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Centro Vivo

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foto Tim7423 em Flickr. Alguns direitos reservados

Domingo é dia de descanso. Também é dia do “jornal de domingo”, um jornal que não traz notícias, traz propagandas, fofocas, colunas e, especialmente, “dicas” dirigidas à classe média paulistana, ou seja, inutilidades domésticas, carros, vinhos e qualquer coisa que possa servir de diferencial para esse Ser médio que não se mistura com os de baixo e almeja freqüentar as salas dos de cima.

O jornal de domingo é um retrato da, digamos, média da classe média de São Paulo. Domingo passado a Folha de S. Paulo publicou a reportagem “Cafés e bares dão novo ânimo ao centro paulistano” (link p/ assinantes). O gancho era a inauguração do Café do Centro Cultural Banco do Brasil, do bar Salve Jorge e do Fazenda Café.

São bares que imitam botecos cariocas, vendem cerveja por R$5 e não servem pinga 51; os tais Cafés não servem café de coador. Estes lugares não são bares como conhecíamos ou como nossos pais conheceram, neles não é possível encontrar taxistas, universitários, office-boys, aposentadas, auxiliares e empresários no balcão; são locais uniformes, são “bem freqüentados”, ou seja, tem gente bonita (gente branca), estudada e com alguma disposição de gastar dinheiro.

Este tipo de bar está a pleno vapor em São Paulo, a Vila Madalena, por exemplo, antigo bairro boêmio e hippie, se tornou um antro de carros, “vallets” e “barzinhos” gigantes. Estes “barzinhos” são empreendimentos arquitetados por redes de empresários experientes que têm grama para tal. O paulistano da Folha de S. Paulo não quer tomar uma na esquina, quer glamour com ar de botequim.

Não há espaço para o bar da esquina, para o “bar do Manoel”, as trocas e embates ricos e despretenciosos que ocorrem nestes espaços privados – que prestam serviço ao debate público e plural – anda raro. Globalizaram, gentrificaram, privatizaram, mcdonatizaram, higienizaram a conversa de bar.

Bom, voltemos ao retrato de parte da sociedade paulistana que é a Folha de S. Paulo.


A iniciativa tem sido bem recebida. ‘É muito legal, vai lembrar o estilo parisiense’, diz a analista econômica

Quando viemos para cá, todo mundo estava com medo. Mas depois acabei trazendo minha filha para conhecer o Pátio do Colégio, o Girondino, diz a socióloga.

Não adianta ter um produto bárbaro num lugar horroroso. O centro agrega muito valor ao nosso produto. É um lugar bonito, com história, arquitetura e contexto, diz a dona da rede Fazenda Café.

Levei dois anos para achar este ponto. Mas, embora exista um projeto de revitalização, você ainda encontra muitos marreteiros na rua, conta Wanderley Romano, 46, sócio do Salve Jorge.

Há pouco o que comentar, fica claro o tom higienista. Ambulantes e moradores de rua têm que sair, agora o centro é lugar para se ganhar dinheiro, esse centro agrega valor ao produto; e pobres não podem ganhar o seu nesse pedaço.

A Folha de S. Paulo e a Veja podem achar que o centro é o Café Girondino, pastel de bacalhau e meia-dúzia de pontos turísticos, mas o povo sabe muito mais, conhece suas lojas, cafés, lanches, sucos, perigos, cervejas em lata, currasquinhos de gato e esquinas. Vive a cidade e vive o centro como um bairro, não como um local para prática de turismo exótico. O centro para a população não é uma foto antiga que ilustra ambientes, é um lugar quente, colorido e atual. Ele continua onde sempre esteve, se a classe média o abandonou, não venham culpar àqueles que mantêm o centro ainda sendo o centro da cidade.

A primeira frase da reportagem resume tudo isso.

“A revitalização de um lugar depende diretamente de sua freqüência pela população.”

Quem anda pelo centro não pode entender a afirmação, o centro é um dos lugares mais freqüentados pela população, diversas estações de metrô, terminais e pontos de ônibus, comércio intenso e muita gente está lá. O tipo de gente que a imprensa não considera população.

Citações: Folha de S. Paulo, 22/04/2007, reportagem Janaina Fidalgo.

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Written by panopticosp

abril 25, 2007 às 18:47

Publicado em política

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5 Respostas

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  1. Foda essa estória de revitalização. Mesmo assim, ainda tenho São Paulo como algo “incurável’ (e entenda isso como um elogio). Desconheço algum outro lugar onde você encontra puteiros a 300 m dos metros quadrados mais caros do continente.

    jr.

    abril 26, 2007 at 3:26

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    novembro 19, 2009 at 12:56


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