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Ecomarca

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Aqui no escritório adotaram o papel reciclado do Ermírio de Moraes para impressões e meu cartãozinho de visita agora é de papel reciclado também. Foram estas as medidas ecológicas adotadas aqui. Convivem com estas atitudes, banheiros segregados (a diretoria tem os seus de uso exclusivo), salários diferentes para funcionários na mesma função, jornada extra não remunerada, uniforme para faxineira…

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A questão do papel é simples: pega bem, mostra aos clientes e fornecedores que a empresa está sintonizada com o discurso atual. Um sinal claro dos tempos: se o discurso chegou nesta pequena empresinha, a coisa, de fato, está disseminada. Nada de ruim, obviamente, certa postura diante do tema é bem-vinda, e não vai fazer mal nenhum usar o tal papel.

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Há pouco tempo atrás era exemplo clássico de brand marketing citar os cases sobre água mineral engarrafada. Como vender o diferencial de um produto que não tem cheiro, sabor ou cor? Esse tempo passou, em qualquer supermercado é possível encontrar uma gôndola reservada para águas de diferentes marcas.

A evolução das marcas foi rápida. A propaganda cada vez menos vende os atributos da mercadoria (durabilidade, acabamento…) e cada vez mais a marca (identidade, imagem…). Portar um Ipod, por exemplo, não significa portar um objeto caro com a função x e y, mas fazer parte de uma comunidade mundial de apreciadores do design, da modernidade e tudo mais que a Apple agregou aos seus produtos (ser acessível a uma micro minoria, claro, faz parte da identidade hype).

O capitalismo precisa de renovação constante. A renovação dos apelos é alimento. Lembremos o que aconteceu com a contracultura ou a cultura de rua, por exemplo. A assimilação do grafite, do skate, da música dos subúrbios etc. aconteceu, de forma que hoje um banco internacional com fachada grafitada não nos parece muito estranho. A cultura do compartilhamento de conteúdo, a arte combativa e até o próprio ativismo são a bola da vez.

É só dar um pulo em qualquer Sesc para assistir este espetáculo. Um monte de cultura que nasceu espontaneamente em algum lugar com o propósito de questionar e/ou combater o capitalismo ou alguma parte de sua estrutura lá estará amaciada, acalmada, funcionando dentro de prazos, propostas, oficinas… Assunto complicado, para depois…

E a ecologia ou, digamos, a sustentabilidade corporativa ela está aí para quê? Aquela história de selo “ecológico” foi retrabalhada, além desse selo agregador de valor à marca da empresa, parece que um dos apelos que cola no consumidor é justamente a possibilidade de delegar à empresa parte do seu, digamos, “trabalho limpo”. As campanhas do tipo “deixe seu dinheiro com a gente” (Itaú), “compre os nossos produtos” (Ypê) que investiremos uma parte do lucro em ecologia seguem esta linha.

Saem de cena os brinquedinhos para as crianças com câncer, as sopas para os moradores de rua ou outras contribuições sociais que já foram moda e entra o papel reciclado, a coleta seletiva, o comércio de créditos de carbono. Numa mesa de bar, quando o onipresente assunto do aquecimento global surgir, lá estará seu argumento pronto para ser usado: eu sou cliente de tal banco que só usa papel reciclado, meu cartão de visita é ecológico… Pronto, você está limpo, nenhum universitário ou amigo mais “antenado” vai te encher a paciência.

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Hoje, como que oficializando o novo apelo, o levantamento anual do Datafolha sobre as marcas mais lembradas do Brasil traz a categoria “marcas mais associadas ao verde”.

Movimentos e grupos autônomos e espontâneos sempre estão na mira das corporações, sejam escolas para crianças carentes, grafiteiros, ongs que “têm um trabalho social” ou grupos pró-ecologia. Cada tempo com suas idéias. Eles têm dinheiro para comprar aquelas que lhe favoreçam. A tática das corporações é persuadir individualmente (grupo a grupo, artista a artista). A avaliação e decisão de utilizar os recursos destas empresas, claro, é com cada um dos grupos e indivíduos, o risco, porém, é de desmembramento das redes invisíveis.

Written by panopticosp

outubro 31, 2007 às 20:52

Publicado em publicidade

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2 Respostas

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  1. Pois é meu fi, pobreza de ispirito desse povo… “Quem se mistura com os porco, come farelo”… E óia só pra mim, moradora de rua, não tenho nem opção de polui ô não, cato lixo pra minha sobrevivência e ganho uma miséria, vendo esse lixo pra uma milionária empresa de reciclagem…

    Analfabeta Banguela

    novembro 1, 2007 at 8:35

  2. […] Por que não? Ecomarca Volkswagen joins Holocaust fund, artigo, BBC (via […]


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