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O glamour dos valets e a “revitalização” do centro
Sempre teremos “problemas” a resolver em São Paulo quando o assunto é estacionamento. Isso porque a relação entre o espaço que carros parados ocupam e o espaço que seus donos ocupam é totalmente desequilibrada. Uma reunião com 20 pessoas marcada numa sala de 20 m² pode atrair 20 carros, causando um belo transtorno em frente ao local.
Como os paulistanos não sabem ir a lugar nenhum sem levar consigo um motor quente, nem aos finais de semana, o problema é permanente.
Cineminha na sala Unibanco Augusta no domingo? Trânsito a um quarteirão do metrô. Anúncio antes do filme começar, indicando os estacionamentos ao redor? Sim, no Cine Belas Artes, que fica em frente a um corredor de ônibus e a dois quarteirões do metrô.
Sobre a reabertura de uma magnífica sala de cinema no centro de São Paulo, a matéria “Repaginado, Cine Marabá reabre e resgata o glamour”, do Estadão, diz:
O problema da falta de vagas de estacionamento (e da falta de garagens subterrâneas, projeto da Prefeitura que está há seis anos no papel) será resolvido com um valet na porta.
A “solução” não soluciona e não revitaliza área nenhuma.
Os valets, mesmo que não sejam, representam a exclusividade, uma desigualdade de tratamento nociva. Numa frase, valets são pedantes. E não é isso que ajudará a revitalizar o centro de São Paulo.
Não importa quantos “Centros culturais” inventarem, partes do bairro continuarão esvaziadas à noite se as pessoas saírem de seus carros feito bolas de sinuca e caírem dentro da caçapa do cinema.
No tempo do tal proclamado glamour, o centro era o principal bairro da cidade e, apesar dos carros já causarem enormes problemas e embates, as pessoas utilizavam as pernas que possuíam. Não por acaso, boa parte das salas de 2.000 lugares que se dedicavam a exibição de filmes, hoje guarda carros.
Os problemas de segurança existem e podem ser solucionados de verdade.
A reabertura de um cinema histórico seria uma bela oportunidade para que gente de classes privilegiadas conheçesse e experimentesse o centro à noite e no final de semana. Ao esperar o ônibus, aguardar a próxima sessão no bar ao lado, ao caminhar até o metrô o local poderia voltar a ser mais agradável para todos.
Esse seria um pequeno passo em direção à solução. Já um valet não estimula ninguém a nada positivo, só trará uma vida artificial restrita aos 50 metros em volta do cinema.
A mesma tática fora adotada pelo turístico Bar Brahma, ao lado do Marabá. Para garantir que as pessoas desçam dos carros e entrem direito no local, manobristas velozes e furiosos correm de um lado para o outro nos horários de pico. O Centro Cultural Banco do Brasil, que fica num calçadão, foi mais longe e ofereceu por anos um serviço de van que levava os clientes até um estacionamento conveniado.
Obviamente, esta “solução” do cinema com valet não está apenas relacionada à falta de vagas, uma vez que existem opções próximas. Está relacionada à segurança. Por isso, a probabilidade de se instaurar a segurança privada disfarçada na calçada em frente para garantir a tranquilidade dos frequentadores é grande.
Torcemos para que o empreendimento dê certo, mesmo com os tais valets. Mas um alerta é válido: moradores de rua, camelôs, sem-teto, ciganos, africanos, trombadinhas, todos os feios, sujos e malvados do envolto do cinema, preparem-se, a cultura vem aí.
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Para Andrea Matarazzo catadores são problema, artigo, panóptico
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Por vir:
Momento Monumento, site, mais um centro cultural no centro de São Paulo
Sesc 24 de maio, site, centro cultural que já transformou um calçadão em rua para carros.
Antiga rodoviária de SP vai virar teatro e escola de dança, notícia, Folha de S. Paulo
1 comment Março 27, 2009
Os Valets glamourosos
No mês passado, a revista Veja São Paulo publicou mais uma matéria defendendo que os interesses particulares devem se sobrepor aos coletivos, na cidade de São Paulo.
Não se tratava, porém, da defesa de especuladores em detrimento de movimentos sociais, de desejos patronais sobre direitos trabalhistas. A defesa desta lógica se revela também em temas menores e apareceu na Veja no principal tema cotidiano da cidade, o trânsito.
