A indústria de cosméticos é aquela que produz campanhas mundiais sobre a beleza. Ela ensina desde cedo, da Ásia às Américas, como uma mulher deve parecer e ser.
Numa propaganda com edição rápida, música pop e verdade, o greenpeace contra-ataca uma das maiores anunciantes do mundo.
Vemos uma criança na primeira cena e segue-se uma seqüência de imagens de destruição de uma floresta, é o caminho da produção dos produtos da marca Dove.
98% das florestas de planície da Indonésia serão destruídas quando Azizah [a menina] tiver 25 anos de idade.
A maioria é destruída para fazer óleo de palma, usado nos produtos Dove.
Os carros ganharam camadas de aço mas não perderam o luxo. É chique desfilar pelas ruas num carro que resiste a tiros de fúzil.
Quem acha que estar num Jaguar blindado é mais seguro do que estar num carro comum sem blindagem só pode viver dentro de uma bolha e desconhecer completamente o que desejam os assaltantes.
Estar num carro é muito mais perigoso do que não estar em um. Não sei, mas estar num carro que suporta tiros parece logicamente assustador. Em vez de entregar o carro, a carteira, o relógio e tentar preservar sua vida, a vítima prefere dizer que não vai abrir o vidro e se colocar a espera dos disparos.
Mas o que o termo “blindagem” está fazendo no lugar do tradicional “fechamento” neste panfleto? Aparentemente, “fechar o corpo” é menos atrativo do que “blindagem”.
A composição de frases de impacto e a busca do termo ideal sempre foram obstinações da propaganda. E o marketing popular sabe que os apelos de ascensão social são dos mais eficientes. Não existe revista que custe R$1,99 que tenha uma mensagem do tipo “para você que não tem dinheiro suficiente”, assim como não existe um único sabonete que mostre uma mulher negra num chuveiro simples e fraquinho na embalagem.
No capitalismo globalizado quem é pobre precisa tomar emprestado símbolos de status, uma vez que as chances de ascensão real são quase nulas. A propaganda de produtos e serviços populares trabalha com este conceito básico, emprestar, através do consumo, uma sensação de menor pobreza aos que dela não escaparão.
Enquanto a blindagem se torna desejo comum entre a classe alta, a propaganda voltada ao povo preocupado com suas desventuras espirituais é, como sempre, rápida em assimilar os termos em voga entre os ricos e ajustá-los aos pobres.
No fundo estes marketeiros populares sabem que ambas as camadas querem a mesma coisa, subir. E o marketing está aí para isso. No plano real, cada camada continua no seu mundo. Como o isolamento completo não existe e a dinâmica de dependência e exploração entre elas é que tenta manter tudo como sempre esteve, quando a diferença entre iguais aumenta ainda mais, o ódio, a violência e o medo se espalham com o vento.
A imagem de propriedade da Folha Imagem sobre o protesto do MST e do MAB contra a privatização da Cesp trazia a inscrição “Fora Serra”, a revista IstoÉ simplesmente apagou a inscrição.
O impressionante é que a revista auto declarada Independente ainda mantém a imagem falsa no ar.
A reportagem do Brasil de fato é do dia 07/04. Abaixo a tela do site da revista no Terra, capturada hoje às 10:47
Texto muito relevante de Ethel Leon, que só li hoje via Fórum Centro Vivo.
Trecho:
(…) Em São Paulo, é fundamental que os futuros móveis incorporem serviços importantes, especialmente para a população de pedestres e usuária de transportes públicos. Até hoje, os abrigos de ônibus apresentam (quando apresentam) mapas mal desenhados; e raramente há informações sobre as linhas de ônibus.
Os atuais relógios (que marcam horas e temperatura) são, em realidade, enormes suportes publicitários. A empresa responsável por sua instalação é a Policrono, que teve renovado seu contrato com a Prefeitura até o final de 2008.
Seria desejável que eles fossem repensados. A Prefeitura poderia, por exemplo, exigir que uma percentagem dos relógios fosse destinado à propaganda de atividades culturais dos órgãos municipais e mesmo estaduais. Ou que fossem menores.
