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Salgadinho no ônibus e miojo na janta

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A cidade é aquele lugar cheio de gente, carros e… comida pronta.

Alimentar-se, necessidade de todo ser humano. Nas grandes cidades de hoje as pessoas querem mais, querem “comer alguma coisinha gostosa”. Existem muitas coisinhas para mastigar nas cidades, elas custam muito pouco e são gostosas. São feitas com ingredientes nada saudáveis e são encontradas em qualquer lugar, qualquer lugar mesmo, bancas de jornal, trens, estações de ônibus, camêlos, lojas ou mercados.

A pesquisa de duas doutoras da ESALQ-USP sobre a influência de alguns fatores socioeconômicos e demográficos no padrão de consumo de carnes da população brasileira traz uma tabela interessante, ela mostra o aumento do consumo de alimentos preparados e a redução do consumo de arroz e feijão, dupla antes conhecida como base da alimentação brasileira.

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De 1974 a 2003 houve uma redução de 46% na aquisição domiciliar de arroz e 37% na de feijão. De outro lado, houve um aumento na aquisição de alimentos preparados (216%), refrigerantes (490%) e iogurtes (702%).

“Quanto maior é o grau de escolaridade das mulheres, que é quem geralmente prepara as refeições, menor é o consumo de alimentos que demoram mais tempo para ficar prontos, como arroz, feijão e carnes”, disse Ana Lúcia Kassouf à Agência FAPESP.

Sobre este aumento do consumo de alimentos preparados, porém, parece importante notar que os produtos de uma mesma categoria, consumidos por ricos e pobres, têm qualidade muito diferente. Estes alimentos sofisticados, como iogurtes, antes inacessíveis aos pobres, só o são hoje, pois algumas empresas perceberam a oportunidade de vende-los aos pobres.

Quando você entra em dois ônibus todos os dias às 17:00 e nos dois, quase todos os dias, há uma mãe com uma criança segurando um saco de salgadinho enorme, está claro que os padrões de alimentação mudaram muito.

Se uma bolacha recheada fabricada por uma multinacional custa R$ 2 no supermercado, uma senhora voltando do trabalho pode comprar uma de marca desconhecida por R$ 0,50 no Terminal Santo Amaro e saciar o desejo de seus dois filhos numa sexta-feira.

Estas guloseimas de marcas desconhecidas cumprem duas funções básicas: representa uma espécie de degrau social; e engorda e adoece a população pobre num grau maior do que a população rica.

A primeira diminui a distância entre ricos e pobres: “o filho da patroa come bolacha de chocolate, mas o meu filho também come”. Danoninho e refrigerantes baratos estão disponíveis no final de semana. Com alguma sorte e muita economia, numa data especial a família pode ir até um Habbib’s. “Comer fora” ou se lambuzar com um iogurte era coisa antes impossível para podres.

A segunda aumenta a distância entre ricos e pobres: os salgadinhos fabricados por multinacionais sofrem um controle de higiene e de nutrição capenga, mas o sofrem. Os salgadinhos de pobre são clandestinos, ninguém sabe nada sobre aquela coisinha gostosa. Não há dúvida de que se existe 5% de gordura trans num salgadinho “de marca”, num salgadinho “alternativo” de R$ 0,20 as taxas podem ser ainda maiores. Se as multinacionais maquiam os índices nutritivos de seus produtos, os alternativos simplesmente não os expõem.

O consumo de alimentos industrializados é maior entre pobres.
Pessoas menos cansadas, com mais dinheiro (e para os mais ricos, empregadas) garantem refeições preparadas, saudáveis e variadas: carnes, verduras, legumes, cereais.

Atualização > Hoje, dia 17/03, saiu uma matéria no RETS que fala sobre. Alguns trechos:

“Além da grande oferta de fast-foods, refrigerantes, gorduras e açúcares, cada vez mais as tradicionais brincadeiras infantis de ruas são substituídas pelo computador e pela televisão.”

“‘As crianças desnutridas de hoje são os gordinhos de amanhã, porque acabam desenvolvendo uma pré-disposição para engordar. Além disso, hoje em dia, pessoas mais pobres acabam consumindo mais carboidratos por serem mais baratos e desconhecerem a necessidade de outras fontes de nutrientes'”
Fonte: Crianças na balança

Relacionados:
Menos arroz com feijão, Por Thiago Romero, Agência FAPESP.
Análise da influência de alguns fatores socioeconômicos e demográficos no consumo domiciliar de carnes no Brasil. Madalena Maria Schlindwein; Ana Lúcia Kassouf.
Crianças na balança

Technorati tags: alimentação, obesidade, obesidadeinfantil

Written by panopticosp

março 16, 2007 às 17:58

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