Panóptico

Arquivo para julho 2009

Deixe de depender dos outros

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dafra
Propaganda veiculada no Metrô News, jornal distribuído nas estações do metrô de São Paulo.

A moto está entre os bens mais desejados pelos jovens assalariados com instrução média e capacidade de compra, ou como chamam, a classe C. Compete com o celular. Em comum, a facilidade oferecida ao portador de incrementar seu status social.

Um problema sempre por resolverem é como sair do bairro periférico onde moram e chegar ao trabalho com decência. Sem serem espremidos num ônibus durante horas, esperarem cinco trens do metrô passarem para conseguir entrar e, por fim, não chegarem atrasados ao trabalho. Tudo isso por quase quatro reais. E ainda tem a volta.

Durante o trajeto de metrô invariavelmente este jovem atendente de telemarketing dá de cara com anúncios. Primeiro, de motos; segundo, de cursos superiores e profissionalizantes.

Quem tolera gastar boa parte de seu salário para sofrer dentro de ônibus e trens? Quem tolera trabalhar a semana toda e esperar mais de uma hora no ponto de ônibus para ir até a casa da namorada num sábado à noite? Quem não gostaria de deixar um pouco o bairro sem grandes atrativos de lazer e pegar um cinema na Paulista? Agora, quem encara a espera e a série de baldeações do transporte público num final de semana?

Fazer uma faculdade (que facilita o pagamento), comprar uma moto (que facilita o pagamento), trocar o celular (que facilita o pagamento) e, quem sabe, um curso complementar (que facilita o pagamento) são parte de um pacote de ascensão social, constantemente na mente dos jovens trabalhadores.

“Deixe esta vida para trás”, esta é a idéia. Chega de pegar carona para cair na balada, para levar a mãe na consulta médica, chega de levar três horas para chegar ao trabalho, de ir sempre ao boteco mais próximo por falta de transporte.

Se o gasto mensal com transporte público equivale à prestação de uma moto em 48 vezes. Por que ser irracional e deixar de adquirir conforto, rapidez, status e um bem que pode ser vendido?

Afinal, a luta pela melhoria do transporte coletivo terá resultado, se o tiver, num prazo inestimável, certamente longo. E as soluções individuais trazem para a pessoa um benefício hoje. É uma disputa desigual.

Comprar uma moto em 48 vezes e já no próximo final de semana ter suas chances com as mulheres aumentadas, como propagandeado a cada intervalo comercial, ou encarar uma longa luta pelo transporte público de qualidade? Este é o desafio que qualquer luta por direitos enfrenta hoje.

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Cansado de esperar, artigo, Panóptico

Escrito por panopticosp

julho 30, 2009 em 19:47

Publicado em publicidade, transporte

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Governando através da janelinha do carro, uma coletânea de Andrea Matarazzo

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moradorrua

Entre as medidas para a “revitalização” do centro de São Paulo está dar um jeito de sumir com as pessoas em situação de rua. Eles enfeiam o bairro e espantam a classe média consumidora.

Para a prefeitura de São Paulo, “revitalizar” o centro é mais importante do que “revitalizar” as pessoas que não tem onde se abrigar. Já que a prefeitura não pode simplesmente matá-los, a solução encontrada foi levá-los à morte.

A distribuição de comida, por exemplo, feita por entidades religiosas e outros grupos foi proibida na área central. Ou seja, é proibido oferecer comida a quem você acha que precisa. Multar um grupo de pessoas que doa uma cumbuca de sopa para quem está congelando na rua, parece-me o resumo mais conciso da perversidade da atual política para o centro.

Na madrugada paulistana, guardas municipais espantam quem dorme nas ruas com a esperada delicadeza, enquanto a equipe de garis recolhe colchões, sacolas, papelão e outros pertences. O caminhão-pipa lava as calçadas e escadarias; as pessoas, então, zanzam sem rumo.

É crime ser miserável. E é crime defender seus direitos.

O secretário das subprefeituras Andrea Matarazzo, um pouco em baixa nos bastidores do poder paulistano, encontrou uma boa forma de propagandear suas idéias: postar no twitter. Com a promessa de atender a população diretamente através do canal, as frases postadas revelam, num tom politicamente correto, sua forma de pensar.

Eis algumas frases do Secretário, seguidas de nossos comentários.