A cidade deve ficar “limpa” para tornar-se atrativa aos grandes negócios do mobiliário urbano. Nada impede, no entanto, que os novos móveis ofereçam serviços úteis à grande maioria. Designers, arquitetos urbanistas e população organizada podem, certamente, abrir espaço e contribuir nessas regulamentações.
Alguém resolve fazer comerciais com trilhas sonoras pop, sem diálogo ou texto, só o logotipo da marca na tela final e, pronto, esse tipo de filme de filme invadirá os televisores por meses. Alguém começa a privilegiar a cor azul ou verde no ambiente, como nos seriados norte-americanos e lá vem uma enxurrada desse tipo.
A moda agora é o tom bonzinho, um texto meio auto-ajuda acompanhado de uma narração tranqüila e de imagens fofinhas, como animações infantis. Este conceito vem vendendo carros, bancos e poderia vender armas.
O filme acima, segundo o narrador é uma pequena estória sobre “gente que faz”, que faz as coisas funcionarem melhor.
“E se plantássemos árvores ao redor de nossas fábricas e ajudássemos o ar a ficar mais limpo?”, pergunta o narrador.
E se criássemos tintas à base d’água? E se criássemos o carro solar? O carro hídrido? E um carro que emite água?
E se todos nós fôssemos empreendedores e fizéssemos as coisas de um jeito diferente?
Se não dirigíssemos quando não precisamos. Se dirigíssemos mais devagar no trânsito em vez de arrancar e frear? Se mativéssemos os pneus calibrados para economizar combustível? Se reduzíssemos a bagagem desnecessária dos carros?
Estas são as perguntas do estratagema publicitário. A responsabilidade de quem estimula certo comportamento é anulada e transferida com cuidado ao usuário. Vide história da indústria do tabaco.
Responderíamos que se todos fôssemos empreendedores e usássemos um carro, o mundo seria um estacionamento. Bom, na verdade, teríamos que empilhar carros em terra e espalhá-los sobre os oceanos. Poderíamos dizer que carros que soltam água pelo escapamento não são encontrados nas concessionárias Honda. Que é impossível que um mundo melhor esteja baseado no transporte individual motorizado e que, portanto, é inaceitável que um fabricante da impossibilidade e de um mundo pior nos diga quais são as possibilidades de um mundo melhor.
Mas deixemos que uma outra propaganda da Honda, digo, a fabricante do mundo real, a Honda das vendas de fato, responda à Honda boazinha, à Honda dos carros d’água. A Honda da publicidade boazinha que foca no público feminino (segmento de seu carro Honda Fit) quer que os motoristas dirijam devagar para economizar combustível, a Honda cabra macho quer “potência na potência máxima”. Ambos os públicos-alvos das campanhas só acreditam nestas campanhas, pois foram educados pelo consumo para o consumo.
Propaganda já significou valorizar os atributos do produto que está à venda. Mas ficou para atrás o tempo da negociação direta, do comerciante que sabe como cativar o cliente e que busca fechar o negócio considerando que está tratando com uma pessoa que merece respeito.
O tempo em que a comida era algo que se encontra na natureza também já passou. A comida estilo fast food é algo não identificado embalado numa foto bonita.
Dois projetos sensacionais na web, utilizam a simplicidade para desvendar a mentira descarada e evidenciar como é tratado o consumidor da era globalizada.
Uma foto da embalagem inteira, outra da imagem do alimento estampada na embalagem e, finalmente, outra do conteúdo real. E o projeto do Pundo 3000 deixa claro a distância entre realidade e propaganda. (clique nas imagens para ampliar)
“Para quem tem Isic, desconto na Chevrolet é item de série”
Afora para parte da classe média que quando o filho passa no vestibular, presenteia-o com um carro, estudar não tem nada a ver com dirigir.
Poderíamos pensar que, para o jovem que completa 18 anos e fez tudo segundo as regras (pagou propina ao instrutor ou despachante, ou não esbarrou na guia na hora da baliza), o carro é um instrumento que o permite colocar em prática um desejo, seja de liberdade, seja de independência ou qualquer outro.
Neste sentido, o carro seria um presente em reconhecimento ao esforço do jovem em ultrapassar a barreira do cruel sistema brasileiro de eliminação de candidatos. Parece-nos, porém, que, para o estudante e sua família, o carro é muito mais do que um presente.
