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Banco de pesquisa sobre saúde bloqueia resultados de buscas por “aborto”

Traduzímos a notícia abaixo sobre o bloqueio da palavra “aborto” no Popline, um banco de dados sobre saúde mantido com capital do governo dos EUA. Mas antes de publicarmos a notícia, ficamos sabendo via Boing Boing, citando o Women’s Health News, que eles voltaram atrás.

“Eu não poderia discordar mais intensamente da decisão e ordenei que os administradores da Popline restaurem, imediatamente, “abortion” (aborto) como termo de busca”. (Trecho da nota de Michael J. Klag)

Sem a denúncia dos bibliotecários envolvidos, o bloqueio censurador teria passado despercebido. E sem a rápida mobilização de blogs e sites, provavelmente, teria permanecido.

Segue a notícia traduzida amadoramente na última sexta:

Um site de informações médicas mantido pelo governo dos Estados Unidos, que se auto intitula a maior base de dados sobre saúde reprodutiva, discretamente bloqueiou buscas pela palavra “aborto”, ocultando cerca de 25.000 resultados de busca.

O site de busca Popline é dirigido pela Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health, em Maruland, e foi fundado pela Agência para Desenvolvimento Internacional dos Estados Estados (USAID, na sigla em inglês), o escritório nacional encarregado de promover ajuda internacional, incluindo fundos para saúde para nações em desenvolvimento.

O banco de dados indexa um amplo campo da literatura sobre saúde reprodutiva, incluindo títulos como “Previous abortion and the risk of low birth weight and preterm births” (Abortos prévios e riscos de nascimentos abaixo do peso e prematuros) e “Abortion in the United States: Incidence and access to services, 2005” (Abortos nos Estados Unidos: Incidência e acesso aos serviços, 2005).

Mas na quinta-feira, uma busca por “aborto” resultava apenas a mensagem “”No records found by latest query” (Nenhum dado foi encontrado para esta última busca). Stephen Goldstein, porta-voz da Johns Hopkins, disse que não se trata de censura e que no momento não poderia comentar.

Sob a política de Reagan, reaviavada pelo presidente Bush em 2001, a USAID rejeitou manter uma organização não-governamental que realizasse abortos, ou que vissasse “promovê-lo ativamente como um método de planejamento familiar em outras nações”.

Um bibliotecário da University of California em São Francisco percebeu a nova censura na segunda, enquanto realizava uma pesquisa de rotina a pedido de acadêmicos e pesquisadores da universidade. O termo de busca vinha funcionado corretamente desde Janeiro.

Perplexo, ela contatou o gerente do banco de dados Johns Hopkins’ Debbie Dickson, que respondeu em 1º de Abril por e-mail que a universidade tinha recentemente bloqueado o termo de busca porque o banco de dados recebou capital federal.

“Nós recentemente bloqueamos todos os termos relacionados a aborto”, Dickson escreveu em nota a Gloria Won, bibliotecária do centro médico da Universidade da California. “Como um projeto de fundos federais, nós decidimos que isso é o melhor no momento”.

Dickson sugeriu outros tipos de estratégias de buscas, como palavras mais obscuras e alternativas para desviar do bloqueio às palavras-chaves. “Além dos termos que você já usou, você pode tentar usar ‘controle de fertilidade, pós concepção’. Este é o termo paralelo para o nosso termo ‘aborto’ e a maioria dos arquivos possuem ambas palavras-chave”, ela escreveu.

Ela também sugeriu usar como estratégia de pesquisa o eufenismo “gravidez não desejada”. Mas as palavras alternativas não satisfizeram os críticos da censura. “A principal função do site deles é a busca por palavras-chave, e se você usa uma frase que contenha a palavra ‘aborto’ ele ignora este”, percebeu que Melissa Just, diretora da biblioteca do Instituto de Pesquisa sobre Câncer e do hospital City of Hope, em Duarte, California. Just acompanhava a conversa numa lista de discussão, e se viu indignada quando se deparou com o insidente da censura.