No centro, muitos moradores de rua nas marquises da Av são joão (no início num bingo abandonado) e na Boa vista. Centro velho esta quase bom

Poxa, o centro está quase bom. Se todos os moradores de rua morressem de uma vez só, ficaria ótimo.

Não tem perigo. O que é sim, é muito triste. Claro q não desço do carro. Embora os dependentes da novaluz não oferecem perigo

Conheço bem a realidade. Vou sozinho, guiando. Um pouco de segurança é preciso. Vou quase todas as noites [à Luz, chamada por muitos de "cracolândia"]

Trata-se de uma técnica de observação da fauna selvagem? Uma técnica de camuflagem? Ou é apenas a sensação de segurança trazida por uma tonelada de aço com arranque rápido? Se “não tem perigo” qual seria o motivo de “conhecer a realidade” de dentro do carro? Quem seriam os perigosos? Os moradores do bairro?

Na Novaluz foram lacrados e emparedados 22 estabelecimentos entre ontem e hoje. Maioria botecos ou depósitos.Outras áreas do centro em ordem

Secretário, ontem, passando de carro por uma rua do centro, parei no semáforo e pude ver, em frente a um casarão antigo, um punhado de pessoas conversando. Uma criançada danada correndo, alguns bebendo, uma bagunça. Fiquei imaginando como aquelas pessoas podiam morar naquele lugar. Deve ser uma pensão ou até imóvel invadido, não sei, mas sei que o local era totalmente insalubre e sem qualquer segurança.

Poucos metros a frente, avistei três botecos, um ao lado do outro. Nem botecos eram, eram dessas portinhas onde se juntam bêbados, desempregados e mulheres que gostam dessa vida.

Como sei que o senhor é o secretário que mais se dedica ao centro, peço providências. Lugares nestas condições não podem ser tolerados. Muito menos no centro, onde começou esta cidade que tanto amamos.

Moradores de locais interditados em operação no Centro de SP não aceitam ir para abrigos da prefeitura, reportagem, Rácio CBN
Para Andrea Matarazzo catadores são problema, artigo, Panóptico
Centro Vivo, artigo, Panóptico
”É difícil ganhar uma eleição twittando”, reportagem e entrevista, Estadão

Escrito por panopticosp

julho 27, 2009 em 12:31

Publicado em mídia, política

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Nos calçadões de SP, carros são bem-vindos

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Outro dia o secretário Andrea Matarazzo disse que os câmelos ocupam o espaço público e que não daria trégua a estes “distribuidores de contrabando”.

Entretanto, quem visita São Paulo sai daqui com ao menos uma certeza: o espaço público da cidade tem um único dono, o automóvel.

Nos últimos anos, o processo de abertura de avenidas e ruas, nos mais variados bairros, se intensificou. E o centro da cidade não escapou. Quando cada uma das faladas reformas de “revitalização” acaba, pode esperar: onde havia um largo, um calçadão, um espaço qualquer dando mole, surgirá uma rua para carros.

Nos calçadões do centro, todos os dias se vê câmelos correndo e, claro, carros circulando. Geralmente, são carros “especiais”. Carros-forte, carros do tribunal, da prefeitura, das secretarias, de todas as policias imagináveis, carros de centros culturais, e assim vai.

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Trata-se de uma tolerância infinita com os automóveis. Os direitos dos pedestres, simplesmente, não são conhecidos e, portanto, não são fiscalizados.

Em qualquer cidade descente espera-se que num domingo de feriado as pessoas desfrutem do centro, que os turistas possam caminhar, passear, fotografar. Em São Paulo, o que se vê são, além de trabalhadores apressados, grupos de turistas perdidos dando com a cara na porta de prédios históricos.

No último domingo, mais uma vez, tinhamos o desprezo pelo espaço público materializado numa só cena. Guardas municipais com o celular em mãos, tirando fotos e admirando os carros coloridos sobre o calçadão. Ao lado, moradores de rua, apequenados a sua condição, aguardando a noite cair, quando os mesmos guardas os expulsarão das calçadas.

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Mas quem enxerga desrepeito na invasão das calçadas? Ao questionar o fiscalizador, sempre são grandes as chances de você receber como resposta um “é rapidinho”, “é domingo”, “dá pra passar”, “não está incomodando ninguém”

Tiramos algumas fotos e fomos perguntar aos guardas metropolitanos o óbvio.