Na classe média alta paulistana, uma espécie de ritual de passagem para a vida adulta inclui o carro. Em todas as sociedades, grandes mudanças pedem um objeto cheio de significado. Nada mais “natural” que a passagem do ensino médio a um concorrido curso superior seja representada pela imagem sacra mór que é o carro. Afinal, na sociedade do automóvel, parece ser nele e através dele que a experiência adulta se inicia, de fato.
O carro é um símbolo da vida adulta, como as calças cumpridas já foram um dia. É apetrecho obrigatório entre as classes mais altas; é apetrecho invejado e desejado entre as classes mais baixas. É “item de série” do estudante, como diz a propaganda acima.
Qual estudante?
A maioria das famílias brasileiras é pobre, conseqüentemente, a maioria dos estudantes é pobre. Mantém-se no ensino médio por obrigação, esperança de dias melhores ou falta de coisa melhor para fazer mesmo, uma vez que, em geral, a escola pública não é bem avaliada por ninguém.
A educação da maioria é daquelas áreas em que o governo está sempre investindo, pesquisando e declara prioritária. Uma área prioritária que quase não sai do lugar. Como essa maioria tem que dar um jeito de não virar suco. Depois de freqüentar a rede pública de ensino média, ela corre atrás do prejuízo na rede privada de ensino superior. Vira refém de “Unis” pilantras, cursos de especialização falsos e agências de recursos humanos 171.
Desde que empresas detectaram que a vontade de aprender e trabalhar é grande entre aqueles aprisionados pela falta de oportunidades no ensino público, é a livre concorrência quem regula a qualidade do ensino. O governo lava as mãos e larga a educação da nação aos cuidados de empresários, anos depois anuncia preocupação com o recorde de reprovações no exame da OAB.
O movimento estudantil foi para a casa do chapéu. Junto com a maioria dos sindicatos, viraram aparelhos burocráticos de cobrança de mensalidades e emissão de documentos.
As uniões estudantis calam-se sobre o oba-oba do ensino superior privado que abocanha salários de jovens trabalhadores interessados em ter uma vida mais confortável. Quando a idéia é se associar com multinacionais para vender carros aos estudantes que não precisam trabalhar oito horas por dia e podem pagar pelas prestações de um, mostram-se alertas e ativas.
Encontrar informações independentes sobre a situação no Tibete não é muito fácil. Traduzimos de forma amadora e bastante atrasada o relato-resumo “Tibet: nearly 1,000 jailed in Lhasa, Dalai Lama offers to resign”, de Xeni Jardin, publicado originalmente em Boing Boing, no dia 18/03. Os links contidos no texto não foram traduzidos, permanecem em inglês.
__Acima: vídeo do dia 15/03/2008 (capturado por celular). Milhares de monges protestam no mosteiro Xiahe em Labrang, província de Gansu na China
__Acima: Os corpos de oito manifestantes foram levados para dentro do mosteiro Ngaba Kirti, na área de Ngaba, ontem. A imagem de phayul.com indica que os observadores estão jogando dinheiro sobre os corpos, numa tradicional expressão de luto. Estudantes de Students for a Free Tibet relataram que mais de 20 manifestantes foram mortos em Ngaba. Aqui estão as fotos dos mortos (imagens fortes). Cópias das mesmas fotos aqui.
__Aqui a primeira impressão pessoal de Spende Palermo, técnico de som e documentarista de Oregon, que estava neste mosteiro trabalhando para um programa de TV da National Geographic no último sábado, quando irromperam os protestos. Quando seu trabalho acabou, ele enviou este e-mail para seus amigos, da China.
“Pesquisas na cidade dizem que 600 pessoas foram detidas no sábado e outras 300 no domingo. Não está claro onde estes grupos estão aprisionados, isso porque acredita-se que a principal prisão de Lhasa já esteja lotada.
