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Bicicletada junina
Foi impressionante, não pelas bicicletas. Tratava-se, afinal, de uma bicicletada. E a cada protesto mensal o número de pessoas dispostas a tomar as ruas só aumenta.
Na teoria é bem claro: trata-se da luta contra o uso indiscriminado do automóvel e pelo direito de circular pela cidade utilizando uma bicicleta.
Na prática está tudo ligado à luta por uma cidade melhor. E foi isso o impressionante.
Pessoinhas com menos de 5 anos de idade, senhores de barbas brancas, jovens universitários, trabalhadores, jovens moradores do “outro lado da ponte”, mulheres, negros. Estariam todos querendo pedalar? Sem dúvida. Só isso? Claro que não.
O movimento rumo aos condomínios fechados, aos carros altos e largos e aos shopping centers avança com a força da mídia, da publicidade e com o empobrecimento da cultura. Parece ser o pensamento hegemônico, parece ser a direção natural da cidade e das pessoas. Assim parece, simplesmente, porque é a vontade dos que transmitem as informações que recebemos.
Na televisão, jornais e rádio, o trânsito, a fofoca e o controle são temas de todos os minutos. Não é possível folhear três páginas de jornal sem se deparar com um condomínio, um carro, uma bolsa ou uma celebridade.
São poucos falando para muitos. E falam sobre um mundo distante da vida nossa de cada dia. Apesar de desejos e valores serem criados em todos nós por meio dessa comunicação perversa, o questionamento sobre a direção da cidade e sobre a utilização de seus espaços, aparentemente, vem aumentando. A indignação e a noção de que o caminho “natural” pode ser mudado cresce entre os sem voz.
Algo parece estar errado no que a Globo, SBT, Record, Band e mais meia dúzia de canais nos dizem todos os dias. Se a vida num condomínio parece boa, ela é para uma minoria. A maioria não pode e não está interessada em morar entre muros, mas gostaria de ver seu filho jogar bola na porta de casa.
A bicicletada como um espaço de manifestação pelo direto a circulação de bicicletas, acaba por congregar diversas vontades que ultrapassam a vontade de pedalar. Que são resumidas na vontade de conviver e desfrutar de espaços e serviços públicos.
Quando vemos um pedestre enfrentar uma máquina que acelera sobre a faixa de pedestre, percebemos que aquele cara está cheio, que se cansou e resolveu agir. Pode ser uma sensação exageradamente positiva, mas na bicicletada junina esta sensação ficou evidente, principalmente, quando:
_chegamos à praça do ciclista e encontramos dois rapazes estreantes vindos de um bairro bem distante,
_pessoas que bebiam num bar ao lado do parque Trianon resolveram tirar fotos no meio da avenida paulista com a bicicleta trio-elétrico que participava da bicicletada,
_passamos em frente a um hospital em silêncio,
_alguns skatistas que desfrutavam das novas e lisas calçadas da Paulista nos acompanharam por um trecho,
_quando três garotas, na falta de uma bicicleta, acompanharam a massa de ciclistas correndo (sim, com os próprios pés - simplesmente sensacional),
_quando retornamos à praça e um sanfoneiro mostrava o valor da música ao vivo em local público.
Relacionados (por Apocalipse Motorizado):
Relato e fotos:
aninha | ciclobr | contraponto e fuga | falanstérios
Fotos:
águia dourada | ciclobr | fourier | luna rosa | pedalante | tessie
Vídeo:
fourier | tessie | vá de bike
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Eu sei, foi no final do mês passado, mas isso aqui é um blog e nos damos algumas liberdades e os leitores, assim esperamos, também nos dão. As revistas, jornais e portais estão sempre com os assuntos em dia, publicando textos publicitários disfarçados de reportagens e publicidade disfarçada de reportagem.
Não garantimos notícias quentinhas, mas da publicidade vocês está livre.
3 comments Julho 8, 2008
Bicicletas e disposição sexual
Ótima propaganda que liga a atividade física proporcionada por deslocamentos feitos de bicicleta à vitalidade sexual.
Os horários mais baratos dos canais de televisão estão cheios de propagandas de fortificantes feitos de partes do tubarão, de cogumelos vitalizantes e folhas emagrecedoras. Os horários mais caros, cheios de cremes rejuvenescedores e pílulas enrigecedoras.
É muito bom quando vemos uma propaganda bem humorada na televisão que fala de disposição sexual sem vender nada.
Propaganda húngara.
(vídeo via Carectomy)
1 comment Junho 28, 2008
A mágica da ascensão pelo motor
A Chevrolet nos apresenta um filme bem tradicional e bobinho. O filme é bem didático ao tratar de um dos apelos publicitários mais caros da indústria do automóvel, o da ascensão social. Serve com aula para nos ajudar a reconhecer este apelo em campanhas menos óbvias e mais modernas.
