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Para humanizar a cidade

Simples, muito simples.

Sem ONGs, sem especialistas, sem editais, sem licitações.


Intervenção: Bruno Taylor. Todos os direitos reservados (via Wooster Collective)

Um estudo sobre diferentes formas de trazer a brincadeira de volta ao espaço público. Focado em incorporar brincadeiras despretensiosas ao espaço público, não instalando equipamentos em espaços segregados, mas sim usando os elementos arquitetônicos e equipamentos existentes para sugerir um momento de brincadeira para todos (tradução livre nossa). Fonte: Pixelsumo

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7 comments Agosto 18, 2008

Quem precisa de transporte público?

Mecânicos, motoristas de guincho, taxistas, motoristas de ônibus, bilheterios de trem. O que estariam fazendo todos eles num comercial de carro?

Os comerciais de carros não são aqueles filmes em que um carro desliza velozmente por uma estrada cheia de verde, uma praia moderna, uma cidade tranqüila?

Estes cenários são usados para, primeiramente, claro, deslocar o carro do ambiente degradado por ele próprio. Primordialmente, são usados para posicionar o potencial comprador como alguém melhor: mais moderno, mais bonito, mais sensual, sofisticado…

Mecânicos e motoristas não são profissões almejadas. Mais que profissões desvalorizadas pelo mercado, são trabalhos realizados por pessoas descriminadas socialmente. Não são o “tipo de gente” que as mães sonham ter como genro. São pessoas sem valor.

Quando estas pessoas são úteis? Quando “precisamos”, quando não há alternativa. Como a canção em inglês diz: “você precisa de mim”. O carro quebrou, não sabe consertá-lo; não tem jeito, vamos apelar para aqueles seres sujos. O carro está na oficina, a alternativa é o táxi. O carro está na oficina e sem dinheiro, o jeito é tomar um ônibus junto com o “povão”.

Eles também são úteis como selvagens. Em novelas e filmes expressos: o mecânico sensual, o motoristas de guincho primitivo, o taxista terrorista árabe. Mas este é outro capítulo da mesma história. Na propaganda em questão, eles são úteis como para mostrar com destaque como são os perdedores. Para lembrar o público-alvo do comercial quem é o cidadão comum, aqueles que não possuem carros. Relembrar qual a aparência destas pessoas. Homens gordos, com uniformes antigos, roupas fora de moda, que usam bonés e luvas, fazem gestos bobos e têm trabalhos comuns demais.

O detalhe da presença dos bilheteiros de trem e motoristas de ônibus fecha o pacote. Quem são as pessoas que precisam e usam transporte público? Pessoas que o espectador não quer ser, claro.

O garoto que assiste ao intervalo comercial quer se parecer com aquele jovem bonito, descolado e cheio de garotas; o senhor se vê como aquele executivo elegante num carro poderoso, o pai de família sonha com uma viagem familiar por uma estrada tranqüila.

Imagens ideais como estas nos são mostradas todos os dias. Como podemos perceber pelo estado das cidades de todo o mundo, dão certo. Mostrar-nos o que não gostaríamos de ser, lembrar-nos o que sobra depois que são separados quem têm carro de quem não têm. Lembrar-nos quem é o resto, também vende carros.


Add comment Julho 24, 2008

Informação? Só ferindo privacidade

Você deseja saber como chegar a determinado local em São Paulo utilizando transporte público. Liga 156. No atendimento automático, disca dois dígitos e a atendente pede seu nome completo e telefone.

- Para quê?
- Para acessar o sistema.
- Eu gostaria de obter uma informação de transporte e não de dar uma sobre mim.
- É para cadastro.
- É obrigatório?
- Não, mas sem o cadastro não posso acessar o sistema.
- Para saber que ônibus pegar preciso dar meu telefone e nome completo?
- É, só assim posso acessar o sistema.
- E se eu não tiver telefone? Não morar em São Paulo?
- É apenas para cadastro.

Com pressa, invento um nome e telefone e consigo a informação. Após o atendimento, sou encaminhado para uma pesquisa: Disque 1, se está satisfeito com o atendimento ou 2, se está insatisfeito.