“Mesmo que você esteja tentando formar um argumento para alguém defendendo que o aborto não é uma boa idéia – quer seja considerando o risco à saúde, ou a preocupação com o bem-estar mental -, você não conseguirá encontrar artigos sobre suas pretensões”, ela diz. “São escluídos ambos os acessos, pró e contra [o aborto]”.

Fonte original: U.S. Funded Health Search Engine Blocks


Add comment Abril 7, 2008

Fazendas escravistas têm função social?!

O Grupo de móvel de combate ao trabalho escravo já passou por muitas fazendas onde os trabalhadores comem restos, dormem em currais e não recebem água potável. Onde ninguém recebe salário e capangas armados garantem que ninguém escape. Cemitérios clandestinos já foram encontrados, a presença de crianças não é rara. Recentemente, um trabalhador foi marcado com ferro e fogo, feito gado.

Muitos escravistas brasileiros são antigos conhecidos, já foram flagrados diversas vezes destruindo a dignidade de grupos humanos inteiros.

No país cuja constituição afirma que toda terra deve ter função social, estes fazendeiros não perdem direito às suas terras.

A bancada ruralista do congresso nacional mantém paradas as propostas de lei para combate à degradação do Homem. São velhos coronéis rejuvenescidos pela grana do bionegócio. São senhores que matam o tempo desautorizando equipe federal de combate à escravidão e fazendo declarações ufanistas sobre os recordes de produção agrícola nacional.

Quem acha que escravidão não é função social e que quem escraviza deve perder sua terra pode assinar o abaixo-assinado pela aprovação da PEC 438/2001 e ajudar esta proposta andar.

A Proposta de Emenda Constitucional 438/2001 prevê o confisco de terras onde trabalho escravo foi encontrado e as destina à reforma agrária. A proposta passou pelo Senado Federal, em 2003, e foi aprovada em primeiro turno na Câmara dos Deputados em 2004. Desde então, está parada, aguardando votação.

Leia e assine o abaixo-assinado pela aprovação da PEC 438/2001


Add comment Abril 1, 2008

O trabalho

O “gato” (uma espécie de supervisor, o responsável pelo recrutamento e disciplina de um grupo de trabalhadores rurais) encosta o carro numa pousada de trecho, onde diversos trabalhadores esperam por trabalho. O “gato” precisa de 20 trabalhadores para uma empreitada na fazenda de um poderoso local, um juiz, talvez, uma família socialmente responsável, quem sabe (na imensa maioria dos casos o proprietário se mantém oculto e distante de possíveis responsabilidades).

A dívida com a hospedagem é anotada no caderninho do “gato”, é só a primeira. Sobem no caminhão com a coragem que a pinga traz. Uma bota, um facão, todo o alimento e cigarros que o trabalhador necessitará durante sua jornada também serão anotados diariamente.

Ninguém sai da fazenda enquanto a dívida não for quitada. Como já chegam devendo e os preços dos mantimentos são abusivos na fazenda, em poucos dias o que o trabalhador ganharia pelo trabalho já é inferior ao que ele deve. Está dada a condição para a escravidão por dívida, a forma de escravidão mais comum no Brasil rural hoje.

Em cidades como São Paulo, os imigrantes caem num círculo de exploração do trabalho baseado na retenção de documentos por seus empregadores, no medo da deportação, no isolamento e na própria determinação dos imigrantes de juntarem dinheiro e aceitarem qualquer empreitada.

E se estas ordens fossem invertidas, e se os executivos e assalariados de nível superior estivessem largados a exploração desumana diariamente? Esse é o tema do filme acima.


1 comment Março 28, 2008

Tibete livre

Encontrar informações independentes sobre a situação no Tibete não é muito fácil. Traduzimos de forma amadora e bastante atrasada o relato-resumo “Tibet: nearly 1,000 jailed in Lhasa, Dalai Lama offers to resign”, de Xeni Jardin, publicado originalmente em Boing Boing, no dia 18/03. Os links contidos no texto não foram traduzidos, permanecem em inglês.

