Archive for Abril, 2008
Calçadão para quem?
Quatro carros, três policiais. Um calçadão invadido.
Os calçadões do centro de São Paulo são alvos especiais das prefeituras que trabalham para os automóveis. Ao mesmo tempo que prometem uma teórica “revitalização” do centro, financiada pelo Banco Internacional, acabam com o espaço dos pedestres que estão no bairro e o mantém vivo de graça.
É uma multidão de pessoas que não tem medo do lugar que trabalha, mora e/ou passeia.
Um cidadão que não conhece o centro da cidade, porque não tem motivo para visitá-lo, pode passar num concurso público, ir trabalhar no bairro e descobrir que foi um tonto ao acreditar que o local é um amontoado de prédios antigos.
Uma cidadã que vai fazer compras econômicas de natal na rua 25 de março pode entrar numa travessa, noutra, noutra, e acabar descobrindo que pode passar prazerosas horas passeando pelo bairro. Vai perceber que a nostalgia das fotos preto e branco é uma invenção cultural que tenta desprezar o presente do bairro mais importante da cidade.
Uma dona-de-casa que vai tirar a 2ª via do seu R.G. num posto rápido do centro, enquanto aguarda sua senha pode sair dar uma volta e descobrir que está num bairro onde é possível resolver todas suas pendências da semana em não mais do que três ruas. /
A destruição da Rua 24 de maio, do Largo São Bento, da Rua Sete de abril e outros espaços é comandada por uma revitalização que entende que o centro está morto.
Uma revitalização que pretende apenas estimular uma parte da classe média, que abandonou o bairro há tempos, a voltar a freqüentá-lo. Aparentemente, nada de mau. Não fosse a destruição dos espaços de que não o abandonou; a falta de entendimento de que não é possível conhecer a atmosfera do centro dirigindo um carro; e a falta de senso pedagógico, já que é desperdiçada a oportunidade de proporcionar uma tarde sem carro ao cidadão viciado em engatar, acelerar e frear.
Os comerciantes que perduraram, os camelôs que sobreviveram, os sem-casa que dormem preocupados, os trabalhadores que chegam de ônibus, os funcionários públicos que por lá caminham todos os dias, os desempregados de currículo na mão, as casas de lanches cheias de motoboys, os bares de uma porta apinhados de velhos conhecidos, as prostitutas amorosas, os skatistas suados, os sebos empoeirados… Todos estão no centro, não o abandonaram como o fizeram governos e governos.
Add comment Abril 10, 2008
Banco de pesquisa sobre saúde bloqueia resultados de buscas por “aborto”
Traduzímos a notícia abaixo sobre o bloqueio da palavra “aborto” no Popline, um banco de dados sobre saúde mantido com capital do governo dos EUA. Mas antes de publicarmos a notícia, ficamos sabendo via Boing Boing, citando o Women’s Health News, que eles voltaram atrás.
“Eu não poderia discordar mais intensamente da decisão e ordenei que os administradores da Popline restaurem, imediatamente, “abortion” (aborto) como termo de busca”. (Trecho da nota de Michael J. Klag)
Sem a denúncia dos bibliotecários envolvidos, o bloqueio censurador teria passado despercebido. E sem a rápida mobilização de blogs e sites, provavelmente, teria permanecido.
Segue a notícia traduzida amadoramente na última sexta:
Um site de informações médicas mantido pelo governo dos Estados Unidos, que se auto intitula a maior base de dados sobre saúde reprodutiva, discretamente bloqueiou buscas pela palavra “aborto”, ocultando cerca de 25.000 resultados de busca.
O site de busca Popline é dirigido pela Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health, em Maruland, e foi fundado pela Agência para Desenvolvimento Internacional dos Estados Estados (USAID, na sigla em inglês), o escritório nacional encarregado de promover ajuda internacional, incluindo fundos para saúde para nações em desenvolvimento.
O banco de dados indexa um amplo campo da literatura sobre saúde reprodutiva, incluindo títulos como “Previous abortion and the risk of low birth weight and preterm births” (Abortos prévios e riscos de nascimentos abaixo do peso e prematuros) e “Abortion in the United States: Incidence and access to services, 2005” (Abortos nos Estados Unidos: Incidência e acesso aos serviços, 2005).
Mas na quinta-feira, uma busca por “aborto” resultava apenas a mensagem “”No records found by latest query” (Nenhum dado foi encontrado para esta última busca). Stephen Goldstein, porta-voz da Johns Hopkins, disse que não se trata de censura e que no momento não poderia comentar.
Sob a política de Reagan, reaviavada pelo presidente Bush em 2001, a USAID rejeitou manter uma organização não-governamental que realizasse abortos, ou que vissasse “promovê-lo ativamente como um método de planejamento familiar em outras nações”.
Um bibliotecário da University of California em São Francisco percebeu a nova censura na segunda, enquanto realizava uma pesquisa de rotina a pedido de acadêmicos e pesquisadores da universidade. O termo de busca vinha funcionado corretamente desde Janeiro.
Perplexo, ela contatou o gerente do banco de dados Johns Hopkins’ Debbie Dickson, que respondeu em 1º de Abril por e-mail que a universidade tinha recentemente bloqueado o termo de busca porque o banco de dados recebou capital federal.
“Nós recentemente bloqueamos todos os termos relacionados a aborto”, Dickson escreveu em nota a Gloria Won, bibliotecária do centro médico da Universidade da California. “Como um projeto de fundos federais, nós decidimos que isso é o melhor no momento”.
