Arquivo para maio 2009
WWF expõe desempregados à humilhação
Quando o conceito de seleção natural foi aplicado à sociedade a coisa ficou muito feia. Mais tarde, quando grandes corporações resolveram adotar a idéia dos mais aptos para justificar demissões em massa, erros políticos e econômicos de todo um período caíram no colo dos trabalhadores.
Lembra daquela época em que a pauta era globalização? O começo desse papo? Era globalização de dia, globalização à noite e veio aquela avalanche de manuais e palestras de gurus da administração em países “emergentes” como o Brasil. Eles espalharam as idéias que faltavam para inocentar as empresas globais das famílias que destruíam semanalmente.
“Atualização profissional” era o mantra do trabalhador nesta época. “É preciso se atualizar”, ou melhor, “estar sempre atualizado”. Até hoje o SPTV e todos os programas voltados para a “vida prática” e “prestação de serviço” tem espaço reservado para dicas de como se comportar em entrevistas, dicas de cursos, dicas de tendências profissionais, áreas onde sobram vagas e outras maravilhas que indicam só uma coisa: está tudo aí, basta querer.
O trabalhador desempregado com mais de 40 anos de idade foi considerado “ininpregável” pelo chefe do executivo do Brasil. Tudo colaborava para sua humilhação social. Encostado, acomodado, desatualizado, vacilão. Os crimes das sucessivas políticas econômicas irresponsáveis eram personalizados na figura do trabalhador. Trabalhador por trabalhador, todos foram culpabilizados.
A classe média emburrecida adorou os manuais de administração: estratégias de sobrevivência duras, só os mais fortes sobreviveriam, como ficar rico… Enquanto torneiros mecânicos eram derrubados tudo ia bem. Mas, logo, alguns supervisores começaram a cair, uns gerentes deram de cara no chão e, hoje, – dizem, não sei, ouvi falar – tem diretor procurando “recolocação no mercado”.
Ser responsabilizado pelo próprio fracasso e desalento de sua família, como sabem, é de uma carga psicológica pesada demais. Mais uma vez, a surrada tática corporativa mostrou-se eficiente: um problema social/coletivo foi transformado em problema pessoal/privado.
A campanha Seleção Natural
A WWF com a intenção de promover sua mensagem ecológica fez uso do que há de mais atual no mundo da publicidade: fazer alguma coisa engraçada na internet que possa se espalhar e gerar comentários. Ao mesmo tempo escolheu uma forma de humor das mais caducas e sem graça que existem, a pegadinha.
Anunciou no jornal vagas de emprego para animais, gravou as ligações dos candidatos e as divulgou no site da campanha.
Não há justificativa para pregar peça em alguém desesperado por trabalho. Aguardar a ligação de um desempregado que vê um anúncio que diz “vaga para onça-pintada”, gravá-la e fazer pirraça com isso não é só falta de sensibilidade, é perversidade.
Ouvir perguntas como “Você prefere ser onça-pintada ou boto-rosa? Por quê?” e escutar as pessoas tentando dar uma resposta que convença o entrevistador (sim, as pessoas aprendem as malditas dicas de entrevistas), mais que embaraçador, é revoltante.
O que é trágico não é o fato das pessoas acharem que podem “trabalhar” como onça-pintada, é o fato de uma organização de defesa dos animais expor pessoas numa situação frágil a mais um constrangimento.
(dica: Fastblog do Marco Gomes)
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É ótimo quando vemos alguém que usa seu tempo na internet para algo realmente útil e realmente engraçado.
Todos os dias somos obrigados a aturar um ataque publicitário autorregulamentado. O número de telespectadores irritadores com produtos que não atendem ao prometido não é baixo.
O criador da contrapropaganda, portanto é porta-voz de muitos. Aparentemente, a dublagem foi feita por algum profissional. Talvez uma agência concorrente, talvez um autônomo experto. Assim é perdido o mérito, uma vez que seria uma contrapropaganda feita apenas para apoiar outra marca.
O que a copa de 2014 tem a ver com a expansão do metrô?
Publicidade acima, ideais abaixo
Acompanhando as investidas do setor publicitário ficamos irritados facilmente com o conteúdo das mensagens, seus propósitos, entretanto, são conhecidos e mantém coerência com o objetivo final, o lucro. Já dando um rabo de olho nos blogs comerciais fica mais difícil reconhecer intenções.
O recebimento de presentinhos de empresas interessadas no público jovem talvez seja a tática comercial mais polêmica entre os blogueiros. Geladeirinhas, frases patrocinadas no twitter e outros trocados ainda geram algum debate.
Outros meios já tem essa questão melhor resolvida. Ídolos do gênero “alternativo de massa” como Marcelo D2 e João Gordo já emprestaram imagens de sua intimidade para ajudar a vender de tudo na MTV, principalmente.