__Acima: vídeo do dia 15/03/2008 (capturado por celular). Milhares de monges protestam no mosteiro Xiahe em Labrang, província de Gansu na China

death_tibet.jpg

__Acima: Os corpos de oito manifestantes foram levados para dentro do mosteiro Ngaba Kirti, na área de Ngaba, ontem. A imagem de phayul.com indica que os observadores estão jogando dinheiro sobre os corpos, numa tradicional expressão de luto. Estudantes de Students for a Free Tibet relataram que mais de 20 manifestantes foram mortos em Ngaba. Aqui estão as fotos dos mortos (imagens fortes). Cópias das mesmas fotos aqui.

__Aqui a primeira impressão pessoal de Spende Palermo, técnico de som e documentarista de Oregon, que estava neste mosteiro trabalhando para um programa de TV da National Geographic no último sábado, quando irromperam os protestos. Quando seu trabalho acabou, ele enviou este e-mail para seus amigos, da China.

__Após dois dias de patrulha do exército e polícia chinesa, aproximadamente mil tibetanos foram detidos por autoridades chinesas em Lhasa:

“Pesquisas na cidade dizem que 600 pessoas foram detidas no sábado e outras 300 no domingo. Não está claro onde estes grupos estão aprisionados, isso porque acredita-se que a principal prisão de Lhasa já esteja lotada.

Estes detidos podem ter sido levados para a prisão Número Um, no distrito de Sangyio, noroeste de Lhasa, que atualmente não estava em uso. Eles também podem ter sido levados para a prisão Número Quatro e para a nova prisão de Lhasa, no mesmo distrito que, recentemente, vinha sendo usado como centro de reeducação através do trabalho. Eles ainda podem ter sido levados para a nova prisão de Chushur, fora de Lhasa, local onde a maioria dos prisioneiros políticos são confinados após a condenação.”

Estas prisões são notórias violadoras dos Direitos Humanos no Tibete, como é Abu Ghaib no Iraque.

__O Dalai Lama declarou que renunciará como chefe do Estado do governo do Tibete no exílio se a violência prosseguir:

“’Se os tibetanos escolherem o caminho da violência, ele terá que renunciar, porque é completamente comprometido com a não-violência’, disse Tenzin Talha. ‘Ele renunciaria como líder político e chefe de Estado, mas não como Dalai Lama. Ele sempre será o Dalai Lama’”

__Aqui temos mais sobre ao bloqueio do You Tube na China no momento: o site está sistematicamente bloqueado, junto com o Google News, devido a explosão de material sobre o levante no Tibete.

__Erick Schonfeld do TechCrunch pergunta,

“O que o Google fará para restaurar o acesso ao You Tube e ao Google News na China? A China é um grande mercado que o Google precisa estar. A empresa vai retirar voluntariamente todos os vídeos e notícias sobre o Tibete? Ou o governo chinês vai ter que descobrir sozinho como fazê-lo? Existe um precedente: na China, você não consegue encontrar na web muita informação sobre o protesto da Praça Celestial de 1989, incluindo aí a famosa imagem de um homem bloqueando sozinho uma fila de tanques de guerra.”

__O presidente George Bush retirou a China da lista dos maiores violadores dos Direitos Humanos apenas três dias antes da explosão de violência no Tibete. Dê uma olhada no editorial de hoje do New York Times, “China aterroriza o Tibete”:

“Em seu relatório anual sobre os Direitos Humanos em 190 países, o Departamento de Estado considerou que a avaliação de Beijing, de forma geral, permanece pobre. Mas, no que parece ser uma recompensa política ao governo, o Departamento retirou a China da lista de dez maiores violadores.

A China teve a chance de brilhar com a festa das Olímpiadas e a arruinou. Seus líderes terão que continuar a combater protestos e agitações – e com o endurecimento da reprovação internacional – até que assegure mais liberdade para todos seus cidadãos, incluindo tolerância religiosa e liberdade ao Tibete.”

