Arquivo para junho 2009
O perigoso vendedor de toucas de lã contra as cinco viaturas da Guarda Municipal
Vídeo: mauriciommaia
Na última segunda-feira, mais um perigoso vendedor ambulante foi preso pela Guarda Civil Metropolitana – GCM.
Ele vendia toucas de inverno não aprovadas pela lei municipal “0023 – Coleção Outono-Inverno 2009″, sancionada no último mês.
Segundo a dupla de guardas responsável pela abordagem foi necessário jogar o vendedor no chão, imobilizá-lo no asfalto e requerer reforço de quatro viaturas armadas. Isso porque a matéria-prima dos aquecedores de cabeça era perigosa e fora reprovada pelo órgão municipal competente, ao apresentar Índice de Requinte 3.
Nossa reportagem procurou a administração municipal e teve acesso aos documentos do IMCR – Instituto Municipal de Controle do Requinte, responsável pela formulação e publicação do Índice de Requinte São Paulo.
O documento lista artigos variados, modelos, materiais e dá outras providências. A Subseção VII trata de “Chapéus, toucas, bonés e acessórios para a cabeça”, constando no artigo 36 a interdição para toucas de lã.
O gênero alimentício também foi contemplado pela publicação. Abacaxis doces, mangas frescas e melancias suculentas estão entre os artigos proibidos.
Procurada, a GCM encaminhou ao Panóptico cópia de ofício do gabinete do Instituto de Controle do Requinte. Nele, lê-se:
Lã: 1. junta bolinhas deselegantes, 2. volumoso, 3. barato
Classificação: 3. Nível de requinte: grave.
Recolham-se os artigos que levam, total ou parcialmente, em sua formulação esta matéria-prima.
Removam-se aos distritos policiais aqueles envolvidos na sua fabricação ou distribuição.
Na oportunidade, renovamos nossa mais elevada estimada por esta valiosa guarda.
Andrea Matarazzo
Nossa reportagem não conseguiu contato com Matarazzo. Em nota, o Instituto de Controle do Requinte afirma que a prefeitura de São Paulo iniciará, em breve, um programa de incentivo ao uso da caxemira, material aprovado pela equipe técnica do Instituto.
PS. Aos leitores mais perdidos: vídeo real; texto ficcional, qualquer semelhança com fatos ou personagens reais não é mera coincidência
Prefeitura de SP ergue obstáculo antimorador de rua ao redor das árvores da Praça da Sé
As árvores da Praça da Sé ganharam muretinhas de paralelepípedo e brita para desestimular as pessoas em situação de rua a se deitar sob elas.
Nas últimas duas semanas equipes da prefeitura vem trabalhando na instalação do obstáculo.
As árvores da Praça eram margeadas por grades de ferro, como as que se vê abaixo.
Os cérebros municipais parecem não parar de pensar em formas de sumir com as vítimas do desemprego e das políticas de moradia.
Há dois anos a Praça da Sé passou por uma grande reforma, chamada de revitalização, basicamente se prestou a instalar equipamentos antimoradores de rua, como fontes d’água cercadas por brejos para impedir o banho e bancos antisoneca.
“Com certeza, eles estão colocando as pedras para atrapalhar a gente. É lógico. Toda noite a CGM chega chutando, jogando água”, nos disse ontem um “morador” da Praça.
Felizmente, como se vê, a arquitetura não é eficiente em seu objetivo higienista.
Relacionados:
Como expulsar drogados, mendigos e outros estorvos, artigo, Blog do Sakamoto
Por que construímos praças?
Para Andrea Matarazzo catadores são problema
400 famílias são expulsas de prédio; na rua, são ameaçadas por policiais
Na semana passada, dia 16 de julho, cerca de 400 famílias foram despejadas do prédio do INSS na Avenida Nove de Julho.
Por força de medida judicial, as famílias tiveram de abandonar o imóvel e ceder lugar às baratas.
Durante a noite, a retirada dos pertences aconteceu sem tensão e cerca de cinco caminhões baú levavam os móveis para um depósito.
A maioria das pessoas não tinha a quem recorrer e dormiu sob os viadutos próximos ao prédio.
Às famílias foi oferecido passagem rodoviária de volta para cidade natal. Opção descartada pela imensa maioria, uma vez que mantém vínculos afetivos e profissionais na capital.
Também foi ofertado abrigo nos albergues municipais Boracéia, COM-Metodista, Lygia Jardim e Portal do Futuro. Opção considerada risível, já que os albergues em época de frio na cidade estão ainda mais lotados, e a prefeitura municipal, ignorando o aumento do número de pessoas em situação de rua, fechou, recentemente, vários deles.
Desabrigados são ameaçados por policiais
Após uma desocupação sem incidentes, na noite seguinte, policiais militares e membros da Força Tática se dirigiram ao local e passaram a ameaçar os desabrigados, exigindo que se retirassem das ruas.
