Sinais de Buenos Aires
1 comment Junho 24, 2008
A Chevrolet nos apresenta um filme bem tradicional e bobinho. O filme é bem didático ao tratar de um dos apelos publicitários mais caros da indústria do automóvel, o da ascensão social. Serve com aula para nos ajudar a reconhecer este apelo em campanhas menos óbvias e mais modernas.
Esta é a primeira campanha “100% digital” da montadora. O tom das imagens é tão infantil que chegamos a pensar que é alguma brincadeira do novo marketing digital. Mas não. Os suportes mudam e os “conceitos” permanecem.
O site pretende ser 2.0 e apresenta, além do filme publicitário, um jogo, fundos de tela e um programinha que deve ser um tema para windows. Isso é que é estar atualizado com as tendências web de 10 anos atrás.
Na introdução do site, um rapaz de roupa comum vê sua própria imagem (de terno) refletida na lataria do carro acenando alegremente “venha”. De repente, ele é capturado pelo carrão e depois de uma voltinha é devolvido de terno, feliz, satisfeito e ascendido.
O conceito é “jump”. Segundo a montadora, “pular etapas, cortar caminho”. Sacou?
Voltando ao filme. A primeira imagem é da nossa velha conhecida cidade cinza e congestionada, então o carro passa e surge a cidade publicitária. Colorida e alegre.
Um operário está ali parado, o carro passa e o que ele vê refletir no vidro do carro? Sua imagem de terno e capacete! Um engenheiro. E que obra se vê ao fundo do novo engenheiro? A ponte estaguinada!
Uma repórter de microfone na mão, o carro passa e o que ela vê? Ela apresentando um grande telejornal.
Um casal de namorados vê refletir no carro mágico uma viagem internacional. Um rapaz de jaleco branco se vê como cirurgião.
Alguém chacoalha a faixa de pedestres como se fosse um tapete e ela se torna uma espécie de esteira rolante rumo às alturas. Incrível como esse pessoal trabalha a idéia de ascensão sutilmente.
Na última cena um carro vermelho pára em frente a um ponto de ônibus, o motorista abre a porta do passageiro e acena para uma pessoa entrar. O carro segue livremente pela avenida rumo ao…? Ao sol! Ao sol!
Aí vem a assinatura da campanha: “Dê um jump na sua vida. Prisma, seu primeiro grande carro”.
4 comments Junho 19, 2008
Você deseja saber como chegar a determinado local em São Paulo utilizando transporte público. Liga 156. No atendimento automático, disca dois dígitos e a atendente pede seu nome completo e telefone.
- Para quê?
- Para acessar o sistema.
- Eu gostaria de obter uma informação de transporte e não de dar uma sobre mim.
- É para cadastro.
- É obrigatório?
- Não, mas sem o cadastro não posso acessar o sistema.
- Para saber que ônibus pegar preciso dar meu telefone e nome completo?
- É, só assim posso acessar o sistema.
- E se eu não tiver telefone? Não morar em São Paulo?
- É apenas para cadastro.
Com pressa, invento um nome e telefone e consigo a informação. Após o atendimento, sou encaminhado para uma pesquisa: Disque 1, se está satisfeito com o atendimento ou 2, se está insatisfeito.
O acesso a informações públicas é um direito. Exigir documentos, encarecer o processo, utilizar linguagem hermética, enfim, construir impedimentos, é parte da ideologia da sociedade burocratizada para restringir o acesso a direitos.
Exigir dados, cadastrar, estocar imagens, informatizar as atividades do dia-a-dia, acumular sempre mais informações, unificar bancos de dados, construir perfis e analisar comportamentos são as ameaças mais silenciosas da sociedade atual, uma vez que são transvertidas de eficiência administrativa e do curso natural da tecnologia.
Burocratizar e monitorar atividades e, então, punir os indesejados não é mais suficiente. Escanear todos homens e mulheres, organizar toda a informação e conhecer os padrões de comportamento. Analisar as ameaças. Oprimir a ação de atividades que ainda não se realizaram é o ideal de um regime de controle total.
