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A missa da toalha úmida continua

Outro dia, o G1 disse “No trânsito, não tem jeito. Se há poluição, é melhor fechar os vidros e ligar o ar-condicionado. A fumaça de carros e caminhões parados no trânsito causa mais irritações nas vias aéreas do que o ar-condicionado”

Hoje a Folha de S. Paulo disse: “No trânsito, se estiver num congestionamento, é melhor fechar os vidros e ligar o ar-condicionado. A fumaça dos veículos parados irrita mais as vias aéreas do que o ar-condicionado”

O G1 escreveu “não tem jeito”; a Folha, “é melhor”. O G1 escreveu “carros e caminhões”; a Folha, “veículos parados”. De resto, os textos são quase iguais.

Repeteco

Não, não estamos preocupados com cópia. São notinhas num quadro. Imaginar que alguém copiou algo assim seria demais. Aí seria melhor fechar a lojinha de papel de uma vez. O que assusta é como a imprensa brasileira reproduz idéias e estilos.

Reproduz a pauta de jornais estrangeiros diariamente. Uma pauta internacional não é relevante até que os grandes jornais do mundo a considerem assim. A América Latina, por exemplo, não merece maior, ou melhor, cobertura no Brasil do que nos Estados Unidos, como seria de se esperar.

As pautas do dia-a-dia são uma série de textos descritivos que obedecem a um padrão antigo e chato. Uma ou outra liberdade, como “não tem jeito”, foi introduzida depois que perceberam que blogs e outros páginas estavam atraindo leitores, mas o texto feito em 5 minutos predomina e fica evidente a quem lê jornais com freqüência.

Nessa hora o leitor fica com a sensação de que alguém está ofendendo sua inteligência. Além de perceber que foi enganado como consumidor (comprou uma notícia enlatada achando que era natural), jogou fora tempo do dia sempre curto.

As fontes que ninguém sabe, ninguém viu

A Associação Nacional de Jornais diz que os jornais são os veículos mais confiáveis. Há fonte, checagem, entrevista, apuração etc.

Seria mais fácil de acreditar na afirmação se o jornal respeita-se um pouco mais os estudantes que estão aprendendo o que é “fonte”. Num dia digo ao meu sobrinho que quando ele cita um trecho interessante de um livro, ele deve colocar o nome do livro e do autor no rodapé para que as pessoas saibam de onde veio a citação e possam consultá-la. No outro, o garoto pega o jornal, assusta-se as informações sobre o clima seco da cidade e vê como fonte da informação “médicos”. Certo dia, decide usar uma citação de Lawrence Lessig e no rodapé escreve “autores”. A professora reclama. Ele explica que no jornalismo é assim que se faz.

Só o privado interessa

Quais são as situações resumidas no quadro da Folha? “Em casa”, “No escritório”, “No trânsito”, “Animais”.

Será que o cidadão que mora em São Paulo sofre de alguma anomalia e “sente” o clima seco apenas dentro de ambientes privados? Não, a anomalia é o viés jornalístico. A imprensa está preocupada com seu “segmento”. A maioria dos leitores de jornais (pelo menos, os que mais intere$$am, como assinantes) são do tipo casa-escritório-trânsito-animal-casa.

Quais são as dicas para os pedestres que andam nas calçadas ao lado dos carros? Quais são as dicas para os usuários de ônibus que estão nas mesmas ruas e avenidas que os carros? Sabemos quais são: “evite atividade física durante o dia”. Então beleza, todo mundo de carro com ar-condicionado para a rua!

Além de falar para o “seu público” (classe média motorizada), este tipo de “dica” é bem conveniente. Consegue falar do tema sem tratar do tema em si. A poluição do ar é um problema público - pelo menos enquanto o ar for público -, mas as reportagens “puxam” o tema para o privado.

No escritório, em casa, no carro até é possível minimizar por alguns momentos os efeitos do clima seco. Mas como seriam as dicas jornalísticas em ambientes públicos? Pendure toalhas molhadas nas árvores que sobraram? Enquanto caminha até a escola feche os vidros? Não seria difícil imaginar o texto, “se tiver que ir até a padaria, vá de carro, é melhor do que respirar nas ruas” e por que não “se tiver que ir até a padaria a pé, não tem jeito, respire o menos possível”

Dica de morte rápida

É interessante que a imprensa recomende que em casa o cara abra as janelas para o ar circular (geralmente, recomendam vaporizadores e toalha úmida mesmo), e que no trânsito feche as janelas.

