Por que construímos praças?
Maio 30, 2008

Praça Roosevelt, antes da interdição
Quem tem menos de 20 anos de idade e nasceu na região central de São Paulo talvez nem tenha conhecido uma muito bem. Mas praças são aqueles espaços públicos, de acesso livre, dedicados às pessoas. Carros, motos e cia. não são pessoas, então ficam de fora. As praças têm uma estrutura que permite às pessoas se encontrar, conversar, descansar etc. Sendo assim, bancos para sentar e espaços à sombra, ao sol, árvores e plantas são essenciais; algumas tem equipamentos dedicados às crianças, outras equipamentos ao esporte etc. (Essa não é a descrição de um arquiteto urbanista e sim de qualquer pessoa que tenha conhecido praças. É suficiente).
Com a valorização excessiva dos espaços privados, da cultura do shopping center e do automóvel as pessoas foram gradativamente deixando de caminhar pelas ruas. As praças viraram lugar de passagem e a única alternativa de moradia de quem foi descartado pelo mercado de trabalho ou expulso pela violência doméstica.
A administração pública preferiu privilegiar o lucro privado e incentivar a construção de centros de compra e entretenimento, hipermercados e “centros empresariais” por toda a cidade. Abriu mão de dirigir e deixou a especulação imobiliária brincar com o dinheiro e o espaço de moradia da população. O que não interessava ao capital ficou na escuridão.
Os veículos de comunicação voltados à classe média cobram o cuidado das praças e uma revitalização (cosmética) do centro, mas ninguém sabe para quê, uma vez que parte da classe média alta paulistana conhece a cidade e seu centro pela janelinha do carro e ignora, inclusive, que o bairro é também um local de moradia. Lembrando que tratam-se das mesmas pessoas que alugam bicicletas em Paris, caminham por Buenos Aires e tomam ônibus em Barcelona.
O paulistano corporativo vai até o cinema (ao lado do metrô) de carro, fica na fila do estacionamento, fica na fila do cinema, sai, pega seu carro, chega ao estacionamento do restaurante, fica na “espera” do restaurante e, satisfeito, finalmente, retorna à garagem de seu apartamento. Nas conversas do almoço reclama no abandono das praças, lembra quão ridículas são as demais cidades brasileiras (São Paulo é a única cidade do país onde existe vida inteligente) e como são belos os espaços públicos franceses.
Pouco importa, isso tudo é passado. Hoje as praças estão sendo revitalizadas. Não têm bancos para se sentar e em algumas há ruas cortando-as. O senhor dando milho aos pombos não pode mais matar o tempo. O bate-bola no canto da praça não pode mais rolar. O pedinte não pode mais existir.
O idoso, usando seu cartão fidelidade, visita atraentes famárcias-supermercados diariamente. As crianças correm dentro de apartamentos e brincam com babás no condomínio, com “toda a segurança que seu filho merece”. Os pedintes usam técnicas novas a cada mês, já que não existem mais esmolas depois que a solidariedade cristã foi subtituída pela responsabilidade social.
Complemento: A Praça Roosevelt que ilustra o texto foi recentemente interditada para reforma. A praça mais estranha de São Paulo é uma espécie de grande laje. Embaixo há um vão livre, onde havia um supermercado, uma organização civil, um posto policial e mais abaixo um estacionamento (!). Há pelo menos quatro anos o subsíndico de São Paulo fala em reforma.
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Entry Filed under: cultura urbana. Tags: criança, gentrificacao, praça.
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1.
Lady Rasta | Julho 15, 2008 at 1:37 pm
Olá! Vim conhecer o seu blog (obrigada pelo link aliás) e vi esse post aqui. Eu frequento o samba da Praça da Roosevelt aos sábados (do “outro” lado, perto da Justiça Federal) e concordo com vc em gênero número e grau.
Curioso que aquele local é frequentado pelo povo do teatro, que normalmente é muito ativo, mas não há nenhuma movimentação sobre o assunto né? Será que não é o caso de se começar a fazer algo?
É muito triste ver a Praça daquele jeito…
2.
panoptico | Julho 16, 2008 at 2:16 pm
Oi, Lady Rasta.
A praça Roosevelt tem uma associação de amigos. Que eu saiba eles estavam manifestando indignação e tentando se articular.
Não tenho o contato, mas talvez alguém do bar, do bairro tenha. Talvez o Fórum Centro Vivo centrovivo.org também tenha um contato.
abraço!
panóptico
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