Os carros de luxo que circulam pelos 180 metros do trecho entre as avenidas Faria Lima e Nove de Julho da Rua Amauri, famosa pela alta concentração de restaurantes badalados, no Itaim Bibi, podem se livrar do fardo de dividir espaço com os ônibus
O texto “Ônibus da discórdia” adota o conhecido estilo “absurdo pré-fabricado” e mentiroso para “formar opinião” a favor da parte mais forte e, consequentemente, sensibilizar os administradores públicos para uma solução rápida.
“Aí, os motoristas dos ônibus metem a mão na buzina e irritam quem quer comer com tranquilidade”, afirma Giliard dos Santos, funcionário da empresa de valet Golf Park.
É o avesso do avesso, o direito de carros coletivos passarem por ruas públicas vira “discórdia” em revista.
Antes de receber um glorioso “não’ da SPTrans, a rua Amauri recebeu centenas de ciclistas atentos aos ataques da mídia e dispostos a questionar a privatização da rua.
Por alguns minutos a rua também contou com um serviço vip de estacionamento de bicicletas.
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“Donos da rua” acham que ônibus atrapalham o Valet, artigo, Vá de bike!
Os caras-de-pau e Kafka sobre quatro rodas, artigo, Apocalipse motorizado
3 comments Março 27, 2009
Bicicletada São Paulo – Fevereiro 2009
Na bicicletada da última sexta-feira não dava para saber muito bem quantas pessoas pedalaram até a Praça do Ciclista para se encontrar com outras e protestar pelo direito de circular de bicicleta em segurança. A vista não alcançava.
Ciclistas tranquilos mais uma vez se depararam com motoristas irritados; motoristas cansados mais uma vez se depararam com ciclistas mal-educados; motoristas assassinos em potencial mais uma vez deram de cara com ciclistas dispostos ao enfrentamento.
A cada bloqueio de rua, a cada sirene sem propósito, a cada buzinada impaciente, a cada saudação dos que passavam, a bicicletada colocava seres em contato, ativava neurônios, despertava sentimentos variados.
O resultado das ações do grupo nunca é previsível. A massa desorganiza, confunde, desobedece e acaba por deixar frente a frente pessoas que não se encontrariam no cotidiano paulistano. O trânsito despersonalizado ganha rosto.
A falta de educação, de bom senso e a ignorância de uma sociedade desinformada, entretida com celebridades e publicidades variadas estão lá expostas, numa só noite.
É por isso que a bicicletada é sempre uma noite de riqueza espetacular (mesmo para aqueles que discordam de seus métodos, organização ou propósitos). É um evento que evidencia o estado de pobreza cultural e putrefação social em que vivemos.
Uma vez ao mês, numa noite de sexta que seria apenas mais uma sexta da “balada”, cheia de abusos e mortes no trânsito, a massa de ciclistas coloca em cheque não apenas a cultura do automóvel mas o comportamento repelente paulistano.
Numa sociedade cada vez mais despolitizada, a bicicletada é hoje um dos poucos atos políticos sinceros em curso firme na cidade. É um evento de realização política, uma ação de pessoas que decidiram enfrentar a ordem imposta e retomar o curso de suas vidas. É uma noite pelo direito à reflexão, pela valorização do coletivo, pelo compartilhamento justo do espaço urbano e dos recursos.
Ao se tornar um movimento auto-organizado amplo, a bicicletada parece ter grandes desafios pela frente.
Sabendo que àqueles que, consciente ou inconscientemente, decidem que a pressa vale mais que a vida continuam nas ruas, o levante contra o Estado omisso às milhares de mortes no trânsito será sempre fator de união dos inconformados e facilitador do avanço da resistência.
Relacionados:
Caminhos da Massa Crítica, artigo, blog Transporte Ativo
Bicicletada São Paulo – Fevereiro 2009, galeria de fotos, panóptico
Mais relatos, fotos e cia, bicicletada.org
3 comments Março 2, 2009
Atenção! Auto-homens ignorando

“Um cidadão em perigo! Geladeiron, transformar!” (ou algo assim)
The Perry Bible Fellowship. Todos os direitos reservados. Nicholas Gurewitch.
A tira sátira com os “transformers” (se você está perto dos 30 anos de idade, lembra-se bem deles; se está perto dos sete, conversaremos no próximo revival) resume o sentimento de muitos durante a última semana.
Imagino que todas as que não conheciam a ciclista Márcia (como eu) se sensibilizaram não apenas com as circunstâncias de sua morte, com o medo de ser a próxima ou com a revolta e a perda de mais uma pessoa que lutava por uma sociedade mais justa.