Um carro a sua frente, outros ao lado, você fecha a janela (por onde entra a maioria do ar) e liga o ar-condicionado. Ele condiciona que ar? A não ser que seu carro crie ar, ele condiona o ar que está poluído. Não existe outro. Você ficará respirando o mesmo ar “parado” e poluído pelo tempo que ficar no carro. Não há como lacrar o carro e purificar o ar interno. (link via Vá de bike)

Claro, quando você liga o ar condicionado, o consumo de combustível aumenta e a emissão de poluentes aumenta, mas isso é problema do carro de trás.

Relacionados:
A missa da toalha úmida, artigo, Panóptico
Creminho antipoluição, artigo, Panóptico
Pedalar no trânsito não faz mal para a saúde, artigo (com diversos outros textos relacionados), Vá de bike


Add comment Agosto 21, 2008

A missa da toalha úmida

Você vai dormir e parece que tem um gato peludo preso na garganta - e pior, querendo sair? Seu filho sofre com mais uma crise respiratória? O seu nariz sangrou esta tarde? Metade do pessoal do escritório não para de coçar os olhos?

É difícil ter a dimensão dos problemas numa cidade gigante e variada. Pois a imprensa está aí para isso, para dimensionar e noticiar em massa o que é de interesse público.

Os hospitais estão lotados de crianças que não conseguem respirar? A imprensa está sempre atenta e, claro, vai investigar, aprofundar, trazer o debate à tona.

É hora de discutir o clima insuportável? Claro. E o que vemos? A santa missa. Antigamente rezada anualmente, atualmente rezada trimestralmente, a pregação é fácil de decorar: “deixe uma bacia de água na sala, uma toalha úmida no quarto”.

É isso em todos, todos os meios de comunicação. Em todos os jornais, no maior do Brasil, no com mais classificados, no “mais antigo da cidade”, no “a serviço do Brasil”. Em todas as redes de televisão, na com maior audiência, na do bispo, na do baú.

Nas redações, o texto da toalha molhada deve ficar num arquivo chamado “modelo clima seco”, mas o G1 foi além e fez um especial, que como vemos acima, é uma jóia do jornalismo de e para a classe média motorizada: “No trânsito, não tem jeito. Se há poluição, é melhor fechar os vidros e ligar o ar-condicionado. A fumaça de carros e caminhões parados no trânsito causa mais irritações nas vias aéreas do que o ar-condicionado”

É o milagre da construção textual que isenta o leitor de culpa. Você está no trânsito poluindo e acabando com sua própria respiração, sente irritação, e qual é a recomendação do portal da Rede Globo: fechar os vidros e ligar o ar-condicionado. O ar público está ruim? Liga o ar-condicionado particular! É a privatização do oxigênio.

A Folha de S. Paulo também subiu um degrau na mesma escada. Dia desses, junto à tradicional reportagem “XY de umidade. Pendure toalha úmida” havia a foto de três surfistas à beira-mar e o texto recomendava a ida ao litoral, onde a umidade é maior. Beleza pura! Todo mundo para Santos (quer dizer, a Folha recomendava Guarujá)!

Será que a umidade depende exclusivamente das chuvas?

Será que foi sempre assim? Quando a cidade tinha ampla cobertura vegetal não chovia 30 dias as pessoas não conseguiam dormir? Quando o transporte motorizado individual não dominava todo o espaço público os narizes das crianças sangravam?

Será que o clima seco tem a ver com a poluição? Será que no interior de São Paulo e Centro-Oeste do país tem a ver com as queimadas das plantações do aclamado combustível “limpo”?

Nada disso é sequer mencionado. Afinal, para que serve um repórter? Para dizer que faz tantos dias que não chove? A cidade há semanas com um clima intolerável e quem trata do assunto na mídia? A garota do tempo!

As pediatrias com filas para inalação e a prefeitura faz o quê? Convoca os secretários para pensar num plano emergencial? Propõe restrições à emissão de poluentes? Não, ou omite-se - o site do Centro de gerenciamento de emergências de São Paulo, por exemplo, apenas informa a previsão do tempo. Ou faz coro com as recomendações médicas: pendurar toalha úmida na porta da sala.

