Panóptico

Carro sujo sempre vai ter

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Três dias procurando aquele sotaque gostoso, aquele vocabulário desconhecido. Diluído nas regiões freqüentadas por muitos turistas; como sempre, o encontrei no ônibus.

– É muito fácil, véio. Você já tinha trabalhado com jato?
– Não, não.

Tinham uns 25 anos, um sentado o outro em pé. Encaixei-me em pé. Sete horas da noite. Carro cheio, mas não lotado.

– Você vai ver, é muito fácil. É fácil demais.
– Aqui nessa região se você entrar nas ruas aí, vai ver um monte de lava – rápidos. Se pegar a manha e não faltar e tal, é bom.
– Pra mim tá bom. Ficar em casa é uma merda e aqui eu tiro um. Daqui um tempo já dá pra ir me arrumando.
– Se vai ver, carro sujo sempre vai ter, né.
– Quando eu falto lá fica corrido, os caras nem olham na minha cara no outro dia direito. Eu chego já tão com aquela cara. Quando outros caras faltam, tudo beleza, ninguém faz cara. É corrido.
– Já fez painel.
– Painel, não.
– É fácil demais, véio. Fácil demais.
– O bom lá, você vai ver, é que você faz de tudo e aprende tudo. Você faz pneu, painel, aspira…
– O velho que é folgado, eu tô aspirando e ele fica me chamando para fazer o pneu… eu finjo que nem ouço. Aí ele vem “- Tá morto aí?”, “- Não dá pra ouvir com essa zuada no meu ouvido, né”, “- Passa o pneu aí”. Porra, o cara quer eu faça o pneu do mesmo carro. Só atrasa o carro.

Não sei como, acho que foi na hora que o celular do que estava sentado tocou e ele desligou após olhar para a tela, o assunto saiu do bairro do trabalho e foi para o bairro de moradia.

– O cara vendeu o garfo, dois pneus… Nem sei por quanto. Eu tinha dado pra ele.
– Mas o cara vendeu as peças que você tinha dado?
– Eu dei uma parte para o meu pai. “- Ae, pai, você não queria colocar sua bicicleta para rodar de novo? Pega aí o que precisa”. O resto eu dei pra esse cara. Eu tava em casa e toda hora vinha alguém “empresta aí, rapinho, pra um corre”. Porra, às vezes de noitão, vinha um bater pedindo, eu emprestava de boa, mas era toda hora, não dava, toda hora, véio, na janta…
– Mas eu quero arrumar outra.
– Outro dia tinha um maluco vendendo uma novinha por cinco conto. Cinco conto.
– Porra, o cara tava na nóia, heim….
– É, novinha. Não acreditei, mas não tinha os cinco. Vendeu rapinho ali na rua.
– E você vendeu aqueles falantes?
– Quarenta conto.

Foi mais ou menos assim, bem mais que isso, num ônibus de linha em Maceió. Entendi a placa que vi numa casa de uma vila próxima da praia da sereia. “Não empresto a bicicleta. Não insista”. Gostaria de ter a foto da placa e a gravação do diálogo dos dois rapazes. Escrevo para poder reler e quando reler tentar recordar do sotaque de quem entende como o as coisas rodam diferentes para alguns.

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Written by panopticosp

dezembro 12, 2007 às 21:09

Publicado em transporte

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