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Estadão e blogs: Grande mídia e liberdade de comunicação

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Parece brincadeira, mas não é. Após colocar um macaco para representar um blogueiro numa campanha publicitária desenvolvida pela agência Talent (veja vídeo abaixo), o jornal Estadão promove hoje, às 19h, um debate sobre “Responsabilidade e Conteúdo Digital” – transmissão pela net.

Não é brincadeira, é tática pano quente de quem deu tiro no próprio pé, uma vez que, certamente, o debate foi decorrência do barulho que a campanha causou entre blogs brasileiros influentes.

As respostas de João Livia, criador da peça publicitária, aos blogs são no mínimo inconsistentes. Mas de alguém que entende a cidade como dividida em duas: uma escura e outra clara e inteligente, não se espera quase nada. Vale a pena citar este ponto:

“No seminário da Microsoft este ano, em Cannes, os dados apresentados levaram a uma inconteste conclusao – a de que a internet, como as regioes de uma cidade, vai se dividir em duas. Uma útil, crível, inteligente, prestadora de serviço, informativa e confiável. Outra que é como uma rua escura e sem policiamento – vai quem quer, sob seu próprio risco. Vamos sempre promover o estadao.com como parte da primeira metade. Separar o joio do trigo na internet deveria ser do interesse de qualquer cidadao de bem”.

Fonte: Joao Livi defende a campanha da Talent para o Estadao, em Blue Bus

Percebe-se que uma campanha tão inteligente quanto esta “Por onde você anda clicando?” só poderia vir de uma agência com um nível de compreensão da sociedade tão apurado. Uma campanha com incrível percepção do tempo atual, que captou o potencial da internet, que saca tendências, que percebe que a mídia impressa produzida por uma grande empresa é o futuro da comunicação e que o conteúdo gerado por alguns jornalistas iluminados e críticos especializados é a informação fiel e independente que todos queremos. Uma campanha com uma visão estratégica de negócios realmente inteligente que não deixa transparecer em nada o desespero e a impotência de um grande jornal diante de seres de diversas idades, origens e níveis de conhecimento trabalhando num ambiente que possibilita colaboração.

Os artigos sobre a campanha foram desenvolvidos mais intensamente em blogs dedicados à publicidade, negócios e correlatos. Muito já foi dito sobre a campanha e os artigos basearam-se, principalmente, nos argumentos de que o Estadão ainda considera blogs como diários bobos, cheios de posts copiados de veículos “inteligentes” e que jogou os blogs bobos, irresponsáveis, mentirosos e cia no mesmo saco dos blogs originais, responsáveis e inteligentes, utilizando uma generalização rala e estereopitada para descredenciar a blogosfera.

A internet é antes de tudo o lugar onde novas concepções de produção correram à todo vapor. Apesar destes ideais já existirem há tempos, vimos o código aberto, o copy left (ou anti-copyright), a desobediência civil, a troca de conhecimentos e a mídia independente frutificarem rapidamente e se espalharem como os mais otimistas esperavam.

Não deixa de ser muito curioso que na mesma semana que os comentários ganharam volume uma pequenina agência de notícias cheia de jornalistas qualificados chamada Reuters publicou imagens de submarinos russos no fundo do mar. Nesta agência, claro, não existem macacos que “copiam e colam”. O problema foi que um finlandês de 13 anos de idade percebeu que as imagens do submarino eram do filme “Titanic”. A grande impressa e muito sofistica, não?

Por aqui, uns dois meses antes, a Folha de S. Paulo montou uma foto num restaurante para fazer ele parecer mais cheio. O problema neste caso foi que uma leitora percebeu a farsa, observando que, por exemplo, um cliente que ainda lia o cardápio recebia do garçom o cafezinho final.

Lembra aquela TV australiana ABC que pediu que algumas criancinhas brincassem junto a um míssil no Iraque para dar uma cena legal? Coisa boba, sem risco.

A grande imprensa é mentirosa e por natureza viciada. Sua sobrivência depende de negócios lucrativos, por isso busca notícias, cenas, imagens e falas que joguem o mercado a seu favor. Este fato simplesmente impossibilita a tal neutralidade que dizem buscar e já descredencia todos os outros argumentos sobre credibilidade que poderiam ser discutidos. A história da maior rede de TV brasileira, que produz o telejornal mais assistido do país, não é nada bonita. É um apêlo primário a do “criativo” da Talent dizer que “separar o joio do trigo na internet deveria ser do interesse de qualquer cidadao de bem”, pois quem controla e toca os grandes veículos de comunicação não são cidadãos de bem.

A internet é o ambiente de comunicação mais livre que conhecemos hoje, por isso mesmo vem sofrendo fortes ataques e pesadas restrições de grandes corporações e governos. É um ambiente que ainda atinge poucas pessoas, mas que (se mantidos os níveis de liberdade) pode mudar a forma como a informação circula e é produzida hoje. Jornais se debatendo sem ar é uma imagem que já estamos nos acostumando a assistir. Sinal que enquanto eles estão vendendo, nós estamos produzindo. Estamos vencendo.

Technorati tags: estadao, blogosfera.

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Written by panopticosp

agosto 29, 2007 às 20:54

Publicado em mídia, publicidade

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  1. […] para finalizar, e economizar redundância aqui, leiam o post Estadão e blogs: Grande mídia e liberdade de comunicação, no Panóptico. Também batendo, e muito bem, nos […]

  2. […] Setembro 4, 2007 O Estadão chama os blogueiros de macacos copiadores de textos. […]

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  4. […] O ataque do Estadão aos blogs, ao mesmo tempo que revelou seu desespero infantil, revelou que as armas do desrespeito, da mentira e do cinismo continuam sendo empunhadas sempre que a ordem das coisas é chaqualhada. Atualmente, também assistimos o desespero risível da mídia em busca de idéias 2.0. […]

  5. […] Jornal chama blogueiro de macaco e tudo bem porque a associação de jornais zela pela democracia; presidente da OAB de São Paulo advoga por Paulo Maluf e tudo bem porque eles são uma Ordem historicamente comprometida com a democracia; juiz exigir ser chamado pelo porteiro de doutor tudo bem, controle externo sobre as atividades do judiciário é atentado contra a autonomia. […]


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