Silêncio no minhocão | Bicicletada SP – Outubro 2008

Novembro 13, 2008

minhocao
Foto: Fernando Stankuns. Alguns direitos reservados

O “minhocão” é uma construção que dividiu bairros, acabou com a vida de moradores, com o negócio de comerciantes e com a beleza de uma região central de São Paulo.

Três quilômetros de escuridão e barulho por um único motivo: fazer o trânsito “fluir”.

Isso foi nos anos 70. De lá para cá, rios foram cobertos por asfalto, muitas pontes surgiram e a casa de muita gente foi destruída para dar lugar aos carros. O sonho de um automóvel na garagem de cada família continua em vigor, continua impossível. Não existe espaço, tampouco condições ambientais para que se concretize.

Durante a semana, o minhocão fecha às 21:30 para que os moradores dos prédios que o margeiam possam dormir, mas no último dia 31 ele fechou antes das 21h. A bicicletada passou por lá.

Olhares desconfiados surgiram por entre venezianas sujas, janelas entreabertas revelaram rostos assustados, dorsos nus emergiram em sacadas pichadas. Da via implacável, víamos a tudo. Histórias escondidas pela dureza daquela construção brotaram do concreto. Instados pelos ciclistas cumprimentos tímidos foram lançados de kitnetes; no pé do acesso à minhoca de aço e concreto, sorrisos de crianças acenderam um cortiço.

Sobre aquele antigo monumento ao automóvel, para nós tudo parecia belo e algo novo. No percurso de volta, durante o bloqueio de um acesso secundário, motoristas nervosos lançaram mão do poder dos vidros fechados e da buzina, negaram-se ao diálogo e aceleraram deliberadamente sobre um grupo de ciclistas. Nada grave, por sorte.

Muitos planos sobre o minhocão foram feitos. Pensaram em torná-lo um parque elevado; em levá-lo ao chão de vez. Fora reformado diversas vezes; virara cenário de filmes outras tantas. Em prol do trânsito, lá continua. Lá permanecem as pessoas em seus apartamentos baratos com vista privilegiada para o caos. Lá está a violência dos homens motorizados. Lá prossegue uma cultura de degradação.

Relacionados:
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  • 1. dysprosio  |  Novembro 19, 2008 at 8:09 pm

    Muito bom o texto!

    Parabéns!

    Responder

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