Arquivo para abril 2009
Vodca Absolut instala publicidade na Praça do Ciclista

Espaço público cercado: globo, iluminação e centro de apoio – cubo preto

A explicação para o tema “discoteca”
Apesar da lei municipal, a Praça do Ciclista até hoje não ganhou uma placa de identificação oficial; o paraciclo de lá retirado em 2008 nunca mais voltou; os gradis de proteção também não foram reinstalados; e a bela bicicleta com a qual o índio venezuelano foi homenageado foi arrombada.
Esta semana, porém, o oposto ocorreu. Em vez de retirarem algo, instalaram alguma coisa na praça. Infelizmente, não trata-se de um equipamento público. Um globo espelhado de discoteca apareceu por lá.
Ao avistar o globo brilhante acompanhado de uma espécie de casinha preta, protegida por uma cerca e um segurança, pouco se pode concluir. Não há logotipo ou marca estampada.
Além de construírem sites ridículos e espalhar virais que só um grupinho acha inovador, os publicitários colocaram na cabeça que mensagens misteriosas despertam a curiosidade e ajudam a melhorar a imagem das tranqueiras que promovem.
Além de causar o desejado buzz, o globo de discoteca não identificado tem, obviamente, a pretensão de despistar a lei Cidade Limpa.

O segurança dos equipamentos – sempre ao celular

O site com tema “disco” é interativo, como as agências de publicidade adoram
Ao instalar os globos (são dois, em locais diferentes), a vodca Absolut goza da população e tira o sarro da cara de todos os pequenos comerciantes que tiveram que se adaptar à lei. Mais que isso, a marca caçoa da prefeitura. Provoca descaradamente o poder público.
Ademais, o globo não está instalado num gramado qualquer, ele está instalado num centro de manifestação social, num local de concentração política.
Assim como a enorme propaganda num cinema que tem “arte” no nome é um afronte a arte cinematográfica, a publicidade pop na Praça do Ciclista é um acinte às mobilizações de transformação social que lá se concentram.
As explicações da marca e da Prefeitura publicadas hoje, entretanto, deixam transparecer que a sinergia – apesar da aparente confusão na comunicação – entre poder púbico e privado na cidade que está literalmente vendendo seus bairros é muito maior do todos imaginavam.
Relacionados:
Praça do Ciclista – em São Paulo e agora em Aracaju, artigo, Vá de bike!
Carnaval-inauguração na Praça do Ciclista, artigo, Praça do Ciclista
O grande falo com motor: “Elas adoram subir num mais novinho”
Certas propagandas não nos animam a escrever. É o caso do material promocional de cervejas. São de uma obviedade, agressividade e machismo que não necessitam de comentários.
Essa loja de carros da Volkswagen, no interior paulista, parece ter se inspirado nas grandes cervejarias. Ao entrar no banheiro de um restaurante para aliviar a bexiga, você dá de cara com a frase “Sabe como é, elas adoram subir num mais novinho”.
Um garoto de seis anos sai no banheiro – de mãos limpas, como ensinou sua mãe – e, durante a fila do “quilinho”, resolve tirar a dúvida: “Vovó por que você adora subir num mais novinho?”
O pequeno faminto foi forçado a explicar de onde saiu tal ideia, recebeu os esclarecimentos de que se tratava de uma piada com carros e o almoço seguiu tranquilamente – com exceção da sobremesa que, mais uma vez, foi limitada pela mãe.
Num almoço despretensioso, a Profª Volks Wagen Bernardo do Campo, que leciona em variados meios de comunicação, ensinou ao querido Júnior que mulheres e carros são produtos. Produtos diretamente relacionados.
Tempos mais tarde, em casa, repentinamente uma dúvida vem à cabeça do pequeno. “Elas adoram subir num mais novinho. Mas, todas elas? Minha mãe? Minha vizinha? Minha tia? Minha irmã? Todas as mulheres? E os homens?”
Ao longo dos anos, a alfabetização de Júnior avança e ele aprende que mãe e filha não são mulheres. O mesmo se aplicando à mãe de sua mãe, às filhas de sua mãe e à mãe de sua filha (apenas enquanto estiver casado com ela).
Essas mulheres são simplesmente “mãe” e “filha”, por isso ficam livres das piadas de cunho sexual. Outras categorias do machismo podem e devem ser aplicadas a elas, mas essa é uma lição avançada que Júnior aprenderá, provavelmente, na prática.
Por enquanto, basta saber que, destacadas as exceções, todas as mulheres são produtos sexuais.
Ah, sim, os homens. Os homens que gostam de “subir” fazem parte de uma categoria exclusiva, e a ela dedica-se uma especial série de violências.
Artigos relacionados a publicidade + automóvel
PS. A quem interessar e tiver paciência:
O panóptico arrumou mais informação para se coçar e está no twitter @panopticosp
Por onde minha bicicleta passa, outras tantas passarão

