Nova calçada, velho hábito

Maio 29, 2008

Na primeira foto a calçada antiga; na segunda, a nova. Ambas foram tiradas em frente a faixas de pesdestres. A semelhança entre elas é clara: o desrespeito ao pedestre é o mesmo de sempre.

Durante a reforma das calçadas da Av. Paulista, o pedestre foi obrigado em alguns trechos a passar no meio da obra, em outros a realizar um ziguezague esburacado e incompreensível. Não é uma intolerância nossa a algo que será “para o nosso benefício”, como dizem nas obras. É intolerância à humilhação que a Prefeitura teima em impingir as pessoas com dificuldade de locomoção. Nenhum cadeirante consegue transitar nos trechos em reforma. Os desvios são feitos para pessoas que caminham sem problemas, qualquer pessoa com uma dificuldade de locomoção pequena tem que ficar esperta para não cair num monte de pedra.

Nos trechos onde a obra está completa o resultado é bastante satisfatório. Agora entender o que aconteceu com os pontos de ônibus ainda é um problema. A questão é que a cidade de São Paulo é uma cidade na qual os carros têm um status superior. O cidadão quando está dentro de um carro tem direitos diferentes de quando está fora de um.

Atrapalhar o trânsito em São Paulo é expressamente proibido, legalmente e culturalmente. Se nenhum oficial reprimir e multar, todos os xingamentos possíveis serão dispensados por outros motoristas, porque a cultura paulistana não o permite desrespeito ao tráfego. Há minúcias, parar em fila dupla na porta de escola, na porta do restaurante e em outros locais é tolerado, por exemplo.

Parar no pequeno espaço reservado aos pedestres não gera multa, tampouco manifestações contrárias claras. É quase um direito. É proibido por lei, mas culturalmente permitido. O senso comum diz que a calçada é uma opção quando não se quer ou não se pode atrapalhar o trânsito. Como a regra é não atrapalhar o trânsito, acontece a todo instante. O pedestre se vira, passa no cantinho. Isso acontece numa rua meio isolada, numa calçada pouco movimentada? Não, acontece em todas as ruas, inclusive em avenidas pouco movimentadas e desconhecidas como a Paulista.

Reformar calçadas não muda essa cultura. O cara não enxerga nada, animado com a reforma da calçada, resolve ir tomar um sorvete na Paulista. Segue o piso tátil pela calçada lisinha, admirando o resultado, atravessa a rua rapidamente e dá de cara com um carro-forte.

Vai fazer o quê? Chamar a CET, sabendo que a própria tem o hábito de estacionar nas calçadas? Vai chamar a polícia? O jeito talvez seja bater na janelinha do carro-forte e pedir para o motorista retirar seu carro de dinheiro dali.

Relacionado:
Os caras-de-pau e Kafka sobre quatro rodas, artigo, Apocalipse motorizado

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1 Comment Add your own

  • 1. Treinados para desrespeit&hellip  |  Junho 4, 2008 at 10:41 am

    [...] Muita gente ao estacionar desrespeita o pedestre. Tem até gente que adorou as novas calçadas da cidade, porque ficou mais fácil para manobrar. [...]

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