O comprometimento da grande mídia com os poderes financeiros e políticos, e a opinião ignorante, robotizada e fria das pessoas que estão ao nosso redor nas filas de banco, escritórios, bares e comentários de blogs veio esfregou a realidade, de uma só vez, no rosto de todos nós.
Mario Amaya bem destacou, a morte de Márcia não foi apenas uma morte estúpida, foi o resumo do “estado moral da sociedade motorizada”.
Qualquer oportunidade precisa ser aproveitada para promover a paz no trânsito. Que seja necessária uma morte de um ser humano, e tendo de concentrar tantas circunstâncias extraordinárias para chamar a atenção – mulher, cicloativista, no meio da avenida mais importante da cidade, num tipo de ocorrência considerado banal, causada por um motorista profissional, motorista esse que não assume a responsabilidade, e com a mídia dando mais relevância ao congestionamento do que ao acidente – tudo isso diz muito mais sobre o estado moral da sociedade motorizada do que sobre as pessoas que se levantaram contra esse estado moral. Fonte: Sexta-feira de bike na Paulista
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Se ele der 20 cm, eu já fico feliz
Add comment Janeiro 20, 2009
“Se ele der 20 cm, eu já fico feliz!”
“Se ele der 20 cm eu já fico feliz!”
São palavras da ciclista Márcia, morta ontem na av. paulista, referindo-se a distância que os motoristas poderiam – ao menos – tomar o cuidado de manter dos ciclistas.
Um motorista não dispensou os 20 cm que Márcia precisava para se equilibrar em movimento e ela não voltou para a casa.
Márcia era uma ativista pelo direito de pedalar em seguranças pelas ruas. Sua morte foi conhecida pelos blogs e sites companheiros. Causou revolta e tristeza e não passou em branco – os protestos estão em curso.
Já nos jornais e sites corporativos sua morte virou notícia porque o “acidente” aconteceu na avenida mais conhecida do país e atrapalhou o trânsito.
Todos os dias pedestres, ciclistas e outros cidadãos que se deslocam em paz são mortos. São anônimos. Nós não tomamos conhecimento e a grande mídia só noticia estas mortes quando interessa – em geral, quando o trânsito é interrompido e “causa transtornos”.
Esta morte não passará em branco.
Márcia resistia, cada vez que montava numa bicicleta.
Cada homem e mulher que vai ao trabalho de bicicleta e arrisca sua vida, resiste.
Cada criança que joga bola no canto da calçada, resiste.
Cada deficiente visual que vai a padaria caminhando, resiste.
Cada cadeirante que se desloca até o bar, resiste.
Cada idoso que exige que os carros parem para que ele atravesse, resiste.
Cada cidadão que se indignou com mais esta morte estúpida, resiste.
Eles são milhares e não desistem.
A cada companheira que cai, centenas se levantam.
A cada assassinato, milhares de corações se incendeiam e braços agem.
Hoje, quinta-feira, 15, a partir das 18h, acontecerá uma homenagem à Márcia na Praça do Ciclista (Avenida Paulista com a Rua da Consolação).
Sexta-feira, 16, os/as ciclistas partirão da mesma Praça do Ciclista, com concentração às 18h e saída às 20h.
Coletânea de artigos e fotos em:
Ciclista morre atropelada na Av. Paulista, editorial, CMI
Márcia Regina Prado, Bicicletada
8 comments Janeiro 15, 2009
Rotas de ônibus em mapas on line começam a funcionar em SP e BH
A vida de quem se desloca de forma racional ficou mais fácil.
Os interesses comerciais do Google levaram a empresa a desenvolver uma funcionalidade no Google Maps que permite encontrar rotas utilizando transportes públicos em São Paulo e Belo Horizonte.
Até hoje, o cidadão que não quer ou não pode usar um carro em São Paulo tinha duas opções: ligar para 156, requisitar o ônibus para determinado destino e deixar seu nome e telefone registrado num banco de dados misterioso e inútil; ou entrar no site da SPTrans e pesquisar a sua rota, neste caso sem o burocrático desestímulo do cadastro e da cansativa espera telefônica.
Facilitar a vida dos motoristas de automóveis é um negócio rentável. Os serviços para eles pipocam na internet, lojas de aparelhos eletrônicos, emissoras de rádio e TV. As melhores rotas estão em tempo real dentro e fora dos carros (justamente os carros causadores do caos que tornam estes serviços necessários).
Um Estado atento e uma administração pública eficiente seriam os primeiros a pensar e prestar informações sobre transporte público à população.