Estes detidos podem ter sido levados para a prisão Número Um, no distrito de Sangyio, noroeste de Lhasa, que atualmente não estava em uso. Eles também podem ter sido levados para a prisão Número Quatro e para a nova prisão de Lhasa, no mesmo distrito que, recentemente, vinha sendo usado como centro de reeducação através do trabalho. Eles ainda podem ter sido levados para a nova prisão de Chushur, fora de Lhasa, local onde a maioria dos prisioneiros políticos são confinados após a condenação.”
Estas prisões são notórias violadoras dos Direitos Humanos no Tibete, como é Abu Ghaib no Iraque.
“’Se os tibetanos escolherem o caminho da violência, ele terá que renunciar, porque é completamente comprometido com a não-violência’, disse Tenzin Talha. ‘Ele renunciaria como líder político e chefe de Estado, mas não como Dalai Lama. Ele sempre será o Dalai Lama’”
“O que o Google fará para restaurar o acesso ao You Tube e ao Google News na China? A China é um grande mercado que o Google precisa estar. A empresa vai retirar voluntariamente todos os vídeos e notícias sobre o Tibete? Ou o governo chinês vai ter que descobrir sozinho como fazê-lo? Existe um precedente: na China, você não consegue encontrar na web muita informação sobre o protesto da Praça Celestial de 1989, incluindo aí a famosa imagem de um homem bloqueando sozinho uma fila de tanques de guerra.”
__O presidente George Bush retirou a China da lista dos maiores violadores dos Direitos Humanos apenas três dias antes da explosão de violência no Tibete. Dê uma olhada no editorial de hoje do New York Times, “China aterroriza o Tibete”:
“Em seu relatório anual sobre os Direitos Humanos em 190 países, o Departamento de Estado considerou que a avaliação de Beijing, de forma geral, permanece pobre. Mas, no que parece ser uma recompensa política ao governo, o Departamento retirou a China da lista de dez maiores violadores.
A China teve a chance de brilhar com a festa das Olímpiadas e a arruinou. Seus líderes terão que continuar a combater protestos e agitações – e com o endurecimento da reprovação internacional – até que assegure mais liberdade para todos seus cidadãos, incluindo tolerância religiosa e liberdade ao Tibete.”
__Muitos leitores do Boing Boing que estão na China têm relatado que eles não conseguem acessar nosso site sem censura, por conta do conteúdo relacionado ao Tibete. Chris, da china, explica:
“Desde que Boing Boing começou a escrever sobre o Tibete, ele tem sido freqüentemente bloqueado na China. Eu não acho que é um bloqueio muito específico como “You Tube está bloqueado”, mas sim que o grande Firewall (filtro) está encontrando a palavra-chave ‘Tibet’ e a bloqueando. Já está melhor, eu consigo carregar parte do site antes da mensagem ‘Connection Reset’ aparecer, mas não consigo carregar vídeos do You Tube (que está bloqueado) e imagens do Flickr (que parece ter sido bloqueado, novamente).
Eu posso acessar o site através de um proxy (gladder do firefox, fortemente recomendado), entretanto, vídeos continuam não funcionando, e são expecionalmente lentos.
Mais um ponto interessante. Eu vi rapidamente no Boing Boing sobre a antipatia dos chineses em relação aos ‘ingratos’ tibetanos. Este parece ser o consenso entre meus alunos. Eu dei a eles um artigo do NY Times para leitura e ressaltei a diferença entre as contas das autoridades chinesas (8 pessoas mortas, sem soldados, sem armas) e as que tibetanos e repórteres têm confirmado (80 mortes confirmadas, soldados, tanques, tiros durante o dia). A resposta de meus alunos foi ‘é claro que eles dizem isso. Eles são estrangeiros. Eles não podem saber’. Tome isso simplesmente assim: mesmo quando confrontados com tamanha contradição, os estudantes chineses continuam acreditando em seu governo.
Isto não é nada inusual para muitos estudantes. Eu falo de censura. Eles sinceramente acreditam que a censura do governo os protege de mentiras e ‘coisas ruins’ (como uma sala de aula se referiu há um ano: quando eu perguntei o que eram ‘coisas ruins’, eles não tiveram respostas. Finalmente, um estudante disse ‘nós não sabemos, porque nosso governo nos protege disso!’). Eu sei que essa não é uma atitude universal aqui na China, mas eu considero esta uma anedota interessante e importante para se manter em mente ao observar o cidadão chinês mediano e sua resposta a censura ostensiva”.
