uma grande limpeza, depois desta grande limpeza eles podem voltar a trabalhar normalmente aí” e leva a polícia junto vê-se que chegamos num ponto em que a única ação social é limpar da cidade os indesejados.

VÍDEO: Catadores Surpreendidos com Limpeza da Prefeitura, Rede Rua

Relacionados:
Catadores Surpreendidos com Limpeza da subprefeitura da Sé, notícia, Rede Rua
Operação Limpa no Bairro da Luz, Capitulo VII – Parte 2 do dossiê Violação dos Direitos Humanos no centro de São Paulo, Forúm Centro Vivo

Written by panopticosp

janeiro 28, 2008 às 12:22

Publicado em política

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3 Respostas

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  1. […] depois de perseguir carroceiros, de brincar com a rotina dos motoboys, de exigir que os usuários de transporte público paguem […]

  2. […] desrespeito e a reafirmação de desigualdades justamente naqueles que estão mais desprotegidos e apenas tentam sobreviver. Um conhecido grande […]

  3. Demorou pra acontecer, aliás…. Esse é um dos centros de reciclagem mais imundos q eu já vi. Se estivesse em condições como o de Pinheiros (na João Moura, embaixo da Teodoro Sampaio) isso não aconteceria. A Prefeitura poderia fazer muito mais ações para os Catadores, e é óbvio q devem ser respeitados, mas quando estiverem emporcalhando tudo ou fumando crack, como em frente do MEC e em seus arredores, na Santa Cecília, os corres são até pouco.

    Luis Roberto

    janeiro 29, 2009 at 14:00


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