Infelizmente, não é assim.
Vídeo explicativo e notícia no Google
Relacionados:
Bicicletários e Paraciclos em São Paulo, mapas, Google
Olho vivo. E o pulso ainda pulsa, artigo, Urbanistas SP
2 comments Dezembro 12, 2008
Para humanizar a cidade
Simples, muito simples.
Sem ONGs, sem especialistas, sem editais, sem licitações.

Intervenção: Bruno Taylor. Todos os direitos reservados (via Wooster Collective)
Um estudo sobre diferentes formas de trazer a brincadeira de volta ao espaço público. Focado em incorporar brincadeiras despretensiosas ao espaço público, não instalando equipamentos em espaços segregados, mas sim usando os elementos arquitetônicos e equipamentos existentes para sugerir um momento de brincadeira para todos (tradução livre nossa). Fonte: Pixelsumo
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8 comments Agosto 18, 2008
Informação? Só ferindo privacidade
Você deseja saber como chegar a determinado local em São Paulo utilizando transporte público. Liga 156. No atendimento automático, disca dois dígitos e a atendente pede seu nome completo e telefone.
- Para quê?
- Para acessar o sistema.
- Eu gostaria de obter uma informação de transporte e não de dar uma sobre mim.
- É para cadastro.
- É obrigatório?
- Não, mas sem o cadastro não posso acessar o sistema.
- Para saber que ônibus pegar preciso dar meu telefone e nome completo?
- É, só assim posso acessar o sistema.
- E se eu não tiver telefone? Não morar em São Paulo?
- É apenas para cadastro.
Com pressa, invento um nome e telefone e consigo a informação. Após o atendimento, sou encaminhado para uma pesquisa: Disque 1, se está satisfeito com o atendimento ou 2, se está insatisfeito.
O acesso a informações públicas é um direito. Exigir documentos, encarecer o processo, utilizar linguagem hermética, enfim, construir impedimentos, é parte da ideologia da sociedade burocratizada para restringir o acesso a direitos.
Exigir dados, cadastrar, estocar imagens, informatizar as atividades do dia-a-dia, acumular sempre mais informações, unificar bancos de dados, construir perfis e analisar comportamentos são as ameaças mais silenciosas da sociedade atual, uma vez que são transvertidas de eficiência administrativa e do curso natural da tecnologia.
Burocratizar e monitorar atividades e, então, punir os indesejados não é mais suficiente. Escanear todos homens e mulheres, organizar toda a informação e conhecer os padrões de comportamento. Analisar as ameaças. Oprimir a ação de atividades que ainda não se realizaram é o ideal de um regime de controle total.
Para chegar num local costumávamos pular num bonde, pagar e descer. Era fácil. Alguns se lembram.
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3 comments Junho 16, 2008
Mais uma do Bilhete Único espião

Foto: Rodrigo Rodrigues Melo. Todos os direitos reservados. Reproduzido com autorização do autor.
Em São Paulo, uma das medidas mais legais do Bilhete único especial para idosos (passagem gratuita) foi libertá-los da famosa e segregadora “gaiolinha”. Antes eram obrigados a permanecer na parte da frente do ônibus e descer pela porta dianteira, sem passar pela catraca, apresentando o RG ao motorista. A parte traseira era zona exclusiva dos demais.
Hoje, podem sentar-se onde quiserem, inclusive juntamente com os seres que ainda não chegaram a sua idade. Infelizmente, a maioria dos idosos desce pela frente mesmo. Natural, já que os solavancos e a lotação dos ônibus não estimulam a passagem pela catraca.
Mas temos mais um passo atrás na tentativa de libertar as pessoas da vigilância e da segregação. Justificando medidas anti-fraude, a SPtrans exige mais um cadastramento. Os idosos devem ir até um dos locais autorizados, apresentarem RG, comprovante de endereço recente e tirarem uma foto no local.
O idoso receberá o novo Bilhete via correio junto com “todas as informações para o uso correto”. Cartazes em ônibus e terminais lembram os portadores de Bilhetes especiais do uso correto e informam que milhares de pessoas já foram punidas e desligadas do sistema.
Já é difícil entender a sociedade atual através das tradicionais teorias de vigilância e punição. Quando um grupo gigantesco e historicamente considerado não-perigoso como o dos idosos passa a ser registrado, monitorado e, claro, punido em massa, nos damos conta do estágio de controle social que atingimos.
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9 comments Junho 5, 2008