Para chegar num local costumávamos pular num bonde, pagar e descer. Era fácil. Alguns se lembram.
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2 comments Junho 16, 2008
O blog dos quadrinhos informa que os jornais Zero Hora, do Rio Grande do Sul, e A Tribuna, do Espírito Santo, suspenderam a publicação de tiras de Laerte. O autor deu a informação em entrevista a Rádio USP (que vai ao ar hoje, 13/06, às 20:30, em 93,7 FM).
Há algum tempo, Laerte deixou de buscar apenas o humor em seus trabalhos e vem nos apresentando sensacionais tiras filosóficas e surrealistas. Acaba por discutir o próprio fazer quadrinhos e tirinhas.
Laerte disse, em entrevista a Folha de S. Paulo em 2007, que perdeu o jeito para as tiras humorísticas que vinha fazendo:
… é uma explicação que tem de passar pela morte do meu filho [morto num acidente de carro em 2006] também, isso foi um divisor. Eu passei a ver e pensar as coisas de um outro jeito, uma série de procedimentos começou a perder o sentido ou ganhar outros.
Matéria completa do Blog dos Quadrinhos
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Entrevista com Laerte na Caros Amigos
Entrevista com Laerte na Folha de S. Paulo
Add comment Junho 13, 2008
A Ford presta um favor ao nos lembrar como é a vida de uma criança dentro de uma bolha de lata.
Para uma criança que vai de um local ao outro exclusivamente de carro, o mundo natural é um ambiente desejado e desconhecido. O desejo de estar e de tocar são cotidianamente frustrados pelos limites dos vidros verdes, do painel de design sofisticado e das travas automáticas. A satisfação deste desejo pode realizar-se apenas através da imaginação.
Se mostrássemos um prisioneiro recostado em sua cela silenciosa escrevendo um poema bucólico e ao final disséssemos suavemente “Prisão: veja as possibilidades”. Estaríamos sendo honestos? Estaríamos dizendo a verdade?
É isso que faz a Ford em sua nova propaganda que tem duas crianças como protagonistas. Vende a ilusão de que sonhar com a vastidão do mundo através de uma janelinha é melhor do que viver no vasto mundo.
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2 comments Junho 12, 2008

Foto: Rodrigo Rodrigues Melo. Todos os direitos reservados. Reproduzido com autorização do autor.
Em São Paulo, uma das medidas mais legais do Bilhete único especial para idosos (passagem gratuita) foi libertá-los da famosa e segregadora “gaiolinha”. Antes eram obrigados a permanecer na parte da frente do ônibus e descer pela porta dianteira, sem passar pela catraca, apresentando o RG ao motorista. A parte traseira era zona exclusiva dos demais.
Hoje, podem sentar-se onde quiserem, inclusive juntamente com os seres que ainda não chegaram a sua idade. Infelizmente, a maioria dos idosos desce pela frente mesmo. Natural, já que os solavancos e a lotação dos ônibus não estimulam a passagem pela catraca.
Mas temos mais um passo atrás na tentativa de libertar as pessoas da vigilância e da segregação. Justificando medidas anti-fraude, a SPtrans exige mais um cadastramento. Os idosos devem ir até um dos locais autorizados, apresentarem RG, comprovante de endereço recente e tirarem uma foto no local.
O idoso receberá o novo Bilhete via correio junto com “todas as informações para o uso correto”. Cartazes em ônibus e terminais lembram os portadores de Bilhetes especiais do uso correto e informam que milhares de pessoas já foram punidas e desligadas do sistema.
Já é difícil entender a sociedade atual através das tradicionais teorias de vigilância e punição. Quando um grupo gigantesco e historicamente considerado não-perigoso como o dos idosos passa a ser registrado, monitorado e, claro, punido em massa, nos damos conta do estágio de controle social que atingimos.
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Tarifa única de ônibus em SP, só pagando adiantado
7 comments Junho 5, 2008
Muita gente ao estacionar desrespeita o pedestre. Tem até gente que adorou as novas calçadas da cidade, porque ficou mais fácil para manobrar.
