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Reforma das calçadas da Teodoro Sampaio

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Rua Teodoro Sampaio, a 50 metros da estação Clínicas do metrô, calçadas detonadas

Em setembro do ano passado foi iniciada a reforma das calçadas da Teodoro Sampaio, em Pinheiros, São Paulo. A rua também foi uma das escolhidas como rua-modelo do Projeto Cidade Limpa.

A obra duraria quatro meses, segundo a prefeitura, ou seja, já deveria estar pronta. Voltamos de férias e a coisa está quase na mesma. Ver a empreiteira trabalhando no local não é muito fácil, vai ver os 750 mil reais de investimento anunciados são insuficientes para uma jornada de oito horas diárias, cumprimento de prazo e essas preocupações dos demais mortais… Empreiteiras têm um jeito seu de ser…

A reforma acontece só no trecho entre as avenidas Faria Lima e Henrique Schaumann. O restante da rua, caminho para a estação Clínicas do metrô, ficou de fora. A estação fica na Av. Dr. Arnaldo, que também teve suas calçadas adaptadas às normas de acessibilidade.

É uma lógica difícil de entender. O cadeirante desce na estação Clínicas e quer ir, por si só, até o trecho comercial da Teodoro, porque sabe que poderá passear e fazer suas compras numa rua com calçadas adaptadas. Não consegue. No caminho existem quarteirões com calçadas detonadas. De ônibus também não dá certo, pois as ruas transversais que dão acesso à Teodoro não foram reformadas.

A prioridade deveria construir “caminhos” adaptados, formar uma seqüência minimamente lógica que permita que a pessoa com dificuldade de locomoção possa ir autonomamente de um lugar de embarque e desembarque ao seu destino final. As pessoas precisam ir do metrô ao centro comercial, do hospital ao ponto de ônibus, da loja ao banco, do banco para a estação e da estação para casa.

A maioria das novas calçadas adaptadas garantem a circulação num determinado trecho. Se vai do banco à loja, da padaria ao correio, mas como chegar até este trecho? Como não é de pára-quedas, só de carro mesmo. E como uma minoria possui carro e, muitas vezes, se depende de um acompanhante, um motorista, por exemplo, calçadas descontinuadas não são ideais, pois não trazem a independência desejada pelas pessoas com necessidades especiais de locomoção.

O piso escolhido para a faixa central da calçada da Teodoro é diferente dos de outras ruas, o que achamos bom, uma vez que padronização não precisa significar uniformização chata. A questão é que notamos que não havia nas rampas de acesso o piso tátil – uma faixa amarela com bolinhas em alto-relevo que permite ao portador de deficiência visual “sentir” que a calçada começa/acaba ali.

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Exemplo de sinalização em rampa. Rua Oscar Freire, Jardins, São Paulo

Abaixo, uma das esquinas mais movimentadas de pinheiros, a da Teodoro Sampaio com a Pedroso de Moraes, já reformada e sem a faixa sinalizadora nas rampas:

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Meses depois em alguns – alguns – quarteirões inicou-se a retirada das lajotas para a colocação da sinalização diferenciada. Por exemplo, numa mesma esquina, a da Teodoro Sampaio com a Morato Coelho, temos uma rampa pronta e a outra abandonada há mais de um mês:

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Já estamos acostumados com o fazer para depois desfazer e fazer tudo de novo, então nem vamos comentar. O que importa é que mesmo após o retrabalho, mais uma vez, falta bom senso. Por que um quarteirão é sinalizado e o seguinte não? Qual é a lógica? Você vem andando tem a sinalização, chega na Pedroso de Moraes (com cinco faixas de veículos) e não tem sinalização, depois tem, depois não tem… Que espécie de reforma é essa de diz “Aqui não precisa de sinalização, aqui precisa”? Que decreto [pdf] é esse que na prática diz “Aqui você pode correr o risco de acabar embaixo de um carro, aqui não”? Por que algumas ruas merecem uma excelência de sinalização e outras não?

Em São Paulo a gente acorda com a rua recapeada. Em uma noite a rua está pronta, lisinha. Tudo muito rápido para não atrapalhar o trânsito – claro, só as faixas de pedestres que ficam para depois, para quando sobrar tempo.

Anualmente, são investidos milhões na manutenção de ruas para a rodagem de automóveis. Com as calçadas é bem diferente, quando, finalmente, há um projeto do poder público de reformas das calçadas não há a continuidade de trajeto desejada, a sinalização é “econômica” e louca e as obras se estendem por meses, obrigando os pedestres a se espremerem entre as máquinas e os entulhos durante metade do ano.

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Written by panopticosp

janeiro 17, 2008 às 15:49

Publicado em transporte

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3 Respostas

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  1. Um trabalho de primeira o desta postagem (não o da prefeitura, óbvio). Bem pesquisada, argumentada… Parabéns!

    Ulisses Adirt

    janeiro 17, 2008 at 22:29

  2. Ei camarada, para que a pressa, a eleição é só em outubro, fica tranqüilo que até lá tudo será inaugurado…

    luddista

    janeiro 18, 2008 at 0:18

  3. executamos assentamento de pisos intertravado

    amarildo de oliveira

    abril 23, 2011 at 13:45


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