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PS. Se você tem alguma correção da tradução deixe um comentário. Se gostaria de traduzir os links do texto acima para o Português, envie para panopticosp arroba yahoo ponto com ponto br, publique no seu blog e retorne um link para este artigo, e/ou publique em sites de publicação aberta como midiaindependente.org
Foto: Yuri Alexandre. Todos os direitos reservados. Reprodução autorizada pelo autor.
A lei Cidade Limpa, deixou a cidade livre de publicidade, com algumas exceções, claro.
Quem detém os espaços onde é possível fazer propaganda dentro da lei em São Paulo? Na prática, prefeitura, governo estadual e empresas por estes controladas. Com a lei Cidade Limpa a exclusividade dos espaços publicitários está, basicamente, nas mãos do proponente da lei.
Quem pretende pegar um trem de metrô, logo perceberá que nos túneis subterrâneos a lei da Cidade Publicitária é a única vigente. Bilhetes, catracas, colunas de concreto, escadas rolantes, laterais dos vagões, televisores dentro dos trens estão tomados de imagens de cremes, chocolates, universidades mercenárias e financiamento de motocicletas.
Quem utiliza um metrô e um ônibus, além de deixar R$3,60 para o sistema, entende que dentro destes espaços públicos de transporte em massa, o território é outro. Eles não pertencem a São Paulo. Nestes territórios a publicidade feroz é permitida.
Nos ônibus, os televisores têm sido a alternativa mais usada para encher a paciência visual dos usuários. A empresa Tv Out se soma a outras, como BusTv e TVO, e tem permissão para entreter os usuários com piadas, previsões do horóscopo e notícias enquanto tenta vender Mclanches, motos e fogões. A empresa espera instalar seus televisores em 1.500 ônibus até o final de 2008.
Poderíamos pensar “foi uma boa deter a exclusividade da publicidade de rua da cidade; afinal, é grana entrando que será investida em melhorias do transporte público”. Não, não existe um único usuário diário do sistema de transporte de São Paulo que possa dizer que algo melhorou no metrô ou nos ônibus publicitários.
Na teoria do livre mercado, o governo concede a algumas empresas privadas o direito de explorar os lucros de serviços básicos. As empresas lucrariam algum, o governo fiscalizaria o trabalho e receberia o troco, que seria reinvestido no sistema.
Na prática do livre mercado, a escolha das empresas que terão permissão para lucrar nas ruas é viciada. O governo é parceiro de uma máfia. Fica com o prejuízo, tampa o buraco financeiro das empresas com o dinheiro público, deixa que a eficiência do lucro tome conta e larga o usuário, mesmo pagando tarifas caras, na mão. O governo, que achava que era parceiro, logo percebe-se refém e que, mesmo que quisesse, precisaria de uma operação policial para se livrar da máfia. Para manter o esquema, as relações obscuras entre público e privado vão se fortalecendo. Sempre em prejuízo do público.
Em São Paulo trânsito tem apenas um significado: carros. Carroceiros, ciclistas, pedestres, skatistas e usuários do transporte público são seres invisíveis. Na verdade, só são lembrados como aqueles que atrapalham o trânsito.
Para a grande mídia o fato começa a existir quando ele existe oficialmente ou quando um grande meio de comunicação diz que ele existe. Antes de um dos dois ocorrerem o fato não existe, e um jornalista não tem nada a ver com isso.
Por coincidência - ou não - a cidade atingiu este ano, oficialmente, a marca de 6 milhões de carros registrados; atingiu também recordes de congestionamentos, segundo a medição oficial feita pela CET.
Os anúncios oficiais viraram notícia. Com a sequência de recordes de congestionamentos, havia, diariamente, pauta para preencher folhas de jornal. Coisa boa, já que os jornais sempre pretendem manter quentinha uma pauta de interesse de seus clientes (a classe média motorista). As matérias? Preguiçosas. Nada de buscar opiniões dissonantes, pesquisar se os tais congestionamentos acontecem em toda a cidade ou não… Reproduze-se o índice da CET, colhe-se frases de alguém da prefeitura, de dois especialistas e pronto. Dois dias depois, mais do mesmo. Uma semana depois, lá vamos nós: “tantos quilômetros de congestionamentos” é a manchete, no texto os dados oficiais e as possíveis causas, as posições de dois especialistas e da CET.