Diversas categorias de motoristas disputam o ranking geral de desrespeito e há especialidades em cada modalidade.
Os veículos de passeio, por exemplo, são líderes na modalidade duas rodas sobre a calçada, principalmente em pistas em frente a escolas e faculdades; na categoria faixa de pedestres, os taxistas estão sempre entre os mais cotados, concentrando seus esforços em regiões comerciais como Av.Paulista e Av.Faria Lima estes profissionais chegaram atingiram excelentes marcas.
A CET, por sua vez, é uma das campeãs na categoria quatro rodas sobre a calçada na cara-de-pau, disputando a liderança com os carros-fortes; os motoqueiros são conhecidos pelo arranque rápido e não deixam para ninguém quando o assunto é avanço sobre faixa antes do fim da travessia.
Agora que grupo organizado consegue estacionar de forma a impedir completamente a passagem pela calçada e ao mesmo tempo estar sobre a faixa de pedestres?
A polícia paulista é claro. Ela treina duro há anos para isso.
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Procedimento padrão, artigo, Apocalipse Motorizado
Add comment Junho 4, 2008
O governo federal já deu um jeito de poupar os motoristas de automóveis ao repassar a conta do petróleo para o pessoal que se desloca de ônibus.
Após a explosão de notícias sobre o trânsito de São Paulo, de dezenas de especialistas se pronunciarem, de secretários e prefeito inventarem factóides, enfim, do governo municipal declarar a cada semana suas prioridades, a realidade se apresenta. Como farsa e como tragédia.
Primeiro, uma ponte consegue reunir num só lugar o resumo das administrações públicas da cidade: política de expulsão de famílias pobres em nome da especulação imobiliária, conluio com grupos midiáticos, ligação estreita entre poder político e empreiteiras.
Agora, depois de perseguir carroceiros, de brincar com a rotina dos motoboys, de exigir que os usuários de transporte público paguem adiantado pelo serviço, de ignorar sistematicamente o caos nos corredores de ônibus da periferia e de considerar os caminhões a causa principal do trânsito da cidade, o atual prefeito nos dá mais um exemplo de suas prioridades:
O prefeito Gilberto Kassab (DEM-SP) liberou na sexta R$ 20,1 milhões para a reforma do Autódromo de Interlagos para o GP do Brasil de F-1. O dinheiro será remanejado das verbas inicialmente previstas para obras como implantação de corredores e terminais de ônibus (R$ 2,4 mi) e o Expresso Tiradentes (R$ 3,3 mi). A administração diz que os valores serão compensados com verbas do Estado e da União. ( Fonte: Folha de S. Paulo, 03/06/2008 )
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Exibicionismo privado e irresponsabilidade no espaço público
Add comment Junho 3, 2008
Apesar de ter prestigiado a pé algumas vezes, essa foi minha primeira participação com bicicleta. Após uma revisão geral, a bicicleta que me serviu durante a juventude em cidades mais tranqüilas, finalmente, conhece São Paulo.
Rumo à praça do ciclista, sob uma garoa chata e um frio danado, fui pensando que seria um daqueles encontros de poucos bravos. Chegando, logo me assustei, uma montoeira de gente. Aparentemente, não estavam apenas os ciclistas experientes, diferentes idades e tipos de bicicleta denunciavam a diversidade do movimento.
200 metros após a partida, numa das faixas de pedestres mais movimentadas da cidade, alguém agoniza embaixo da roda traseira de um ônibus. Polícia, bombeiros, ambulâncias, pedestres horrorizados. Seguimos pedalando pelo direito de se deslocar sem violência. A cena não foi uma coincidência, ela acontece a cada uma hora.