__Muitos leitores do Boing Boing que estão na China têm relatado que eles não conseguem acessar nosso site sem censura, por conta do conteúdo relacionado ao Tibete. Chris, da china, explica:

“Desde que Boing Boing começou a escrever sobre o Tibete, ele tem sido freqüentemente bloqueado na China. Eu não acho que é um bloqueio muito específico como “You Tube está bloqueado”, mas sim que o grande Firewall (filtro) está encontrando a palavra-chave ‘Tibet’ e a bloqueando. Já está melhor, eu consigo carregar parte do site antes da mensagem ‘Connection Reset’ aparecer, mas não consigo carregar vídeos do You Tube (que está bloqueado) e imagens do Flickr (que parece ter sido bloqueado, novamente).

Eu posso acessar o site através de um proxy (gladder do firefox, fortemente recomendado), entretanto, vídeos continuam não funcionando, e são expecionalmente lentos.

Mais um ponto interessante. Eu vi rapidamente no Boing Boing sobre a antipatia dos chineses em relação aos ‘ingratos’ tibetanos. Este parece ser o consenso entre meus alunos. Eu dei a eles um artigo do NY Times para leitura e ressaltei a diferença entre as contas das autoridades chinesas (8 pessoas mortas, sem soldados, sem armas) e as que tibetanos e repórteres têm confirmado (80 mortes confirmadas, soldados, tanques, tiros durante o dia). A resposta de meus alunos foi ‘é claro que eles dizem isso. Eles são estrangeiros. Eles não podem saber’. Tome isso simplesmente assim: mesmo quando confrontados com tamanha contradição, os estudantes chineses continuam acreditando em seu governo.

Isto não é nada inusual para muitos estudantes. Eu falo de censura. Eles sinceramente acreditam que a censura do governo os protege de mentiras e ‘coisas ruins’ (como uma sala de aula se referiu há um ano: quando eu perguntei o que eram ‘coisas ruins’, eles não tiveram respostas. Finalmente, um estudante disse ‘nós não sabemos, porque nosso governo nos protege disso!’). Eu sei que essa não é uma atitude universal aqui na China, mas eu considero esta uma anedota interessante e importante para se manter em mente ao observar o cidadão chinês mediano e sua resposta a censura ostensiva”.

__Hoje, há uma enxurrada de reportagens sobre os novos protestos, novas ondas de prisões e novos mortos e feridos relacionados aos protestos pela indepedência tibetana por toda zona autonôma do Tibete e por todo o mundo. Alguns blogs e notícias específicas sobre Tibete que estou acompanhando: Phayul; Canada Tibet Committee; SFT, TCHRD; a tourist in Tibet. Ver também Images and News of Tibet Riots Seep Onto Web, Despite Chinese Authorities’ Clampdown

(Obrigado Christal Smith, monkey e outros)

————
PS. Se você tem alguma correção da tradução deixe um comentário. Se gostaria de traduzir os links do texto acima para o Português, envie para panopticosp arroba yahoo ponto com ponto br, publique no seu blog e retorne um link para este artigo, e/ou publique em sites de publicação aberta como midiaindependente.org

Relacionados:
Replay 1, China 3, blog da Soninha
Apelo, blog da Soninha
O Tibete, a China, o boicote e uma sinuca de bico, Pedro Doria web blog

Technorati tags: tibet, china, censorship


4 comments Março 20, 2008

“Zonas-bolha”

Vamos começar a ver emergir “zonas-bolha” que são altamente funcionais, mas privatizadas, guardadas por segurança privada. De fato, grande parte do Terceiro Mundo funciona assim. Num país como a Indonésia, por exemplo, nunca existiu realmente uma infra-estrutura funcional… O que existe são comunidades fechadas que vão se expandindo. Tudo é privatizado no interior dos portões, incluindo a água e a eletricidade. É assim que funciona a Zona Verde no Iraque.

O que significa para os pobres é uma demarcação cada vez mais estruturada entre os que têm e os que não têm: mais proteção para os que têm, quer nas fronteiras dos países ou nas fronteiras dos bairros, mais cercas, mais muros, mais vigilância. Haverá cada vez mais controle dos chamados “ilegais” e será cada vez mais fácil ser sugado para o interior dessa infra-estrutura de segurança privada por qualquer pequena transgressão.