O acesso a informações públicas é um direito. Exigir documentos, encarecer o processo, utilizar linguagem hermética, enfim, construir impedimentos, é parte da ideologia da sociedade burocratizada para restringir o acesso a direitos.

Exigir dados, cadastrar, estocar imagens, informatizar as atividades do dia-a-dia, acumular sempre mais informações, unificar bancos de dados, construir perfis e analisar comportamentos são as ameaças mais silenciosas da sociedade atual, uma vez que são transvertidas de eficiência administrativa e do curso natural da tecnologia.

Burocratizar e monitorar atividades e, então, punir os indesejados não é mais suficiente. Escanear todos homens e mulheres, organizar toda a informação e conhecer os padrões de comportamento. Analisar as ameaças. Oprimir a ação de atividades que ainda não se realizaram é o ideal de um regime de controle total.

Para chegar num local costumávamos pular num bonde, pagar e descer. Era fácil. Alguns se lembram.

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2 comments Junho 16, 2008

Mais uma do Bilhete Único espião


Foto: Rodrigo Rodrigues Melo. Todos os direitos reservados. Reproduzido com autorização do autor.

Em São Paulo, uma das medidas mais legais do Bilhete único especial para idosos (passagem gratuita) foi libertá-los da famosa e segregadora “gaiolinha”. Antes eram obrigados a permanecer na parte da frente do ônibus e descer pela porta dianteira, sem passar pela catraca, apresentando o RG ao motorista. A parte traseira era zona exclusiva dos demais.

Hoje, podem sentar-se onde quiserem, inclusive juntamente com os seres que ainda não chegaram a sua idade. Infelizmente, a maioria dos idosos desce pela frente mesmo. Natural, já que os solavancos e a lotação dos ônibus não estimulam a passagem pela catraca.

Mas temos mais um passo atrás na tentativa de libertar as pessoas da vigilância e da segregação. Justificando medidas anti-fraude, a SPtrans exige mais um cadastramento. Os idosos devem ir até um dos locais autorizados, apresentarem RG, comprovante de endereço recente e tirarem uma foto no local.

O idoso receberá o novo Bilhete via correio junto com “todas as informações para o uso correto”. Cartazes em ônibus e terminais lembram os portadores de Bilhetes especiais do uso correto e informam que milhares de pessoas já foram punidas e desligadas do sistema.

Já é difícil entender a sociedade atual através das tradicionais teorias de vigilância e punição. Quando um grupo gigantesco e historicamente considerado não-perigoso como o dos idosos passa a ser registrado, monitorado e, claro, punido em massa, nos damos conta do estágio de controle social que atingimos.

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7 comments Junho 5, 2008

Para deixar bem claro

O governo federal já deu um jeito de poupar os motoristas de automóveis ao repassar a conta do petróleo para o pessoal que se desloca de ônibus.

Após a explosão de notícias sobre o trânsito de São Paulo, de dezenas de especialistas se pronunciarem, de secretários e prefeito inventarem factóides, enfim, do governo municipal declarar a cada semana suas prioridades, a realidade se apresenta. Como farsa e como tragédia.

Primeiro, uma ponte consegue reunir num só lugar o resumo das administrações públicas da cidade: política de expulsão de famílias pobres em nome da especulação imobiliária, conluio com grupos midiáticos, ligação estreita entre poder político e empreiteiras.

Agora, depois de perseguir carroceiros, de brincar com a rotina dos motoboys, de exigir que os usuários de transporte público paguem adiantado pelo serviço, de ignorar sistematicamente o caos nos corredores de ônibus da periferia e de considerar os caminhões a causa principal do trânsito da cidade, o atual prefeito nos dá mais um exemplo de suas prioridades:

O prefeito Gilberto Kassab (DEM-SP) liberou na sexta R$ 20,1 milhões para a reforma do Autódromo de Interlagos para o GP do Brasil de F-1. O dinheiro será remanejado das verbas inicialmente previstas para obras como implantação de corredores e terminais de ônibus (R$ 2,4 mi) e o Expresso Tiradentes (R$ 3,3 mi). A administração diz que os valores serão compensados com verbas do Estado e da União. ( Fonte: Folha de S. Paulo, 03/06/2008 )

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Add comment Junho 3, 2008

Isso que é incentivo ao uso do transporte público

Sim, o resto é bobagem. Enquanto o prefeito de São Paulo muda umas dez paradas de ônibus de lugar e acha que isso é incentivo ao uso do transporte público.