Esta é a primeira campanha “100% digital” da montadora. O tom das imagens é tão infantil que chegamos a pensar que é alguma brincadeira do novo marketing digital. Mas não. Os suportes mudam e os “conceitos” permanecem.
O site pretende ser 2.0 e apresenta, além do filme publicitário, um jogo, fundos de tela e um programinha que deve ser um tema para windows. Isso é que é estar atualizado com as tendências web de 10 anos atrás.
Na introdução do site, um rapaz de roupa comum vê sua própria imagem (de terno) refletida na lataria do carro acenando alegremente “venha”. De repente, ele é capturado pelo carrão e depois de uma voltinha é devolvido de terno, feliz, satisfeito e ascendido.
O conceito é “jump”. Segundo a montadora, “pular etapas, cortar caminho”. Sacou?
Voltando ao filme. A primeira imagem é da nossa velha conhecida cidade cinza e congestionada, então o carro passa e surge a cidade publicitária. Colorida e alegre.
Um operário está ali parado, o carro passa e o que ele vê refletir no vidro do carro? Sua imagem de terno e capacete! Um engenheiro. E que obra se vê ao fundo do novo engenheiro? A ponte estaguinada!
Uma repórter de microfone na mão, o carro passa e o que ela vê? Ela apresentando um grande telejornal.
Um casal de namorados vê refletir no carro mágico uma viagem internacional. Um rapaz de jaleco branco se vê como cirurgião.
Alguém chacoalha a faixa de pedestres como se fosse um tapete e ela se torna uma espécie de esteira rolante rumo às alturas. Incrível como esse pessoal trabalha a idéia de ascensão sutilmente.
Na última cena um carro vermelho pára em frente a um ponto de ônibus, o motorista abre a porta do passageiro e acena para uma pessoa entrar. O carro segue livremente pela avenida rumo ao…? Ao sol! Ao sol!
Aí vem a assinatura da campanha: “Dê um jump na sua vida. Prisma, seu primeiro grande carro”.
4 comments Junho 19, 2008
Informação? Só ferindo privacidade
Você deseja saber como chegar a determinado local em São Paulo utilizando transporte público. Liga 156. No atendimento automático, disca dois dígitos e a atendente pede seu nome completo e telefone.
- Para quê?
- Para acessar o sistema.
- Eu gostaria de obter uma informação de transporte e não de dar uma sobre mim.
- É para cadastro.
- É obrigatório?
- Não, mas sem o cadastro não posso acessar o sistema.
- Para saber que ônibus pegar preciso dar meu telefone e nome completo?
- É, só assim posso acessar o sistema.
- E se eu não tiver telefone? Não morar em São Paulo?
- É apenas para cadastro.
Com pressa, invento um nome e telefone e consigo a informação. Após o atendimento, sou encaminhado para uma pesquisa: Disque 1, se está satisfeito com o atendimento ou 2, se está insatisfeito.
O acesso a informações públicas é um direito. Exigir documentos, encarecer o processo, utilizar linguagem hermética, enfim, construir impedimentos, é parte da ideologia da sociedade burocratizada para restringir o acesso a direitos.
Exigir dados, cadastrar, estocar imagens, informatizar as atividades do dia-a-dia, acumular sempre mais informações, unificar bancos de dados, construir perfis e analisar comportamentos são as ameaças mais silenciosas da sociedade atual, uma vez que são transvertidas de eficiência administrativa e do curso natural da tecnologia.
Burocratizar e monitorar atividades e, então, punir os indesejados não é mais suficiente. Escanear todos homens e mulheres, organizar toda a informação e conhecer os padrões de comportamento. Analisar as ameaças. Oprimir a ação de atividades que ainda não se realizaram é o ideal de um regime de controle total.
Para chegar num local costumávamos pular num bonde, pagar e descer. Era fácil. Alguns se lembram.
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2 comments Junho 16, 2008
Sonhando com liberdade
A Ford presta um favor ao nos lembrar como é a vida de uma criança dentro de uma bolha de lata.
Para uma criança que vai de um local ao outro exclusivamente de carro, o mundo natural é um ambiente desejado e desconhecido. O desejo de estar e de tocar são cotidianamente frustrados pelos limites dos vidros verdes, do painel de design sofisticado e das travas automáticas. A satisfação deste desejo pode realizar-se apenas através da imaginação.
Se mostrássemos um prisioneiro recostado em sua cela silenciosa escrevendo um poema bucólico e ao final disséssemos suavemente “Prisão: veja as possibilidades”. Estaríamos sendo honestos? Estaríamos dizendo a verdade?
É isso que faz a Ford em sua nova propaganda que tem duas crianças como protagonistas. Vende a ilusão de que sonhar com a vastidão do mundo através de uma janelinha é melhor do que viver no vasto mundo.