Foto: Jessi Pervola em Contrail

Foto: Contrail
Bicicletas não ficam paradas no trânsito. Basicamente, param apenas nos semáforos e quando os carros impedem completamente a passagem.
Esta agilidade ajuda a reforçar a percepção de que são poucos os ciclistas em São Paulo. Mas qualquer um que pare, durante cinco minutos, numa avenida qualquer para contar bicicletas, logo percebe que são muitos os ciclistas.
Muito divertida esta ferramenta que registra os ciclistas que passam pelas ruas. Bem com acontece com as marcas de uma trilha na mata – só que bem mais coloridas. Segundo o desenvolvedor:
Contrail é uma ferramenta para o desenvolvimento de comunidades de ciclistas. Enquanto você pedala, deixa uma linha de giz atrás de sua bicicleta. O objetivo é encorajar um novo ciclo de participação ao permitir que a comunidade de ciclistas deixe uma única marca na rua e revindique o direito de compartilhar o espaço.
O velho ciclo: Mais carros nas ruas -> maior perigo para o ciclista -> menos bicicletas nas ruas -> ainda mais carros nas ruas.
O novo ciclo: Alguns ciclistas deixam suas marcas nas ruas -> as marcas nas ruas geram curiosidade e lembram aos ciclistas onde é mais seguro pedalar -> novos ciclistas são encorajados a pedalar e a deixar suas marcas -> as linhas crescem conforme cresce a comunidade, formando uma grande marca. Livremente adapitado
Mais: Contrail
Relacionado:
As pegadas misteriosas no Eixão, artigo, Bicicletada DF
Manifesto dos Invisíveis, manifesto
Em estações de trens do Rio, Supervia chicoteia e soca seus passageiros
O cidadão faz uso do sistema público de transporte. Um direito básico. Paga caro para uma concessionária lucrar com o transporte de pessoas. E além de receber um péssimo serviço, recebe chicotadas. Chicotadas! Socos e chicotadas!
As imagens veiculadas hoje de manhã na rede Globo são ultrajantes. E as respostas do diretor de marketing (!) publicadas pelo G1, tão revoltantes quanto.
A SuperVia informou que os agentes são treinados para garantir que as portas se fechem sem o uso da força física.
José Carlos Leitão, diretor de marketing da SuperVia, para que eles foram treinados pouco interessa nesse momento. O que interessa é o que eles fazem. O que está em questão são as imagens que qualquer olho cansado pode ver. O que vemos são pessoas sendo chicoteadas até mesmo com o trem em movimento, num ato sádico, que não tem nada a ver fechamento de portas e esse blablablá.
Leitão informou ainda que a Polícia Militar já foi chamada e que só este ano 200 pessoas foram presas por impedir o fechamento das portas dos vagões.
Solução da Supervia para trens lotados durante este ano: chamar a polícia.
Essa é a política de transportes do Rio? Aparentemente, essa é política para a população do subúrbio.
Se é assim, vamos chamar a polícia para prender os motoristas que cometem infrações nas lotadas avenidas do país.
Relacionado:
Passageiros que dizem ter sido agredidos em estação de trem vão à delegacia, notícia, G1
Ford ignora Cidade Limpa com anuência de Cine Unibanco
Não parece, mas esta é a entrada de um cinema em São Paulo.
Eu, como muitos, tenho saudades de quando as salas de cinema não tinham nomes de bancos. Seguimos ignorando a maioria deles, basicamente porque não tem como chamar um cinema de “HSBC” e porque “Sala BNDES” não tem nada a ver com Bergman e Sganzerla. Para as gerações mais novas, entretanto, as nomenclaturas já soam mais naturais, e um cinema com nome de uma palha de aço é algo normal.
Passar em frente a um cinema e ver uma publicidade que faz da porta de entrada uma espécie portal rumo às maravilhas do SUV (carros-tanques-chiques) é um insulto. Um desrespeito ao frequentador do cinema de rua e um ultraje ao cinema não comercial.
Obviamente, é também uma provocação à lei Cidade Limpa, que limita a publicidade na cidade. A propaganda (mesmo que, por acaso, tenha autorização municipal) é nitidamente exagerada e deixa claro que os donos das lojas e bares em frente, que tiveram que retirar suas placas, fizeram papel de bobos, pois a Ford pode inventar um evento, pendurar um painel do tamanho do prédio, instalar um valet e tudo está legal.
Que a situação financeira dos cinemas de rua não é das melhores, todos sabem. Com o objetivo de manter as salas abertas, concessões são compreeensíveis. Já estampar um carro gigante na fachada e delegar a entrada no salão a promotores de eventos é vergonhoso. Ao menos revela ao público a inspiração mesquinha dos proprietários do cinema.
Relacionados:
O glamour dos valets e a “revitalização” do centro, artigo, panóptico
Ford Edge traz Metropolitan Ópera de Nova York para São Paulo, notícia, Ford
PS. A quem interessar e tiver paciência:
O panóptico arrumou mais informação para se coçar e está no twitter @panóptico
Tá com pressa? Compre um Fiat “turbinado” e passe por cima
Não é só turbo. É turbinado
A Fiat buscando seu público jovem vai direto ao ponto e não deixa dúvidas de que o gosto pela velocidade continua sendo um dos apelos mais fáceis para vender carros.
Dedicar produtos a jovens universitários endinheirados é um dos constantes esforços da indústria automobilística. Conquistar esse público não é apenas incrementar a venda de esportivos, pois estas representam uma fatia muito pequena das vendas totais. Seduzir este público “classe A” significa garantir que as mentes de jovens, digamos, menos favorecidos financeiramente permaneçam cheias de imagens velozes.
Os jovens formadores de opinião vão para descoladas praias em coloridos carros esportivos, levando pranchas caras. Descansam em belas pousadas com suas garotas saradas – “trip girls”. São bonitos e felizes.
Nos auxiliares, assistentes, supervisores e demais mortais, não tão bonitos, não tão ricos, não tão sarados, em resumo, não tão “turbo”, permanece implantado em algum canto do cérebro esta imagem de felicidade.
Graças a um conjunto de propagandas, brinquedos, desenhos e entretenimento voltados ao prazer da velocidade, a associação desta vida ideal, alegre e contente com a posse de um carro esportivo é quase direta.
Apressado para o trabalho. Versão 1.4
Apressado para um jantar com a namorada. Versão 1.8
Apressado para o jogo do seu time. Versão T-jet.
Reforçar os preconceitos da sociedade é um caminho fácil para os publicitários. Pega-se o que há de pior, dá-se um tom de humor e pronto, basta reproduzir a mensagem, ajudando a tornar certo comportamento ainda mais nocivo.
Colocar o time de futebol como mais importante do que a namorada é a piada sem graça da vez.
Estimular a velocidade para dar conta da pressa de cumprir compromissos é um sinal claro de desprezo às milhares de mortes violentas causadas pelo efeito “turbo”.
Toda esta publicidade é auto-regulamentada. Portanto, fique tranquilo. Os publicitários cuidam do que é veiculado à população.
Não se permitirá que o anúncio contenha sugestões de utilização do veículo que possam pôr em risco a segurança pessoal do usuário e de terceiros, tais como ultrapassagens não permitidas em estradas, excesso de velocidade (…) Fonte: Código CONAR
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O segredo do prazer de dirigir rápido
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Passado idealizado num bairro paulistano
Ah, as fotografias antigas de São Paulo. São sempre tiro certo. Restaurante chique? Bar fedido? Jornal de domingo precisando aumentar a circulação? Pode apostar sem medo: imagens em preto e branco ou sépia do centro de São Paulo irão te ajudar.
Contemplar uma cidade que não existe mais é um dos maiores prazeres do paulistano. Idealizar uma nobre migração cheia de alegria é outro.
Caso queira conhecer os migrantes que a cidade renega e esconde (os nordestinos), visite o bairro do Bexiga; depois procure pelo sangue nobre europeu no bairro da Bela Vista [1].
Converse com os jovens madrugadores e desempregados descendentes de nordestinos, e converse com os jovens madrugadores e desempregados descendentes de italianos. Você notará que a identificação com suas origens é bem diferente.
Enquanto a classe média remediada se conecta ao passado europeu para se aproximar de uma história gloriosa, bela e prospera para mostrar sua carteirinha de paulistano de primeira linha; a classe baixa se conecta ao presente para se aproximar do futuro, onde as promessas de iogurte na mesa, carro na garagem e tênis de marca no pé se realizarão; nela a identificação e o orgulho com o passado nordestino, em geral, não aparecem espontaneamente.
[1] Obs.:
Em São Paulo ninguém sabe bem onde começam e terminam os bairros. Como em outras cidades, nomes são criados na tentativa de escapar do preconceito geográfico. Assim, a segunda maior favela da cidade vira “Morumbi Sul” na boca dos corretores de imóveis.
Bexiga e Bela Vista são o mesmo bairro. O Bexiga foi esquartejado pelo minhocão (seis pistas expressas elevadas), uma “praça” também com pistas elevadas (praça 14 bis) e outras avenidas. Como resultado, para ir à padaria você tem que passar sob um viaduto que serve de estacionamento e atravessar uma avenida.
Na Bela Vista estão os prédios caros; no Bexiga os cortiços, prédios e comércios pobres. Nas novelas italianas da Globo, você escutará “Bexiga”; no telejornal da Globo que fala sobre a sede de uma associação importante, você escutará “Bela Vista”. Porém, no telejornal da Globo que fala sobre o feroz ataque ao bolo de aniversário da cidade, você escutará “Bexiga”.
Sacou?