Menos um carro, um dos blogs mais profícuos sobre mobilidade em língua portuguesa, traz a notícia de uma campanha belga que deixa qualquer cidadão de cidades desenvolvidas como as nossas Lisboa e São Paulo com vergonha da própria ignorância coletiva.

O blog resume:

Basicamente o que está em causa é a oferta de um passe anual para os transportes públicos e uma bicicleta para quem renunciar ao registo do automóvel durante um ano, oferta esta duplicada para quem abater o automóvel!

via Recicle a sua matrícula, Menos um carro

Programa Prime Bruxell’Air

… Claro, quem puder traduzir os detalhes, seria ótimo…

:: ATUALIZAÇÃO ::
Após uma leitura mais completa sobre o programa, o Menos um Carro, nos trás uma segunda opinião em Car-sharing - segunda opinião


4 comments Abril 29, 2008

A pergunta que não foi feita

Em São Paulo, as empresas de ônibus têm uma tabela de horários de saídas das linhas. Para que ela serve os usuários não sabem, já que é absolutamente comum que, esperando no ponto, você veja três ônibus da mesma linha passarem num intervalo de cinco minutos e só tornar a ver outro dali 40 minutos.

Quem anda de ônibus diariamente começa a entender a lógica. Os horários da linha são ajustados à escala dos motoristas e cobradores. Os motoristas dirigem em marcha lenta quando querem se atrasar o suficiente para não terem que realizar mais uma viagem completa e aceleram quando querem, por exemplo, chegar antes de um outro companheiro da mesma linha. A pressa e o desrespeito aos passageiros, muitas vezes, acaba numa batida.

Hoje de manhã um ônibus bateu na traseira do ônibus em que eu estava. Após o barulho, demorei alguns segundos para entender o que estava acontecendo, só entendi quando vi os cacos do vidro traveseiro voando até a catraca. Retirei os cacos do meu colo e vi uma mulher sangrando, machucou o cotovelo e, como estava de sandália, cortou o pé

Todos os passageiros desceram, o motorista do ônibus entregou com raiva um papel para o cobrador e também desceram. Não perguntaram se alguém havia se machucado, nada. Ficamos dentro do ônibus só nós que estávamos nos bancos do fundo. Estávamos bem perto do Hospital das Clínicas, mas a moça não conseguia andar, chamei a ambulância e esperamos.

Os funcionários da viação Via Sul entraram discutindo com os da viação Samambaia sobre a culpa de um e de outro na batida. Pedi que saíssem. Se não estavam preocupados com as pessoas que levavam mas apenas com as possíveis advertências que levariam, que o fizessem do lado de fora.

O resgate chegou, fez o curativo no pé, ela avisou seu chefe e pronto. Os funcionários da viação tinham essa obrigação. Quando alguém está sangrando, chamar socorro, aguardar junto com a pessoa e tentar acalmá-la é simples e não custa nada.

É incrível que para dirigir um ônibus com 80 pessoas você só precise de uma carta de motorista profissional. É revoltante que após o vidro de um ônibus ter estraçalhado em cima dos passageiros, nenhum dos funcionários tenha gritado “Tudo bem aí? Alguém se machucou?”

Na verdade, é incrível que ninguém, nem os passageiros, tenham perguntado. Estavam todos atrasados para o serviço.


1 comment Abril 17, 2008

Cidade limpa e lucrativa

Texto muito relevante de Ethel Leon, que só li hoje via Fórum Centro Vivo.

Trecho:

(…) Em São Paulo, é fundamental que os futuros móveis incorporem serviços importantes, especialmente para a população de pedestres e usuária de transportes públicos. Até hoje, os abrigos de ônibus apresentam (quando apresentam) mapas mal desenhados; e raramente há informações sobre as linhas de ônibus.