Panóptico: Vocês já ligaram para a CET?
Guarda Municipal 1: CET?! Mas por quê?
Panóptico: Aqui é área exclusiva de pedestres. Pelo menos é o que diz a placa.
Guarda Municipal 1: Hoje é domingo, não tem problema.
Panóptico: Não ligaram?
Guarda Municipal 1: Não precisa.
Panóptico: Eu vou dar uma ligadinha, então.
Guarda Municipal 2: Foi autorizado.
Panóptico: Tá certo.

Dois minutos depois, sabendo que haviam sido registrados pela câmera, ligaram a viatura e se mandaram. O poder de uma câmera fotográfica grande é impressionante. Seria um repórter ou algo assim? Melhor não arriscar.

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Escrito por panopticosp

julho 14, 2009 em 22:58

Natura desrespeita lei Cidade Limpa

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Mais uma mega empresa faz a prefeitura de São Paulo de otária.

Com o tema “poesia concreta” diversos letreiros gigantes foram instalados na cidade. Com autorização municipal, os letreiros exibem as palavras “descanse”, “relaxe” e outras que remetem ao questionamento da rotina na metrópole.

A questão é que a empresa de cosméticos Natura veicula campanha da linha de produtos “Todo dia” tratando do mesmo tema. A campanha propõe a valorização da rotina e dos pequenos momentos que compõe o dia a dia. Obviamente, as imagens e mensagens leves e fofinhas vendem a idéia de que o uso de cosméticos deve ser incorporado à rotina de toda mulher.

Além do vídeo do tal dia a dia, que diz que é preciso “resgatar os momentos que estamos perdendo nessa rotina maluca”, a Natura tem uma campanha de… Poesia concreta, claro.

O jornal Folha de S. Paulo traz hoje, 14/07, boa reportagem crítica apontando a mensagem subliminar das instalações e registrando as declarações da presidente da Emurb, de um dos artistas e da Natura. Segundo o jornal, a Natura afirmou que apoia o projeto “Poesia Concreta”, do grupo artístico Bijari, mas ressaltou que “não veicula sua publicidade em mídias que interfiram na paisagem urbana”.

Em abril, a Vodca Absolut também desafiou a lei fazendo uso da mesma arte. A empresa instalou, em diversos pontos da cidade, globos espelhados sem logotipos ou qualquer outra publicidade evidente. Os globos remetiam a sua campanha “Absolut disco”, veiculada em diversos meios.

Escrito por panopticosp

julho 14, 2009 em 10:07

Publicado em cultura urbana, publicidade

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Bicycle Film Festival 2009

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Bicycle film festival, a celebração da bicicleta através de filmes, arte e música

Escrito por panopticosp

julho 8, 2009 em 21:19

Publicado em cultura urbana, transporte

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Protegidos e Desprotegidos

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Os abençoados, os bem recebidos, os acolhidos, quem são?

Igreja Consolação 02

Quem são os protegidos? Quem está do lado de dentro, guardado, olhado?

Sé

Os que dão com a porta na cara, que aguardam do lado de fora, que ameaçam, que definham e clamam, quem são?

Praça da Se rua 01

Igreja Consolação 05

E que tão elevado símbolo a cidade recebeu no mês passado! Após dois mil anos uma seguradora de automóveis, cordialmente e em letras bem grandes, fincou seu nome em praça pública ao homenagear o Apóstolo Paulo. Aos seus pés, pobres e miseráveis admiram a novidade. Certamente, um novo marco da cidade. Um símbolo de sua estreita ligação entre seus governos e a indústria do automóvel.

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Placa1

As imagens são da Praça da Sé e sua catedral, e da Igreja da Consolação.

A Igreja da Consolação está rifando um carro em prol da restauração do prédio, para tal acolheu sob seu santo teto o iluminado Volkswagen.

A catedral da Sé é cercada por grades, de forma a evitar que desabrigados se deitem junto a suas colunas. Todos os dias, do lado de dentro das grades, santos automóveis lá descansam, protegidos dos infiéis.

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Amém, Automóvel, artigo, Apocalipse Motorizado

Escrito por panopticosp

julho 6, 2009 em 15:51

Publicado em política, transporte

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