Relacionado:
Todo ano a culpa é do clima, artigo, Vá de bike!


8 comments Julho 22, 2008

Só fachada


Foto: George Steinmetz. Todos os direitos reservados.

Clique na imagem para ampliar e ver outras sensacionais fotos aéreas de Steinmetz.

(Via Neatorama)


1 comment Abril 16, 2008

Continue aprendendo com a natureza

Compre um CD “Sons da natureza”, um CD de uma bandinha de seriado norte-americano e umas dez imagens aéreas de um banco de imagens. Certo, edite e você tem uma propaganda de automóvel. Só falta a frase final, algo sutil, talvez até sem narração.

Tem que ser algo que remeta aos valores vigentes entre seu público-alvo. Ecologia, talvez. Nada muito direto, um certo tom auto-ajuda é conveniente, “viver a vida”, “aprender sempre”, “respeitar a natureza”, essas coisas.

A Volkswagen fez isso e nos traz um filme tranqüilo, tranqüilo. A montadora faz aqui as vezes de observadora de pássaros.

No final solta uma frase para quem quiser acreditar: “Grande distâncias, baixo consumo. Continue aprendendo com a natureza”.


2 comments Abril 11, 2008

Uma pequena estória sobre a cara-de-pau

Publicitários copiam publicitários.

Alguém resolve fazer comerciais com trilhas sonoras pop, sem diálogo ou texto, só o logotipo da marca na tela final e, pronto, esse tipo de filme de filme invadirá os televisores por meses. Alguém começa a privilegiar a cor azul ou verde no ambiente, como nos seriados norte-americanos e lá vem uma enxurrada desse tipo.

A moda agora é o tom bonzinho, um texto meio auto-ajuda acompanhado de uma narração tranqüila e de imagens fofinhas, como animações infantis. Este conceito vem vendendo carros, bancos e poderia vender armas.

O filme acima, segundo o narrador é uma pequena estória sobre “gente que faz”, que faz as coisas funcionarem melhor.

“E se plantássemos árvores ao redor de nossas fábricas e ajudássemos o ar a ficar mais limpo?”, pergunta o narrador.

E se criássemos tintas à base d’água? E se criássemos o carro solar? O carro hídrido? E um carro que emite água?

E se todos nós fôssemos empreendedores e fizéssemos as coisas de um jeito diferente?

Se não dirigíssemos quando não precisamos. Se dirigíssemos mais devagar no trânsito em vez de arrancar e frear? Se mativéssemos os pneus calibrados para economizar combustível? Se reduzíssemos a bagagem desnecessária dos carros?

Estas são as perguntas do estratagema publicitário. A responsabilidade de quem estimula certo comportamento é anulada e transferida com cuidado ao usuário. Vide história da indústria do tabaco.

Responderíamos que se todos fôssemos empreendedores e usássemos um carro, o mundo seria um estacionamento. Bom, na verdade, teríamos que empilhar carros em terra e espalhá-los sobre os oceanos. Poderíamos dizer que carros que soltam água pelo escapamento não são encontrados nas concessionárias Honda. Que é impossível que um mundo melhor esteja baseado no transporte individual motorizado e que, portanto, é inaceitável que um fabricante da impossibilidade e de um mundo pior nos diga quais são as possibilidades de um mundo melhor.

Mas deixemos que uma outra propaganda da Honda, digo, a fabricante do mundo real, a Honda das vendas de fato, responda à Honda boazinha, à Honda dos carros d’água. A Honda da publicidade boazinha que foca no público feminino (segmento de seu carro Honda Fit) quer que os motoristas dirijam devagar para economizar combustível, a Honda cabra macho quer “potência na potência máxima”. Ambos os públicos-alvos das campanhas só acreditam nestas campanhas, pois foram educados pelo consumo para o consumo.

honda.jpg

Outros comerciais recentes para adultos que brincam com carrinhos (vídeos no youtube):
Cadbury Trucks Commercial
Ford Ka - Bebe
Ford Ka - Moustro Fubolero
Ford Ka - Pato Monstruo
Ford Ranger - Torre
Corredor de Fórmula 1 também é boa praça: Renault España - Alonso


2 comments Abril 3, 2008

Ecofinanciamento

ecofinanciamento_r.jpg

O seu carro, moto ou caminhão novo ou usado está ao seu alcance. Com o Leasing ou CDC, você aproveita as melhores taxas e prazos do mercado e ainda contribui para o reflorestamento da Mata Atlântica. A cada Ecofinanciamento realizado, mudas de árvores nativas serão plantadas pelo programa Florestas do Futuro da Fundação Mata Atlântica.

