Arquivo para novembro 2009
Cidade das artes?
A “Praça das artes” é mais um passo na descoordenada tentativa municipal de “revitalizar” o centro. A revitalização da demolição e expulsão dos pobres.

Antes. Cinema pornô (e grafite ilegal)

Depois. Futuras instalações do conjunto de orquestra sinfônica municipal, coral, estacionamento, escola de música e centro de documentação
Quem circula pelo centro, e tem olhos não embaçados pelas Globos e Vejas da vida, sabe que há vida no bairro. As pessoas moram, trabalham, vão ao mercado, à escola, ao bar, como em qualquer bairro da cidade.
De que “vida”, então, fala a revitalização do centro de São Paulo? Fala da vida de “classe média”.
Empreendimentos culturais como Sala São Paulo e Museu da língua e o incentivo a instalação de centros privados como CCBB e Sesc 24 de maio foram e são o pilar desse projeto. Junto a essas iniciativas as condições para que a classe média circulasse eram colocadas em prática.
Primeiro pela modificação da estrutura urbana do bairro. Como vão chegar ao Sesc da 24? Retiremos o calçadão e haverá espaço para o “vallet”. Há insegurança p/ caminhar até o CCBB? Coloquemos uma van para recolher o pessoal no estacionamento. Há moradores de rua demais na praças? Retiremos todos os bancos onde se deitam, plantemos espinhos.
Segundo, pela criação de regras de ocupação para tornar a área mais “bonita”. Assim, perseguição sistemática a camelôs; tomada dos objetos dos moradores de rua; proibição da distribuição de comida aos sem-teto; proibição da circulação de carroças de recicláveis e o fechamento de estabelecimentos populares, como bares e pensões, se tornou rotina no centro. Na sofisticada São Paulo até a instalação de toldos em todos os bares e cafés foi exigida.
Enquanto casamentos de celebridades eram realizados na Sala São Paulo e a Prefeitura propagandeava seu “choque de cultura” através dos jornais, os traficantes de crack expandiram seu negócio e criaram uma massa de seguidores viciados.
Quando a fumaça dos cachimbos ameaçou estragar a imagem política de alguns, a solução, mais uma vez, foi a limpeza social, com a polícia enchendo ônibus de viciados com destino a delegacia.
Enfim, a revitalização não deu certo. A classe média continua lotando shoppings, Cirque du Solei e super-produções musicais enquanto, afora eventos extraordinários, despreza o centro.

Prédio lacrado (e grafite oficial)
Aos moradores das áreas que receberam algumas melhorias sobrou o aumento do aluguel gerado pela especulação imobiliária. Muitos foram simplesmente expulsos de suas casas.
Como a imagem de certos candidatos nas próximas eleições está ligada ao sucesso da revitalização, as tentativas tem que continuar.
A decisão de leiloar um bairro inteiro e passar a bola para as tão confiáveis construtoras imobiliárias foi a última grande demonstração de incompetência administrativa e desprezo pela população e pelo patrimônio público.
No momento, para justificar as centenas de promessas e bilhões gastos, conquistar a simpatia da classe média é tão importante quanto erguer desesperadamente novos centros culturais. E a arte continua servindo muito bem a este propósito. Afinal, quem seria contra um centro de artes ou contra eventos artísticos?
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O parque – e as pessoas – que a classe média não vê
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Como expulsar drogados, mendigos e outros estorvos, artigo, Blog do Sakamoto
Oficial: contra lotação, a solução do metrô de SP é distrair a população

Pág. II, Diário Oficial SP – Poder Executivo, 16/11/2009
O metrô de São Paulo, aquele da propagandeada “Expansão”, está impossível, o limite do insuportável já passou faz tempo e as pessoas não tem alternativa senão esperar horas por um trem suportável (leia-se lotado, mas que um não lutador de jiu-jítsu consegue entrar).
O desprezo pelo usuário de transporte público é tal que o governo tem a pachorra de publicar a notícia acima em seu veículo oficial. Que manchete é essa? Descontração enquanto aguarda trem mais vazio?!
Perceba a falta de noção da legenda da foto principal: “Antes, ficava na Praça do Patriarca até as 8 horas antes de voltar para casa”. Por conta da lotação, o cara perdia duas horas do dia por aí, agora continua perdendo as mesmas duas horas, mas dentro da estação. Que avanço!
Grande política de transporte: banquinho e violão. Ótimo! Se esta política avançar já estou vendo o sucesso de, quem sabe, uma “secretária do teatrinho de transporte”. Estaria em perfeita sintonia com recentes os importantes avanços da área, como a novelinha no busão e o Bilhete único do endividamento.
O parque e as pessoas que a classe média não vê
69 – Praça da luz / 69 – Luz Square from Bruno Zanardo on Vimeo.
69 – Praça da Luz
Sinopse: Prostitutas de idade avançada ganham a vida na Praça da Luz, em São Paulo. Relatos inusitados e surpreendentes de cinco mulheres que revelam em detalhes suas experiências em todos esses anos de profissão.
Central, em frente a uma estação de metrô e trem, de importância histórica, espelhos d’água, lagos, coreto, flora variada, parque infantil, bosques com exemplares raros. Tudo reformado.
Nada disso faz a classe média olhar para o primeiro parque da cidade, o Parque da Luz. Parece que a lotação, o lago poluído e as enormes filas de carros do Parque do Ibirapuera seduziram os paulistanos de tal forma que os demais parques da cidade para pouco prestam. Deve ser algum encanto, talvez das notas musicais da fonte iluminada brega.
O Parque da Luz foi reformado justamente para atrair a classe média. Melhor dizendo, na novilíngua ele foi “revitalizado”. Queriam nova vida para o pioneiro jardim? Hummm, claro, mas queriam, principalmente, pessoas com outra vida, digamos. Queriam que a pobrada pegasse sua farofa e filhos e procurasse outro canto, descolasse um outro “piscinão de ramos de asfalto” qualquer.
Não deu certo. O encanto do Ibirapuera é tão forte quanto o medo que a classe média sente do centro da cidade. Não exatamente do “centro”. É mais um medo das pessoas que por suas ruas andam. Todos tão diferentes dos bairros que residem, diferentes do “pessoal da facu”, das outras mães da escolinha dos filhos.
Até mesmo a Pinacoteca, que fica dentro do Parque da Luz, tem as mesinhas de seu simpático Café delimitadas por uma espécie de cerca verde, separando os Parque e Museu.
Este vídeo de 2007 é para lembrarmos quem são as pessoas que tanto assustam a classe média.
É impossível encontrar a perversidade, a degradação e o perigo generalizado apregoados pelas revistas semanais quando falam do centro da cidade.
Uma última observação. De 2007 para cá, a permanência das prostitutas do local só ficou mais difícil. Atualmente, quem dá vida ao local não são pessoas de meia idade treinando para a corrida do Pão de Açúcar, e sim famílias que vivem próximas ao parque, especialmente bolivianas.
Negros, eternos suspeitos
O Circo Voador fez um teste simples sobre racismo: o teste da porta de banco, em vídeo
Uma bolsa cheia de chaves. Um jovem branco e um negro. O branco entra no banco em 5 segundos, já o negro…
(links p/ o vídeo e a propaganda Itaú via @marioamaya)
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Os “suspeitos” de sempre e os “jovens” de sempre, artigo, Panóptico