A ilegalidade da ação e desumanidade dos policiais que ameaçavam indistintamente crianças e idosos revoltou os sem-teto. Em protesto, eles interditaram a Avenida 9 de julho. A polícia reprimiu a manifestação lançando bombas e utilizando a força.
Famílias são expulsas da rua
Após uma semana sendo acossados pelas forças policias, os sem-teto permaneciam no local. Unidos e sem ter para onde ir, exigiam moradia digna.
No dia 22, segunda-feira, a Guarda Civil Metropolitana e a Polícia Militar cumpriram ordem da Prefeitura de SP e deram um ultimato aos sem-teto.
Após acordo com a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social, um espaço sob o viaduto Nove de Julho, emparedado há anos e totalmente insalubre, foi destinado às pessoas.
Histórico
A antiga sede do INSS na Nove de julho, também com entrada pela Rua Álvaro de Carvalho, havia sido ocupada na noite do dia 12 de abril numa ação simultânea da Frente de Luta por Moradia (FLM).
Na ocasião, sete imóveis abandonados ganharam função social, inclusive o edifício da Avenida Prestes Maia, nº 911, símbolo do descaso do poder público e da luta por moradia.
Passados cerca de dois meses, dois imóveis continuam ocupados, um terreno na Avenida Teotônio Vilela (zona sul) que pertence ao INSS e o acampamento Alto Alegre, em São Matheus (zona leste).
Assista ao depoimento de alguns ex-moradores do prédio, numa reportagem do Outro Olhar
Relacionados:
Erro grave do juiz desocupa 200 pessoas, 68 crianças, artigo, Vi o mundo
Nove de Julho: mais 400 famílias nas ruas, reportagem, Fórum Centro Vivo
Fotos do dia do despejo, Panóptico
Folha ignora violência homofóbica
Sobre a Parada Gay de São Paulo, que ocorreu no último domingo, a Folha de S. Paulo, publicou um parágrafo revelador de sua ideologia.
No episódio mais grave, por volta das 22h, o morador de um edifício na avenida Vieira de Carvalho (centro) se irritou com o barulho de pessoas que dispersaram da festa e jogou uma bomba caseira no grupo.
Segundo a Polícia Militar, 30 pessoas ficaram levemente feridas pelo artefato. O morador não foi identificado.
Fonte: Brigas, furtos e até bomba prejudicam clima de festa, FSP, 15/06/09 (para assinantes)
Antes de tudo, noticiar o lançamento de uma bomba sobre um grupo de gays como um incidente é um absurdo desrespeito às vítimas e a vida. Dizer que uma bomba explodiu porque alguém achou que estava muito barulho na rua é um acinte à inteligência dos leitores.
A notícia também nos fala bastante sobre a prática do jornalismo. Num dia de manifestação festiva gay, seria demais imaginar que um jornalista consiga formar esta versão de “barulho”.
Ela fora, provavelmente, resultado de depoimentos da polícia e de pessoas que circulavam no local – como manda o manual do jornalismo. Transpor isso para o texto seria resultado de uma ignorância de contexto social tamanha que, logo, podemos considerá-la impossível; resta, portanto, acreditarmos que é produto do desprezo do jornal pela violência praticada contra minorias.
Vale lembrar que o caso aconteceu na avenida Vieira de Carvalho, tradicional ponto gay de São Paulo. Ponto que não é elencado entre as concorridas baladas gays do Guia da Folha, pois no local concentram-se, em sua maioria, gays pobres.
A versão que a Folha quer que acreditemos pode ser resumida assim: uma pessoa querendo assistir a novela se irritou com o barulho, ao lado do controle remoto estava uma bomba, que ela resolveu jogar pela janela.
O desprezo da Folha pela violência só não é mais latente do que o da polícia, que mesmo sabendo de qual prédio veio a bomba, até agora, não divulgou nenhum dado sobre a investigação.
Talvez o jornalista da Folha possa ajudá-los. Já que ele sabe que o agressor “se irritou com o barulho”, ele o entrevistou. Afinal, que outra fonte poderia dizer o motivo do crime? Será que o jornalista chutou o motivo? Não, claro que não. Como nos dizem as recentes propagandas dos grandes jornais, jornalismo sério só com fonte segura, apuração.
Ontem, Marcelo Campos, de 35 anos, negro, trabalhador e gay morreu vítima de um espancamento durante a Parada Gay. Não há notícias de que estava fazendo barulho.
Um protesto esta marcado para sábado, 19h, na avenida Vieira de Carvalho.
Relacionado:
Pra não dizer que não falei das flores ou bomba no cu dos outros é refresco, artigo, Jean Wyllys












