Arquivo para outubro 2010
Cyrela maquia entorno de empreendimento e camufla prédio abandonado
O centro, certamente, está entre os melhores bairros de São Paulo. Objeto de uma atrapalhada campanha de “revitalização” governamental para atração da classe média, a área começa a entrar no mapa das incorporadoras imobiliárias.
A questão é que a classe média não se adapta em qualquer habitat. Seus membros, mesmo os jovens e saudáveis, necessitam não apenas de um ninho bom, precisam de um que pareça bom.
A incorporadora Cyrela vai construir um prédio moderno no bairro e chegou com tudo. Dirigindo sua publicidade para jovens, lançou concurso de fotos sobre o centro – com computador apple como prêmio -, fez campanha no twitter e em bares badalados da região.
No material publicitário se lê que o prédio estará “completamente integrado com a Rua Avanhandava”, a rua vizinha cheia de restaurantes. Anos atrás, o dono dos restaurantes decidiu fazer sua própria decoração na rua para atrair turistas e formou o que chamou de boulevard. Nesta, a faixa de pedestres, por exemplo, foi apagada da esquina (este ano, após cinco, ela voltou).
O prédio da antiga sede do INSS, abandonado há duas décadas, também é vizinho do Mood – como se chama o edifício da Cyrela. Ele já foi ocupado pelo menos três vezes por famílias sem-teto, que pedem que seja dado uso ao espaço.
Escamotear a realidade, camuflando os prédios abandonados pelo governo e escondendo a vida das kitnets do quarteirão, foi a primeira tarefa da incorporadora.

A parede de fundos do prédio do INSS, vizinho do novo empreendimento imobiliário, em março de 2008.

A mesma parede, em julho de 2010, após camuflagem

A parede de outro prédio ao lado, em maio de 2007.

Vista do muro onde se viam vários grafites, em julho de 2010.

O muro do prédio abandonado decorado com imagens de São Paulo e o stand do empreendimento, em julho de 2010.

Visão dos fundos do prédio do INSS durante uma das ocupações, em abril de 2010. Imagens do interior da ocupação aqui

A família de Rosnéia, que, após ser despejada do prédio, foi para baixo do viaduto. No dia seguinte, sua família foi também expulsa da calçada. Mais imagens aqui

Segundo a incorporadora, um boulevard. Cadeirantes não são bem-vindos.
Na manhã de 4 de outubro de 2010, o prédio foi novamente ocupado pela Frente de Luta por Moradia. Os manifestantes pedem o cumprimento do Termo de Compromisso entre os governos federal, estadual e municipal para habitação de interesse social.
Em uma semana, a incorporadora maquiou o entorno e deu um banho de loja em todos os vizinhos feios e indesejados. O prédio do INSS não abriga uma só pessoa há 20 anos.
Contando com a apatia executiva e a visão limitada do judiciário sobre a função social da propriedade, quando a primeiro petisco for servido no espaço gourmet do Mood, com o auxílio dos governos revitalizadores, muita gente que vive há anos no entorno deve ter seus aluguéis inflados pela valorização da região e terá que rumar para a periferia com sua escova de dentes.