Os atuais relógios (que marcam horas e temperatura) são, em realidade, enormes suportes publicitários. A empresa responsável por sua instalação é a Policrono, que teve renovado seu contrato com a Prefeitura até o final de 2008.

Seria desejável que eles fossem repensados. A Prefeitura poderia, por exemplo, exigir que uma percentagem dos relógios fosse destinado à propaganda de atividades culturais dos órgãos municipais e mesmo estaduais. Ou que fossem menores.

A cidade deve ficar “limpa” para tornar-se atrativa aos grandes negócios do mobiliário urbano. Nada impede, no entanto, que os novos móveis ofereçam serviços úteis à grande maioria. Designers, arquitetos urbanistas e população organizada podem, certamente, abrir espaço e contribuir nessas regulamentações.

Por Ethel Leon, em Revista Brasileira de Design


Add comment Abril 7, 2008

Tarifa única de ônibus em SP, só pagando adiantado

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Segunda-feira foi o primeiro dia útil de validade do Bilhete Único quase sem unidade.

Desde sábado para ter direito a entrar em quatro ônibus e pagar uma tarifa única, o paulistano tem que pagar adiantado pelo menos R$9,20 aos cofres públicos e empresas concessionárias.

O Bilhete Único, que dava direito a quatro viagens de ônibus com uma tarifa, foi implantado na gestão de Marta Suplicy e foi o grande apelo de sua campanha eleitoral em 2004. José Serra que disputava com ela o posto de prefeito teve como principal apelo sua passagem pelo ministério da saúde.

Nos poucos debates e nas muitas propagandas eleitorais obrigatórias, a integração dos transportes foi um dos principais temas. Embora ambos os candidatos tenham prometido a integração com o metrô e os ônibus intermunicipais, nunca deixaram claro se isso aconteceria com tarifa única. Em entrevistas os candidatos diziam que iriam fazer e fazer bonito, mas não prometiam com todas as letras.

Enfim, a integração com tarifa única, claro, não aconteceu. E quem deseja tomar um ônibus e um metrô paga mais caro do que quem toma dois ônibus. Os especialistas disseram que não poderiam superlotar o metrô. Essa integração que não é integração serviu para passar um pano e limpar a barra da prefeitura quando alguém lhe acusa de não ter feito o que disse que iria fazer.

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Desde a apuração dos votos de 2004, pouco a pouco, sempre com justificativas com pouco fundamento, o transporte público ficou para depois. Os corredores exclusivos para ônibus foram abertos para os carros em determinados horários e são livres para táxis. Estudantes (meia passagem) e idosos (passagem gratuita) foram submetidos a uma série de novas regras. Outras pequenas medidas difíceis de entender, como limite de tempo para os idosos girarem a catraca, aconteceram.

Mas o principal ataque foi a obrigatoriedade do cadastramento do Bilhete Único para o usuário que quisesse fazer uso do direito de entrar em até quatro conduções num prazo de duas horas, mas não tivesse o bilhete previamente abastecido de reais.

Na brincadeira do cadastramento dos Bilhetes, o “combate às fraudes no sistema” foi a justificativa. Na vida real a brincadeira não teve graça e o cidadão que não tem os dez mangos para pagar adiantado ao sistema e/ou não tem tempo nem paciência para ficar na fila da Casa lotérica para fazer o adiantamento, pagava em dinheiro na catraca e ficava sem integração alguma.

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Mês passado veio o aumento da integração ônibus + metrô ou trem. Custa R$3,65. Passou quase batido pela mídia, afinal o que é menos R$ 0,15 por viagem no bolso da população? Nem deram bola.

Agora mais um duro golpe. Mesmo quem tiver o bilhete cadastrado não vai poder fazer a integração com tarifa única. Só o fará quem tiver o Bilhete carregado. Ou seja, ou o cidadão vai até um posto carregar o seu Bilhete a cada um ou dois dias para não ficar sem nenhum tostão no bolso, ou deixa R$ 23 (ir e voltar do trabalho por cinco dias) adiantado para a prefeitura.