Naomi Klein, em Ocas nº57, Janeiro/fevereiro 2008 (entrevista originalmente publicada pela “Real Change News” street-papers.org)

Relacionados:
The Shock Doctrine by Alfonso Cuarón and Naomi Klein, vídeo
Garotos e garotas da bolha
Cidade privativa


Add comment Março 10, 2008

Família Senna, responsável… por escravidão

institutosenna.jpg

Aliciar homens em pousadas e bares para trabalho temporário, não forner equipamentos de segurança obrigatórios ao trabalho, pulverizar trabalhores com agrotóxicos (ao pulverizar plantações com aviões), obrigar a compra de mantimentos na loja do empregador, gerar dívida, restringir a saída do trabalhador da fazenda por conta desta dívida, proibir o contato com pessoas de fora da fazenda e disponibilizar alojamentos e refeitórios sem condições de higiene são algumas das ações de responsabilidade social da família Senna.

“Todo mundo tem potencial para ser um vencedor”, colabore para que continuemos escravizando seres humanos numa fazenda de seis mil hectares, apenas um de nossos bem sucedidos negócios.

Matéria completa:
Pai de Senna é acusado de trabalho escravo, Repórter Brasil


2 comments Fevereiro 14, 2008

1.000.000 de iraquianos mortos

bush.jpg

Mais um número para análise da sanguinária estratégia norte-americana de invasão ao Iraque. O exército bushiano considerou que, em média, mais de um indivíduo de cada família iraquiana era um perigoso terrorista e passou-lhe fogo. Bush está de saída, sai como se nada tivesse acontecido e deixa uma montanha de cadáveres para a humanidade recolher.

Uma empresa inglesa de pesquisa de opinião conduziu 2.414 entrevistas pessoais nas zonas urbanas e rurais do Iraque, abrangindo 15 de suas 18 províncias. Perguntou às pessoas quantas de seu núcleo familiar, se alguma, morreram por conta da invasão americana ocorrida em 2003.

A empresa apresenta o número de 1 milhão de mortos, com margem de erro de 1,7%, baseando-se para expansão no censo iraquiano de 1997 que relata 4,05 milhões de famílias no país.

A informação é da Reuters. Imagem da Brave New Films

Outra referência:
Iraq Body Count

Relacionados:
Iraq Conflict Has Killed A Million Iraqis: Survey, artigo, New York Times (em inglês)
Press Release e metodologia da pesquisa, Opinion Research Business (em inglês)


Add comment Janeiro 31, 2008

A coleta seletiva de que a prefeitura fala e a coleta de quem faz

carroca_mundano.jpg
Arte e foto: Mundano. Eu reciclo e você?. Todos os direitos reservados.

“São Paulo nos surpreende a cada dia”, nesta semana de aniversário da cidade, você provavelmente ouviu frase parecida. Bem verdade, pena que na maioria dos casos a surpresa é um atropelamento, camelôs correndo da polícia, guarda metropolitana espancando morador de rua…

Uma das surpresas dessa cidade que a todos acolhe baixou na manhã do dia 22/01 sobre o bairro do Glicério. Os catadores de materiais recicláveis que trabalham sob o viaduto do Glicério receberam um “corre que vamos levar tudo” de presente. A prefeitura queria limpar o depósito porque ele estava muito sujo, para isso levou sua melhor equipe de faxineiros, a Guarda Municipal Metropolitana. Não usaram vassouras, mas diante da resistência dos catadores organizados usou spray de pimenta para higienizar o direito ao trabalho.

Uma coisa é varejista milionário vender na marca “Compre Bem” enlatados para pobres com preços diferentes dos da gôndola e na marca “Pão de Açúcar” oferecer laranja descasca embaladas em isopor e carregadas em sacolinha plástica com mensagem para “um mundo melhor”. Ele joga o jogo, faz sua publicidade, se mente é coisa que o governo deveria conferir. Outra coisa muito diferente é o poder público perseguir o trabalhador que faz o trabalho que ela não faz ao mesmo tempo que estimula a reciclagem com frases tais “Programa de Coleta Seletiva da Prefeitura: Participe“.

