Ato falho
Julho 16, 2008
A Folha de S. Paulo do último domingo trouxe uma matéria sobre a “síndrome do ‘pavio curto’”. Vamos nos ater à manchete e seus resumos. Que existem justamente para serem lidos primeiro e, para a maioria, serem toda a leitura.
Nos textos de destaque. Um problema que possui forte ligação com o ambiente é personalizado, deslocado do plano coletivo para o individual. Você conhece essa artimanha faz tempo.
No telejornal do meio-dia ensinamos que as crianças devem comer frutas e verduras, durante o restante do dia veiculamos propagandas de guloseimas radicais. Então alguém questiona os fabricantes e publicitários. A criança está gordinha? Os pais não controlam o lanche da pestinha. Todos nossos produtos respeitam as normas. Cabe as pessoas se controlarem e educarem seus filhos.
Alguns anos adiante e uma bela porcentagem da população se vê com problemas de saúde ligados à obesidade e ninguém tem nada a ver com isso. Toda a questão é com o “descontrolado”. Restringir a publicidade? O quê? Isso é censura!
Ambiente violento, estressante, amedrontador, clima de “todos são inimigos” e, claro, supervalorização do carro. Erotização, poder e tudo que é desejado e está em falta na sua vida estão no carro. Encostou no carro, manda porrada e bala no safado.
A matéria da Folha traz bons exemplos e depoimentos sobre a violência no trânsito. Porém, ao ter como mote justamente um programa de tratamento de saúde, não conseguiu escapar da culpabilização do paciente.
A supervalorização do tabaco e do álcool gerou dependentes por onde passou. Esta cultura foi e é alimentada pela mídia e pela indústria pop. Hoje, o tabagismo já é recohecido como doença social pelo jornalismo e sua indústria é controlada governo. O alcoolismo ainda é visto pela imprensa como um problema de “descontrolados”, gente que não sabe beber. Afinal, eles avisam: “beba com moderação”.
Não somos muito bons em português (como podem perceber), mas até onde sabemos “até” (o advérbio) é usado para expressar com destaque “inclusive”. Desta forma, após o “até” vem o mais espantoso, o mais curioso, o mais absurdo. Como em “ele come todo tipo de carne: pato, coelho, porco, frango ou até cachorro”.
Na sociedade do automóvel é proibido tocar no carro dos outros. Se durante uma manobra encostarem no seu carro, você pode parar o trânsito no meio da avenida e sair xingando. Ninguém vai reclamar. É um direito supremo: ninguém mexe com o carro do outro.
Intimidar? É grave. Matar? Poxa, é grave. Destruir o carro? Gravíssimo. Até isso eles fazem… A que ponto chegamos! A Folha não pôde evitar este ato falho.
“..descontrole faz motoristas tentarem matar, machucar, intimidar pessoas ou até destruir carros alheios“
Entry Filed under: mídia. Tags: alimentacao, automovel, jornal, jornalismo.
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1.
buragina | Julho 17, 2008 at 6:26 am
Excelente ponto de vista… e assustador!
2.
Cassimano | Julho 17, 2008 at 10:40 am
Descontrole, falta de dinheiro, excesso de trabalho, controle de posse, segurança, insegurança… A mídia faz a massa e a massa assada é o bolo?
3.
vini | Julho 18, 2008 at 12:36 pm
hahahahhahahha
isso até foi engraçado.
4.
luddista | Julho 18, 2008 at 9:38 pm
Sensacional… “Até” coloquei um link em texto mais ou menos sobre a mesma coisa.
5. A cidade está tranqüila&hellip | Julho 18, 2008 at 9:46 pm
[...] dependência crônica do automóvel continua sendo uma patologia mais misteriosa que o [...]
6.
Ulisses Adirt | Julho 24, 2008 at 2:57 am
É… Até dá para achar que foi de propósito…
7.
Pula o Muro | Julho 31, 2008 at 10:50 am
Tem gente q lê mas não entende nada do q tá escrito. Isso é chamado de analfabetismo funcional. Ainda pior são esses outros q ESCREVEM (até para jornais) e não sabem o q escreveram. Analfabetismo funcional ‘graduado’?