O que mais me chamou a atenção durante todo o percurso foram as diversas manifestações de apoio à massa de ciclistas. No trânsito parado da Av. Paulista, diversos carros abriam as janelas e faziam jóia ou davam tchau, outros buzinavam, vários motoristas perguntavam do que se tratava. Descendo a Rua Vergueiro, a seqüência de faculdades à moda shopping center também não foi uma coincidência no trajeto. São construídas às dezenas, próximas de estações do metrô principalmente. Vendem promessas a tantos ansiosos por educação e uma vida mais confortável que estão excluídos das melhores universidades.
Na praça da Sé, 9 da noite, um pequeno estacionamento ao lado da catedral sugeria que gente importante se reunia em alguma sala enquanto seu carro empobrecia o calçadão. Uma viatura policial se aproxima desconfiada. Um ciclista se aproxima, deixa panfletos. Conversam.
Uma senhora com um bolo, uma bolsa e mais umas três sacolas pára ao meu lado. Pergunta o que é. Coloca tudo no chão e começa a fotografar. Que beleza era aquele bolo no meio de uma noite fria bem no marco zero da praça da Sé, aquela mesma onde são experimentadas a vigilância por câmeras, a arquitetura anti-moradores de rua e a impunidade da punição das chacinas.
Quando a senhora avista uma ciclista de branco com a bicicleta cheia de flores, solta “aí, que lindo”, pede ajuda com as sacolas e sai correndo pedir uma foto em frente à escadaria. A naturalidade com que ela se deslocava pela praça com suas coisas deixou claro que para ela, como para muitos, independente da vontade de Andrea Matarazzo, a praça continua praça. Um camburão passa derrapando com rostos de ódio para fora da janela para nos lembrar de algo. Os policiais que ainda conversavam com os ciclistas olham de canto de olho. Fiquei imaginando se o cenário formado era uma coincidência.
No pátio do colégio, crianças correm e gritam atrás das bicicletas. Se tivessem uma… No silêncio da rua Boa Vista pessoas dormem. Na Prefeitura, a prova de que é fácil fazer um bicicletário, as grades que separam o povo de seus representantes fazem as vezes.
No minhocão (fechado durante a noite) a experiência de se deslocar de bicicleta, sem carro algum ao redor, se concretiza. No trecho da General Olímpico da Silveira buzinas enfurecidas. Dois motoqueiros tentam passar por entre os ciclistas. Atacam como são atacados pelos carros. Na esquina da Angélica, em mais uma pracinha que Prefeitura implanta a arquitetura da exclusão, um menino numa bicicleta vermelha com os olhos arregalados vê a multidão passar, seu pai, com o cachorrinho ao lado, sorri. Quase dez horas da noite e passeiam por lá, embaixo do minhocão. Coincidência? Na subida da Angélica, o trânsito de automóveis teve que esperar a subida das bicicletas.
Na manhã seguinte vou até uma livraria no Conjunto Nacional, deixo a bicicleta no estacionamento e paro para comprar uma água. A moça pergunta se o capacete é de bicicleta. “Ontem um monte de gente estava levantando as bicicletas no meio da Paulista, sei lá, parecia que iam jogar, não sei o que era, pareciam uns loucos”. Explico a manifestação e digo que estacionei bem ali, embaixo da loja. A colega dela se aproxima, faço o convite para a bicicletada e falamos do “acidente” da noite anterior, era um motoboy.
Uma noite sem coincidências.
Relacionados:
Placas, pessoas, praças e ruas, artigo, Apocalipse motorizado
Parem os Carros, Diminuem os Carros, artigo, Falanstério
Panóptico, fotos
CicloBr, fotos
Luddista, fotos
Ciclistasp, fotos
Atualização:
Esqueci algo que chamou minha atenção. À noite, a pé pela cidade, estamos acostumados a esperar muito pelo ônibus. De bicicleta foi possível passar por vários pontos de ônibus, um novo ponto de vista. Todos os pontos cheios! Fora da Paulista (que é servida de metrô) passamos por poucos ônibus. A “cidade que não pára” não tem transporte público de madrugada e às 22h as pessoas já definham nas paradas. Tratá-las com deferência estes companheiros é essencial.
9 comments Junho 2, 2008