Quando recebemos a notícia de que um blogueiro aceita vender a imagem de sua família para promover uma marca de carros não ficamos irritados; ficamos decepcionados, assustados, entristecidos.
A maneira como as coisas vem caminhando na internet brasileira é preocupante. Sim, é preocupante que num ato público contra uma lei que criminaliza na prática todo internauta, muitos blogueiros tenham preferido ficar em casa monetizando suas postagens; que tantos artistas que alcançaram sucesso graças à internet, tenham deixado a tarefa de manifestar discordância com o projeto para os manifestantes de sempre.
A despolitização dos grandes blogs não é difícil de entender, mesmo porque ela não é exclusiva da blogosfera. Os ideais da web vão caindo nos esquecimento, enquanto as propostas comerciais continuam chegando e a vida segue confortavelmente. Nada mais natural.
É preciso dizer: um Estado policialesco não vai investigar um site de postagens mornas sobre lançamentos tecnológicos e as últimas fofocas de Hollywood. Obviamente, situação inversa enfrentará sites de denúncias, críticas, de troca de informações políticas e culturais.
O produtor da Enxame.tv, Cris Dias, o personagem da nova campanha da Nissan, anuncia as esperadas críticas a sua atitude, porém, parece considerar desnecessário apresentar elementos para um debate.
Quando se entende que a internet é um ambiente de comunicação como outro qualquer, de fato, esses elementos são desnecessários. Se artistas punks podem vender carros, por que blogueiros não podem? Simplesmente, porque a web foi criada para mudar o padrão de comunicação na época vigente.
Ela cresceu espantosamente e agora passa por um processo de tentativa de controle por parte dos patrocinadores do velho modelo. As ofertas comerciais aumentam seu poder de sedução e abrem caminho para uma web banho-maria, cada vez mais parecida com os jornais e redes de tevê dos quais propunha se diferenciar.
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Duas indústrias à beira do colapso financeiro. A indústria automobilística e fonográfica, engessadas pelas barreiras que ergueram, atualmente se reservam basicamente a duas tarefas: combater o avanço das ideologias crontrárias e encontrar uma maneira vantajosa de absover os modelos de distribuição e promoção criativos destas.
Os fazedores de carros terão que moldar seus argumentos de propaganda à cultura ecológica que se espalha paulatinamente pela classe média – seu principal público. Os carros “verdes” são o investimento publicitário mais evidente dessa tentativa de adaptação.
A indústria fonográfica descobriu que a juventude estava disposta a esvaziar os bolsos para cultuar seus artistas preferidos e desde então viveu despreocupada e feliz. Quando a molequada deu um jeito de curtir um som sem gastar toda a mesada com míseros três discos, ela acordou assustada. Declarou guerra à pirataria e à internet. De nada adiantou.
A campanha da Volkswagem – ou “projeto”, como eles chamam – em parceria com a Trama Virtual não é apenas um belo retrato dessa crise de criatividade de ambas as indústrias. É, principalmente, um exemplo do funcionamento do trabalho publicitário de cooptação dos valores de liberdade de acesso a bens culturais.
Mais e mais para a minoria: ampliação da Marginal Tiête

Foto: Paulo Fehlauer, Alguns direitos reservados
Ontem, o governador de São Paulo inaugurou mais duas novas pontes no Complexo Anhanguera, um desperdício de R$ 400 milhões de reais.
Aproveitou para anunciar que construirá mais uma faixa na Marginal Tietê. E lá se vão mais R$800 milhões de moedas. Aos microfones o candidato Serra lançou: “Pode anotar e filmar. Não vai ter mais engarrafamento aqui”.
Na ocasião da inauguração da ponte Estaiada – em outra Marginal, a do rio Pinheiros – ela foi aclamada como maravilha da arquitetura, solução para o tráfego local, cartão-postal da cidade, “show de luzes” no natal e motivo de orgulho do povo paulistano.
Meses depois, além de painel de fundo para o telejornal da Globo, a maravilhosa ponte só sabe fazer trânsito. Levou baldes de carros para locais que não comportam mais nenhuma poça. Um dos remédios da CET foi acabar com o acostamento num trecho da Marginal Pinheiros e lá abrir mais uma faixa para os carros.
O problema é que esse trecho era o pedaço de chão que ciclistas e pedestres utilizavam para chegar aos bairros populosos da região. Os ciclistas, então, resolveram que esse cantinho deveria continuar como acostamento e repintaram a marca no solo sagrado dos automóveis.
A equipe armada de proteção ao motor foi chamada para garantir a desordem, e a carente CET ainda ameaça multar o povo que insiste em se deslocar utilizando as próprias pernas.
“Não vai ter mais engarrafamento aqui” é o que foi gritado aos quatro ventos quando a ponte Estaiada fora inaugurada.
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