“Mas esse mundo está de ponta cabeça mesmo” é uma daquelas frases que você ouve quando criança, acha que nunca vai dizer mas vira e mexe não encontra jeito mais sucinto de se expressar.

Depois do banco que promove um seguro de automóveis em que a pessoa escolhe um lote de floresta para preservação e associa a área adotada ao seu nome, temos o banco que faz financiamentos ecológicos de carros.

Na propaganda acima, ao redor do carro temos nomes de árvores, Jacarandá, Ipê-roxo… Entendido, ecofinanciamento significa que financiar a comprar de um carro preserva estas espécies.

Em nenhuma época, em nenhum lugar do planeta faria sentido dizer que uma máquina pesada movida à combustão é sinônimo de preservação, numa cidade de 10 milhões de pessoas, com 6 milhões de carros registrados num tempo de grande preocupação com as emissões de gases na atmosfera é, obviamente, incabível, um atestado do predomínio do marketing e do lucro sobre o bem-estar humano.

É impossível aceitarmos que um carro a mais nas ruas, poluindo, fazendo barulho, causando irritação, trazendo risco de mortes e asfaltando todos os espaços disponíveis seja vendido como sinônimo de preservação ambiental.

Na regra do comércio exagera-se com o objetivo de vender mais, o limite porém é simples, mentir não vale. Ou pelo menos era simples. Quando o comerciante vendia gato por lebre voltava-se ao enganador e tentava-se resolver a contenda ou espalhava-se pelo bairro a fama de mau vendedor.

Nos tempos do marketing e dos zelosos conselhos de auto-regulamentação publicitária o vendedor diz que carro preserva o ambiente e que, portanto, quanto mais comprarmos carros mais ele será preservado e fica tudo por isso mesmo?

Em países subdesenvolvidos como a Noruega, o governo não se furta a investigar se seus cidadãos estão sendo enganados por propagandas mentirosas, láassociar carro a ecologia é proibido.


1 comment Fevereiro 27, 2008

Eu destruo o planeta

seguroauto.jpg

Uma das opções rumo à privatização da cidade e à promoção do isolamento de luxo é comprar um apartamento num condomínio hotel-clube e ganhar uma árvore - com direito a estampar o nome da família nela; outra é comprar um apartamento com uma praia artificial embutida. São formas chiques de se auto segregar, de cultivar o medo e de pagar pela ilusão de deixar a da fealdade do mundo do lado de fora.

É possível também fazer uma apólice de seguro “carbono neutro”. Segundo a seguradora é possível:

“escolher um lote de floresta para preservação, que varia conforme o perfil da apólice contratada. O cliente associa a área adotada ao seu nome ou apelido”.

É a lógica da primazia do indivíduo sobre o coletivo, aquilo que a publicidade sabe tão bem explorar. Aqueles que conseguiram escapar da pobreza e têm trabalhos estáveis passam a lutar não apenas pela manutenção do conforto, mas a lutar pela manutenção do status social. Numa cultura onde cada trabalhador é inimigo do trabalhador da mesa ao lado a vida se torna um infernal enfrentamento (para cultura do inimigo vide o retrato e estimulo do programa de TV “O Aprendiz”).

seguroauto_02.jpg

Quando ser ecológico é moda e sinônimo de status nada mais natural do que comprar uma área de preservação e aumentar seu status.

Nada de reduzir a emissão de gás na atmosfera, nada reduzir a produção de lixo, nada de reduzir nada. Afinal, a intenção é aumentar o consumo, a posse de bens, a aparência. Assim, quanto mais se suja mais se limpa. Essa é a lógica da campanha “seguro carbono neutro” e da maioria das ações corporativas ligadas à ecologia.

Trata-se, claramente, de um apelo ligado a posse como podemos ver. No site da campanha é possível encontrar outros usuários que “adotaram” áreas. Como a família que brinca de construir sua própria cidadezinha e tem uma árvore com seu nome, aqui o segurado pode grudar uma etiqueta virtual com seu nome numa floresta.