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3 comments Junho 12, 2008
Mais uma do Bilhete Único espião

Foto: Rodrigo Rodrigues Melo. Todos os direitos reservados. Reproduzido com autorização do autor.
Em São Paulo, uma das medidas mais legais do Bilhete único especial para idosos (passagem gratuita) foi libertá-los da famosa e segregadora “gaiolinha”. Antes eram obrigados a permanecer na parte da frente do ônibus e descer pela porta dianteira, sem passar pela catraca, apresentando o RG ao motorista. A parte traseira era zona exclusiva dos demais.
Hoje, podem sentar-se onde quiserem, inclusive juntamente com os seres que ainda não chegaram a sua idade. Infelizmente, a maioria dos idosos desce pela frente mesmo. Natural, já que os solavancos e a lotação dos ônibus não estimulam a passagem pela catraca.
Mas temos mais um passo atrás na tentativa de libertar as pessoas da vigilância e da segregação. Justificando medidas anti-fraude, a SPtrans exige mais um cadastramento. Os idosos devem ir até um dos locais autorizados, apresentarem RG, comprovante de endereço recente e tirarem uma foto no local.
O idoso receberá o novo Bilhete via correio junto com “todas as informações para o uso correto”. Cartazes em ônibus e terminais lembram os portadores de Bilhetes especiais do uso correto e informam que milhares de pessoas já foram punidas e desligadas do sistema.
Já é difícil entender a sociedade atual através das tradicionais teorias de vigilância e punição. Quando um grupo gigantesco e historicamente considerado não-perigoso como o dos idosos passa a ser registrado, monitorado e, claro, punido em massa, nos damos conta do estágio de controle social que atingimos.
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7 comments Junho 5, 2008
Treinados para desrespeitar
Muita gente ao estacionar desrespeita o pedestre. Tem até gente que adorou as novas calçadas da cidade, porque ficou mais fácil para manobrar.
Diversas categorias de motoristas disputam o ranking geral de desrespeito e há especialidades em cada modalidade.
Os veículos de passeio, por exemplo, são líderes na modalidade duas rodas sobre a calçada, principalmente em pistas em frente a escolas e faculdades; na categoria faixa de pedestres, os taxistas estão sempre entre os mais cotados, concentrando seus esforços em regiões comerciais como Av.Paulista e Av.Faria Lima estes profissionais chegaram atingiram excelentes marcas.
A CET, por sua vez, é uma das campeãs na categoria quatro rodas sobre a calçada na cara-de-pau, disputando a liderança com os carros-fortes; os motoqueiros são conhecidos pelo arranque rápido e não deixam para ninguém quando o assunto é avanço sobre faixa antes do fim da travessia.
Agora que grupo organizado consegue estacionar de forma a impedir completamente a passagem pela calçada e ao mesmo tempo estar sobre a faixa de pedestres?
A polícia paulista é claro. Ela treina duro há anos para isso.
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Procedimento padrão, artigo, Apocalipse Motorizado
Add comment Junho 4, 2008
Para deixar bem claro
O governo federal já deu um jeito de poupar os motoristas de automóveis ao repassar a conta do petróleo para o pessoal que se desloca de ônibus.
Após a explosão de notícias sobre o trânsito de São Paulo, de dezenas de especialistas se pronunciarem, de secretários e prefeito inventarem factóides, enfim, do governo municipal declarar a cada semana suas prioridades, a realidade se apresenta. Como farsa e como tragédia.
Primeiro, uma ponte consegue reunir num só lugar o resumo das administrações públicas da cidade: política de expulsão de famílias pobres em nome da especulação imobiliária, conluio com grupos midiáticos, ligação estreita entre poder político e empreiteiras.
Agora, depois de perseguir carroceiros, de brincar com a rotina dos motoboys, de exigir que os usuários de transporte público paguem adiantado pelo serviço, de ignorar sistematicamente o caos nos corredores de ônibus da periferia e de considerar os caminhões a causa principal do trânsito da cidade, o atual prefeito nos dá mais um exemplo de suas prioridades:
O prefeito Gilberto Kassab (DEM-SP) liberou na sexta R$ 20,1 milhões para a reforma do Autódromo de Interlagos para o GP do Brasil de F-1. O dinheiro será remanejado das verbas inicialmente previstas para obras como implantação de corredores e terminais de ônibus (R$ 2,4 mi) e o Expresso Tiradentes (R$ 3,3 mi). A administração diz que os valores serão compensados com verbas do Estado e da União. ( Fonte: Folha de S. Paulo, 03/06/2008 )
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Exibicionismo privado e irresponsabilidade no espaço público
Add comment Junho 3, 2008










