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Celular, status

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As mercadorias são desejadas de forma fetichista. Umas são mais apelativas que outras. Pode se imaginar difícil o apelo sobre ventiladores e fácil o sobre cigarros, mas as imagens são criadas e descoladas da “função” da mercadoria, ou seja, um punhado de marqueteiros pode providenciar algum fetiche sobre ventiladores.

Mensagens subliminares diárias, campanhas publicitárias milionárias, reportagens “desinteressadas” da grande mídia, lobby político e lobby cultural (cinema e cia.) fazem parte do grupo de ações que comporá o clima necessário para que uma menina de 12 anos queira ascender um cigarro com um isqueiro zippo e tragá-lo suavemente enquanto cruza sensualmente as pernas.

O carro é um objeto que custa cerca de 85 salários mínimos. O brasileiro, como o resto do mundo, o deseja. Ter um carro pode representar muita coisa, sucesso com as garotas, orgulho para o pai, inveja dos vizinhos, aventura, glamour, requinte, estilo, o que seja, cada modelo tem seu apelo.

O fato é que poucos podem comprar um carro. Mesmo com todo esforço do mundo e muitas dívidas, este objeto está muito longe da realidade da imensa maioria.

O celular é uma mercadoria mais barata, começou com um apelo funcional. A mãe conseguir falar com os filhos, ligar para alguém de qualquer lugar, fazer uma ligação de emergência…

Rapidamente ganhou funções inúteis, marcas, modelos e preços diferentes e, pronto, o negócio estava feito. Um objeto de forte apelo, capaz de diferenciar ricos de pobres, pessoas de “bom gosto” e pessoas fora de moda.

É facilmente constatável. Na porta de uma escola, na entrada de um prédio de atendentes de telemarketing (salário médio R$600), numa reunião de estagiários, em qualquer lugar o desfile de modelos de aparelhos impressiona.

Por que o computador, por exemplo, continua preterido – inclusive na chamada classe C – diante de uma aparelho celular de mesmo preço (digamos R$1000), se o primeiro abre uma série de possibilidades de trabalho, estudo, lazer?

Pode existir uma série de fatores como condições de pagamento, juros, disponibilidade no mercado etc., mas certamente tem muito a ver com status social.

Você não pode sair com seu PC na rua e “o pessoal do escritório” ou “a galera da escola” vê-lo conversando alegremente através do objeto. Digamos que carros e celulares são “dirigíveis” em vias públicas.

Tem uma função muito prática que é mostrar sua “identidade”, algo como “me digas que carro tens que direi quem és”. Um celular pode mostrar aos demais seu “estilo”, “quem você é”, sua “atualidade” com o mundo… Enfim, eleva e delineia seu poder nas relações diárias com outros seres.

Opa, mas claro que você não comprou um celular “para ficar se mostrando”, gastou R$800 num aparelho que trocará por outro mais moderno daqui 8 meses (antes de terminar o pagamento parcelado do atual) por outros motivos que não têm nada a ver com status.

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Written by panopticosp

abril 20, 2007 às 14:05

Publicado em publicidade

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Uma resposta

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  1. […] não ouvem a mesma bandinha da moda [vídeo], não são clientes vips, tampouco têm os mesmos celulares e outros aparelhinhos […]


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