Na verdade existe uma única possibilidade de integração sem estar com o Bilhete carregado: com cargas de pelo menos R$ 9,20 o usuário tem duas chances de validação na catraca. Coisa para complicar mais a vida do usuário de um sistema que deveria facilitá-la. A única possibilidade dada pela prefeitura é difícil de entender e de colocar em prática. Deixar esse brechinha é só para limpar sua barra, mais uma vez.

A medida atinge o peito do transporte público. Revela o desprezo dos governantes às necessidades do trabalhador assalariado, da maioria dos estudantes e de toda a população que anda com dinheiro contado no bolso.

Num mês em que o caos do transporte privado foi destaque na mídia, revela que não existe vontade alguma de incentivar o motorista a deixar o carro em casa, por exemplo, quando precisar ir a um compromisso perto de sua casa. A prefeitura, mais uma vez, retira uma vantagem real (financeira) de quem estava pensando em adotar o transporte público, pois o cidadão precisa cumprir uma série de regras se quiser tomar dois ônibus e pagar uma só tarifa.

Como sabemos, esse tipo de medida, geralmente, vem acompanhada de um docinho. Após uma divulgação ridícula e o silêncio da mídia, as novas regras já estão em vigor. A Sptrans e a prefeitura vêm investindo mais em informar o “Bilhete Amigão”, que permite viagens com tarifa única num período de oito horas (durante a semana são duas horas) aos domingos e feriados.

Relacionados:
Notícias de um trânsito invisível
Notícia da SPTrans no site próprio. Dia 27/03, dois dias antes do início da nova regra.

Imagens: Sptrans


7 comments Abril 2, 2008

TV Out, propagandas em ônibus avançam

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Foto: Yuri Alexandre. Todos os direitos reservados. Reprodução autorizada pelo autor.

A lei Cidade Limpa, deixou a cidade livre de publicidade, com algumas exceções, claro.

Quem detém os espaços onde é possível fazer propaganda dentro da lei em São Paulo? Na prática, prefeitura, governo estadual e empresas por estes controladas. Com a lei Cidade Limpa a exclusividade dos espaços publicitários está, basicamente, nas mãos do proponente da lei.

Quem pretende pegar um trem de metrô, logo perceberá que nos túneis subterrâneos a lei da Cidade Publicitária é a única vigente. Bilhetes, catracas, colunas de concreto, escadas rolantes, laterais dos vagões, televisores dentro dos trens estão tomados de imagens de cremes, chocolates, universidades mercenárias e financiamento de motocicletas.

Quem utiliza um metrô e um ônibus, além de deixar R$3,60 para o sistema, entende que dentro destes espaços públicos de transporte em massa, o território é outro. Eles não pertencem a São Paulo. Nestes territórios a publicidade feroz é permitida.

Nos ônibus, os televisores têm sido a alternativa mais usada para encher a paciência visual dos usuários. A empresa Tv Out se soma a outras, como BusTv e TVO, e tem permissão para entreter os usuários com piadas, previsões do horóscopo e notícias enquanto tenta vender Mclanches, motos e fogões. A empresa espera instalar seus televisores em 1.500 ônibus até o final de 2008.

Poderíamos pensar “foi uma boa deter a exclusividade da publicidade de rua da cidade; afinal, é grana entrando que será investida em melhorias do transporte público”. Não, não existe um único usuário diário do sistema de transporte de São Paulo que possa dizer que algo melhorou no metrô ou nos ônibus publicitários.

Na teoria do livre mercado, o governo concede a algumas empresas privadas o direito de explorar os lucros de serviços básicos. As empresas lucrariam algum, o governo fiscalizaria o trabalho e receberia o troco, que seria reinvestido no sistema.

Na prática do livre mercado, a escolha das empresas que terão permissão para lucrar nas ruas é viciada. O governo é parceiro de uma máfia. Fica com o prejuízo, tampa o buraco financeiro das empresas com o dinheiro público, deixa que a eficiência do lucro tome conta e larga o usuário, mesmo pagando tarifas caras, na mão. O governo, que achava que era parceiro, logo percebe-se refém e que, mesmo que quisesse, precisaria de uma operação policial para se livrar da máfia. Para manter o esquema, as relações obscuras entre público e privado vão se fortalecendo. Sempre em prejuízo do público.


Add comment Março 20, 2008

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