Os congestionamentos tão mencionados durante as últimas semanas são de carros. A CET é a Companhia de Engenharia de Tráfego, mas é responsável apenas pelo tráfego de carros, pelo tráfego de uma minoria. Essa divisão das responsabilidades do trânsito de São Paulo é, pensando bem, um espelho da realidade cultural de supervalorização do carro e da divisão artificial dos diferentes “trânsitos” em que vivemos.
Num outro mundo, num mundo que existe independentemente da mídia e dos anúncios oficiais. Num mundo de fato, não num mundo de fatos jornalísticos. Num mundo que é invisível para a mídia, milhões de pessoas utilizam o transporte público e deixam as ruas mais livres para outras atividades. Não fossem os carros privados utilizarem todo este espaço público disponível.
No começo do mês, os usuários de ônibus do extremo sul da cidade cansaram de esperar pelo governo e pelo jornalismo e tocou fogo no circo. Não agüentam mais ficar até três horas parados no mesmo lugar e ninguém, a não ser eles próprios, se dar conta disso. Na “rádio que toca trânsito”, o protesto não virou notícia, apenas o congestionamento de carros virou [1].
Na zona oeste, os congestionamentos nos corredores preferenciais também estão próximos do limite da paciência de gente acostumada a ter muita paciência. Fotos como as desse artigo podem ser tiradas em qualquer dia, pela manhã, na Av. Francisco Morato. Mas os repórteres nunca estão lá, eles têm prioridades, como piscina de clube particular (ver “Sócios do Paulistano fazem mergulho coletivo para evitar o fim do ‘fundão’” - FSP, 10/03/20008).
Quem quiser ter idéia do tamanho do problema nos corredores de ônibus da periferia e não mora na região, pode ir até a Av. Dr. Arnaldo esquina com Teodoro Sampaio. Chegando por lá às 18h, basta memorizar o número de um ônibus, caminhar 15 minutos até a parada da Consolação com a Av. Paulista e esperar pelo ônibus que escolheu. Vai esperar cerca de 40 minutos e descobrirá que concentrar numa única parada quase todos os ônibus provenientes dos corredores da Rebouças, Dr. Arnaldo e Teodoro Sampaio é um desrespeito à inteligência coletiva.
Outra opção dentro do tal “centro expandido” é aparecer, no fim do expediente, na parada de ônibus da Av. Faria Lima com a Av. Rebouças. O observador sairá de lá com o mesmo pensamento: centenas de ônibus enfileirados num corredor e uma parada posicionada bem no cruzamento de avenidas enormes só pode ser coisa de especialista que não vai trabalhar de ônibus.
Feitos os exercícios, para se ter idéia do acontece nos corredores da Guarapiranga, por exemplo, basta multiplicar por três as situações observadas. Lembrar-se que a única alternativa, que é desistir da viagem de ônibus na metade do caminho e seguir quilômetros caminhando custa R$2,30. Lembrar-se que a humilhação mensal de ida e volta soma o equivalente a quase 30% do salário mínimo do trabalhador. Lembrar-se que isso acontece todo santo dia e que todos estes usuários e usuárias passam pelo constrangimento de pedir desculpas ao patrão pelo atraso (a saber, várias pessoas já perderam os empregos por freqüentemente chegarem atrasadas ao trabalho).
[1] Errata: Havíamos dito aqui que neste corredor a espera era de até 40 minutos, na verdade ela é de pelo menos 40 minutos.
PS 1. No cruzamento da Av. Rebouças com a Av. Faria Lima os carros não param no semáforo, utilizam o túnel milhionário, logo no andar de baixo da fila indiana de ônibus.
PS 2. Em vez do congestionamento de carros, Ricardo Sangiovanni e José Ernesto Credendio
destacaram o protesto na zona sul na reportagem “Protesto contra ônibus lento fecha via por 6 h” publicada na Folha de S. Paulo. Pena que ficou nisso, não houve nenhuma continuidade.