Claro, quem pode mais, aparece mais, já que a parte que te cabe “varia conforme o perfil da apólice”. Quem consome mais tem direito à uma área maior. Utilizando a calculadora de CO2 a classe média entra na brincadeira da batalha do micro-poder e corre atrás de garantir algo maior do que o do vizinho.

Quatro toneladas de sujeira? Beleza, alto padrão de consumo, tem direito a cheque especial, cartão dourado, caixa exclusivo, desconto nas tarifas e 88 m2 de mata nativa.


2 comments Fevereiro 20, 2008

Lelé da cuca

carrefour.jpg

É engraçado como as grandes empresas foram criando uma nova lingüagem com o propósito de se livrar de responsabilidades; tempos verbais novos e pessoas novas. Falam no gerúndio sobre o futuro e de si próprio sem “eu” ou “nós”, a questão é sempre com os outros.

Você liga para a Telefonica dizendo que sua conexão de internet não está funcionando e eles pedem para você ligar o modem na tomada, transferem a ligação para outros três departamentos “responsáveis” e quando você, quase convencido de que a culpa é sua, resolve questioná-los mais uma vez, a linha é derrubada.

Os grandes varejistas, por exemplo, adoraram ditar regras sobre consumo responsável, regras que não cumprem, claro. Depois dos dez princípios do pacto global, outra rede chega com os 10 mandamentos, que, perceba abaixo, dá a entender que “cada um de nós pode fazer sua parte” e que um gigante multinacional do comércio pode fazer pouco.

1. CONTROLE e economize no orçamento doméstico.
2. COMPARE sempre os preços antes de comprar.
3. CONFIRA a origem e os prazos de validade dos produtos.
4. PROCURE sempre frutas, legumes, carnes e peixes frescos.
5. CONHEÇA os seus direitos de consumidor.
6. CONTRIBUA na melhoria de produtos e serviços utilizando o SAC das empresas.
7. APROVEITE bem o seu tempo, resolvendo tudo num só lugar.
8. PEÇA sempre o seu cupom fiscal, a garantia de sua compra.
9. EXIJA sempre o melhor atendimento.
10. ESCOLHA empresas comprometidas com o desenvolvimento sustentável.

Sobre o item 10, podemos seguir o conselho sustentável, usar a cuca e exigir que o proponente seja punido, pois o próprio declara em seu site que desmata demais. O departamento de marketing não anda muito bem da cuca.

A sacada e o texto abaixo é do Amazônia.org.br (dica do blog do Sakamoto):

O Carrefour possuia até 2007 mais de 100 mil cabeças de gado na Amazônia Legal, cujo abate é realizado em parte pela Friboi e cuja origem parece ser, em sua maioria, ilegal. Quem o sugere é o próprio Carrefour, em seu site. Das várias fazendas que possuia, a empresa menciona apenas aquela supostamente melhor em termos de desempenho ambiental, isto é a São Marcelo, em Juruena, no Noroeste de Mato Grosso.

Na realidade, as fazendas de gado da rede Carrefour, no Mato Grosso, foram vendidas no segundo semestre de 2007 para a viúva e filhos do fundador da rede, o francês Jacques Defforey.

De qualquer forma, se “quase a metade” da fazenda São Marcelo tiver ainda mata nativa - admitindo portanto que ela tenha aproximadamente 40% de cobertura florestal - metade da produção adquirida pelo Carrefour desta fazenda seria ilegal, pois o mínimo que a lei exige nesta região é uma cobertura florestal de 80%. O Carrefour nem sequer menciona as outras fazendas. Entre elas há a Vale do Sepotuba e a Matovi, que possivelmente devem apresentar indicadores de ilegalidade maiores, pois nem sequer aparecem na lista “Garantia de Origem” do mesmo site. (Fonte: Amazônia.org.br

:: Continue lendo Na Amazônia, cuca vai pegar o Carrefour, Amazônia.org.br

Relacionados:
Família Senna, responsável… por escravidão


Add comment Fevereiro 18, 2008

Progresso

Você segue da capital de Sergipe para o extremo oeste do estado e a paisagem predominante é cana-de-açúcar.

Você vai de Aracaju até a capital de Alagoas e a paisagem é cana-de-açúcar.

Você segue de Maceió para o extremo norte do estado e só vê cana-de-açúcar.