Em dia de lançamento de projeto com coquetel para comemorar o convênio com associação de empresários todos são só amor à reciclagem. Mas a reciclagem deles é diferente, não tem pessoas coletando material descartado por toda a cidade, vendendo o material no mercado e comprando seus mantimentos.

Para a prefeitura trabalhar dentro das regras do capitalismo não pode, é sujo. Ela trata logo de desmontar um depósito de material aqui, chamar papelão de lixo contaminado ali, proibir carroças acolá, chamar carroceiro de animal logo adiante e assim segue seu argumento publicitário para dar a uma empresa amiga o lucro da coleta seletiva da cidade.

Os trabalhadores viram funcionários com salário mínimo, vale coxinha e cursinho de alfabetização para garantir a responsabilidade social; assim fica tudo dentro das regras do jogo do capitalismo brasileiro, garante-se o represamento do dinheiro e apaga a fúria da classe média contra os carroceiros que atrapalham o trânsito e enfeiam a paisagem de automóveis pretos e prateados.

Vozes e poderes de resistência dentro dos governos sempre haverá enquanto os cargos públicos não forem tomados por parentes e lobbistas. Quando um coordenador de ação social de subprefeitura diz que “a medida da subprefeitura é fazer uma grande limpeza, depois desta grande limpeza eles podem voltar a trabalhar normalmente aí” e leva a polícia junto vê-se que chegamos num ponto em que a única ação social é limpar da cidade os indesejados.

VÍDEO: Catadores Surpreendidos com Limpeza da Prefeitura, Rede Rua

Relacionados:
Catadores Surpreendidos com Limpeza da subprefeitura da Sé, notícia, Rede Rua
Operação Limpa no Bairro da Luz, Capitulo VII - Parte 2 do dossiê Violação dos Direitos Humanos no centro de São Paulo, Forúm Centro Vivo


Add comment Janeiro 28, 2008

Pedintentes e turistas

Correm descalços na areia escaldante, levam cervejas, caipirinhas, peixes, macaxeiras. Ao virarem as costas, o “doutor” lembra-se de algo “ô…”, o sal, o vinagrete… Vão e voltam com o esquecido. Assim vai o dia, correndo de um lado para o outro, cruzando seu trecho particular de deserto, “a conta”, “mais uma”, “mais uma cadeira”, “tá saindo?”. Trabalham para os bares, restaurantes e barracas oficiais da praia.

Os demais estão por conta. Eles e elas vendem camarão, queijo coalho (com mel, orégano ou alho), caranguejo, ostra fresca, passa de caju, cocada, brinco e pulseira, “trampo hippe”, tatuagem provisória, trança de cabelo, tererê, pastel, lanche natural, canga, biquíni, presilha de cabelo, origami de folhas naturais.

Guiam turistas por praias e cidades (sem compromisso), indicam pousadas e hotéis correndo atrás de carros na entrada de balneários, mentem necessidades e inventam estórias trágicas que amolecem o turista, armam e desarmam fileiras imensas de guarda-sóis, limpam praias para que os próximos voltem a sujar, lavam os pés dos turistas nas embarcações, ajudam a descer e a subir de bugs, barcos, vans e ônibus, mergulham em busca de cavalos-marinhos, levantam ancoras, recolhem velas, servem frutas, tiram fotos submarinas e terrestres, resgatam quase-afogados.

Perdidos em plena juventude. Sem ter o que fazer nos paraísos do planeta. Sem ter o que fazer em plena juventude. Fazem qualquer coisa por uns trocados. Inclusive acompanhar senhores durante algumas horas.

Os programas de incentivos ao turismo beneficiam apenas grandes agências de viagens, empresas de transporte e redes de hotéis e restaurantes.

O resto é miséria. São cidades desorganizadas onde o dinheiro dos turistas e impostos vão para não se sabe onde. Programas de fomento à venda disfarçada de mendicância, à servidão disfarçada de presteza, ao trabalho infantil disfarçado de bico de verão.