A mono-paisagem só é quebrada pelas zonas secas e por povoados, que para quem passa pela rodovia, parecem viver em torno de oficinas mecânicas, restaurantes, pousadas de trecho e bares para caminhoneiros.

É bom ver que o país do futuro, o país dos economistas que “querem um Brasil produtivo”, o país dos empresários-bom-coração que querem um país com crianças sorridentes na TV, o país dos governantes “de todos” está no caminho certo.

Certamente, o facão é a ferramenta do futuro; é uma tendência que tivemos a sorte de perceber; vamos formar os jovens para esta atividade de alto nível; especializar a população na tecnologia do corte da cana; vamos fornecer combustível para o mundo; o precisamos é aumentar as exportações.

Tem gringo querendo comprar, vamos vender; agora vai, este é o caminho.

Um usineiro em Alagoas, um em Sergipe, dois em Pernambuco, três em São Paulo; uma população trabalhando para eles.

Mulheres criando seus filhos sozinhas enquanto seus maridos estão na colheita em outro estado;
homens morando em currais comendo restos; senadores desautorizando equipe móvel de combate ao trabalho escravo.

Um dia poderemos sair de São Paulo e seguir pela estrada numa Toyota Hilux - só reduzindo nos radares - e ver toda a beleza de “um país abençoado por deus”. Veremos todas as maravilhas que o Senhor criou: a cana-de-açúcar, a soja e o gado.

Relacionados:
Bionegócios abastecem motores com álcool e sangue
Cana-de-açúcar, verbete, Wikipédia


Add comment Dezembro 10, 2007

Outra cidade

Quem mora em São Paulo e lê o mundo pelos olhos da Veja, do UOL e da GNT acredita que o Brasil moderno é São Paulo e que não existe vida inteligente para além do sul e sudeste.

É estranho estar numa cidade em que você, de dentro do ônibus, pode ver um rio. Um rio como o dos livros, com margens e água corrente; não uma canaleta gigante feita de concreto onde corre esgoto.

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Petrobras. Orla de Atalaia, Aracaju, Sergipe.

Você vai até o centro de cidade grande e tem uma pessoa pescando dentro do rio, isso espanta mais do que a beleza mostrada pelo passeios turistícos de Sergipe. Esperamos ou beleza ou cidade, não os dois juntos. Afinal, o paulistano usa o guia “fuja da cidade” para descansar, a cidade é uma espécie de inimiga, um lugar de onde se tira o dinheiro para a sobrevivência e para o lazer longe dali.

Parece que os paulistanos têm um dicionário diferente dos outros brasileiros urbanos, algumas palavras não tem a mesma acepção, se perderam no tempo. O rio não faz parte da cidade, está morto há algum tempo e a gente vai esquecendo o que esta palavra significa. Ele nos interessa pouco, pois o real problema é saber como estará o trânsito nas marginais às cinco da tarde.

Quando você está no sertão de Segipe e tem uma loja de celular com dois jovens sensuais no outdoor, fica a impressão de que um dia tudo será São Paulo, de que o chinelo será visto como carteirinha de pobreza; de que o carro e a camiseta Puma falsificada agarradinha serão mais importantes do que tirar o sarro do conhecido que passa do outro lado da rua; de que ir a praia ou contemplar o rio serão momentos mais chatos do que ir ao shopping ou ao “promocenter” local comprar um óculos de sol falsificado.

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Carro e motos tomando sol na praia. Orla de Atalaia, Aracaju, Sergipe.

Pode ser um pessimismo torpe, mas o “desenvolvimento” que os governantes nordestinos prometem não é “trazer empregos”, “duplicar estradas”, não é se tornar uma pequena São Paulo? A CVC, a maior agência predatória do Brasil, por exemplo, já fechou acordo para construção de um complexo hoteleiro em área de mangue preservada.

Claro que existe um outro “desenvolvimento”, suas idéias vem se espalhando mas ele precisa se tornar hegemônico. Não gostaria de voltar para Aracaju e ao pedir uma informação ser tratado como um idiota que pode ser enganado, como acontece na maioria das cidades com turismo muito desenvolvido.

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Mercado central. Aracaju, Sergipe.

É preciso resistir. A vida está em outro lugar. Em outros tempos não era preciso apontar onde, hoje é.

Relacionados:
blog Ciclo urbano, mobilidade sustentável, Aracaju-SE


7 comments Dezembro 6, 2007

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