A alegria do povo brasileiro é uma de suas características mais evidentes e marcantes. Em cada cantinho do nosso País é possível provar da simpatia, do calor humano e da hospitalidade da população local. Fonte: Ministério do Turismo, Com quantos sorrisos se faz um país?

Sim, podemos ver a alegria com que eles nos servem.


3 comments Dezembro 19, 2007

Acidentes corporativos

Lendo esta tirinha dos malvados no contraponto e fuga me lembrei de um artigo muito emocionante de Jonatas Abbot.

O filho de Jonatas foi sugado pelo ralo aspirador da piscina de um grande e caro hotel do nordeste. O garoto ficou com o braço preso a 1,80m de profundidade, um amiginho gritou para o pai e três adultos salvaram o garoto sem titubeio algum.

O hotel que causou o acidente, deixando o ralo sem rede de proteção e com a bomba de aspiração ligada durante o horário de banho, mostrou-se preparado para, além de não socorrer, omitir-se, desrespeitar e culparar o acidentado de 7 anos pelo ocorrido.

O texto de Jonatas é dedicado aos salvadores de seu filho, reproduzo o trecho em que ele relata como, diante do poder do capital e dos valores corporativos, estamos perdendo nossos valores humanos mais básicos.

Jamais uma piscina pode ter ralo de fundo ligado em horário de banho. E jamais, jamais pode ficar sem tela de proteção. É colocar seus hóspedes em risco e inúmeras tragédias já ocorreram por isso. Pior do que isso é a atitude do gerente do hotel que tentou culpar o meu filho por estar na “piscina de adulto” quando não havia nenhuma sinalização, nem barreira e quando a piscina em questão tinha área de 1,20 e de 1,80m.

Meu filho nada e usa piscinas em todo o Brasil. Sua aula é numa “piscina de adulto”. Pior do que isso foi, apesar dos meus apelos, ninguém do hotel ter ido até o hospital conosco pelo menos para dar apoio, carona e etc. Culparam meu filho, uma criança de 7 anos sugada por um buraco criminoso que fez precisar da força de 3 homens e deixou um braço roxo com muito trauma mas nenhuma fratura. Infelizmente vivemos neste hotel a síntese da evolução do mundo corporativo, onde o consumidor interessa apenas quando desembolsa o dinheiro. As pessoas não valem nada para as empresas que correm a buscar um culpado e a sumir quando algo dá errado. Burros, acima de tudo muito burros.

Como consumidor eu queria apenas o bem estar do meu filho. Queria carinho segurança, o melhor hospital, quem sabe uma carona ? Não queria dinheiro. Recebi agressão, omissão de socorro (quando o pedi do hospital), preocupação com dinheiro. Sou cliente do hotel há 4 anos e comigo talvez ele perca um evento inteiro anual e pelo menos uns 15 hóspedes que a tudo isso testemunharam. Para encerrar o parágrafo do mal é preciso dizer que entendo um funcionário desleixado ou incompetente deixar uma bomba ligada, mas não entendo uma empresa inteira estar tão preparada para fugir de uma responsabilidade para não perder dinheiro.

Negar carinho e mão amiga a um consumidor que chegou perto da morte dentro de suas dependências. É a era da mediocridade e sinto muita pena das pessoas que convivem e se violentam trabalhando em empresas assim. Deveriam se envergonhar. Mas agradeço de coração a covardia do gerente que, desafiado por mim, desapareceu quando voltei do hospital, pois o que jurei que faria a ele pelo telefone era pouco e talvez agora eu não estivesse aqui abraçado ao amigo mais lindo e perfeito do mundo. O hotel que me impressionava pelo tamanho e estrutura, agora impressiona pela frieza. Sob susto, ameaças e uma inteligência suspeita pagaram os incríveis R$ 1.654,00 de 6 horas de hospitalização (somente este episódio e este valor dariam uma coluna a parte). Se pendurar em aviões e passar anos em tribunais ou viver cada segundo ao lado do meu filho? Ainda não decidimos…

Fonte: Aos heróis que salvaram a vida do meu filho, 12/10/2007. Todos os direitos reservados.

Leia o artigo completo


1 comment Dezembro 17, 2007

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