Dickson sugeriu outros tipos de estratégias de buscas, como palavras mais obscuras e alternativas para desviar do bloqueio às palavras-chaves. “Além dos termos que você já usou, você pode tentar usar ‘controle de fertilidade, pós concepção’. Este é o termo paralelo para o nosso termo ‘aborto’ e a maioria dos arquivos possuem ambas palavras-chave”, ela escreveu.
Ela também sugeriu usar como estratégia de pesquisa o eufenismo “gravidez não desejada”. Mas as palavras alternativas não satisfizeram os críticos da censura. “A principal função do site deles é a busca por palavras-chave, e se você usa uma frase que contenha a palavra ‘aborto’ ele ignora este”, percebeu que Melissa Just, diretora da biblioteca do Instituto de Pesquisa sobre Câncer e do hospital City of Hope, em Duarte, California. Just acompanhava a conversa numa lista de discussão, e se viu indignada quando se deparou com o insidente da censura.
“Mesmo que você esteja tentando formar um argumento para alguém defendendo que o aborto não é uma boa idéia – quer seja considerando o risco à saúde, ou a preocupação com o bem-estar mental -, você não conseguirá encontrar artigos sobre suas pretensões”, ela diz. “São escluídos ambos os acessos, pró e contra [o aborto]”.
Fonte original: U.S. Funded Health Search Engine Blocks
Add comment Abril 7, 2008
Cidade limpa e lucrativa
Texto muito relevante de Ethel Leon, que só li hoje via Fórum Centro Vivo.
Trecho:
(…) Em São Paulo, é fundamental que os futuros móveis incorporem serviços importantes, especialmente para a população de pedestres e usuária de transportes públicos. Até hoje, os abrigos de ônibus apresentam (quando apresentam) mapas mal desenhados; e raramente há informações sobre as linhas de ônibus.
Os atuais relógios (que marcam horas e temperatura) são, em realidade, enormes suportes publicitários. A empresa responsável por sua instalação é a Policrono, que teve renovado seu contrato com a Prefeitura até o final de 2008.
Seria desejável que eles fossem repensados. A Prefeitura poderia, por exemplo, exigir que uma percentagem dos relógios fosse destinado à propaganda de atividades culturais dos órgãos municipais e mesmo estaduais. Ou que fossem menores.
A cidade deve ficar “limpa” para tornar-se atrativa aos grandes negócios do mobiliário urbano. Nada impede, no entanto, que os novos móveis ofereçam serviços úteis à grande maioria. Designers, arquitetos urbanistas e população organizada podem, certamente, abrir espaço e contribuir nessas regulamentações.
Por Ethel Leon, em Revista Brasileira de Design
Add comment Abril 7, 2008
Uma pequena estória sobre a cara-de-pau
Publicitários copiam publicitários.
Alguém resolve fazer comerciais com trilhas sonoras pop, sem diálogo ou texto, só o logotipo da marca na tela final e, pronto, esse tipo de filme de filme invadirá os televisores por meses. Alguém começa a privilegiar a cor azul ou verde no ambiente, como nos seriados norte-americanos e lá vem uma enxurrada desse tipo.
A moda agora é o tom bonzinho, um texto meio auto-ajuda acompanhado de uma narração tranqüila e de imagens fofinhas, como animações infantis. Este conceito vem vendendo carros, bancos e poderia vender armas.
O filme acima, segundo o narrador é uma pequena estória sobre “gente que faz”, que faz as coisas funcionarem melhor.
“E se plantássemos árvores ao redor de nossas fábricas e ajudássemos o ar a ficar mais limpo?”, pergunta o narrador.
E se criássemos tintas à base d’água? E se criássemos o carro solar? O carro hídrido? E um carro que emite água?
E se todos nós fôssemos empreendedores e fizéssemos as coisas de um jeito diferente?
Se não dirigíssemos quando não precisamos. Se dirigíssemos mais devagar no trânsito em vez de arrancar e frear? Se mativéssemos os pneus calibrados para economizar combustível? Se reduzíssemos a bagagem desnecessária dos carros?
Estas são as perguntas do estratagema publicitário. A responsabilidade de quem estimula certo comportamento é anulada e transferida com cuidado ao usuário. Vide história da indústria do tabaco.
Responderíamos que se todos fôssemos empreendedores e usássemos um carro, o mundo seria um estacionamento. Bom, na verdade, teríamos que empilhar carros em terra e espalhá-los sobre os oceanos. Poderíamos dizer que carros que soltam água pelo escapamento não são encontrados nas concessionárias Honda. Que é impossível que um mundo melhor esteja baseado no transporte individual motorizado e que, portanto, é inaceitável que um fabricante da impossibilidade e de um mundo pior nos diga quais são as possibilidades de um mundo melhor.
Mas deixemos que uma outra propaganda da Honda, digo, a fabricante do mundo real, a Honda das vendas de fato, responda à Honda boazinha, à Honda dos carros d’água. A Honda da publicidade boazinha que foca no público feminino (segmento de seu carro Honda Fit) quer que os motoristas dirijam devagar para economizar combustível, a Honda cabra macho quer “potência na potência máxima”. Ambos os públicos-alvos das campanhas só acreditam nestas campanhas, pois foram educados pelo consumo para o consumo.

Outros comerciais recentes para adultos que brincam com carrinhos (vídeos no youtube):
Cadbury Trucks Commercial
Ford Ka - Bebe
Ford Ka - Moustro Fubolero
Ford Ka - Pato Monstruo
Ford Ranger - Torre
Corredor de Fórmula 1 também é boa praça: Renault España - Alonso
2 comments Abril 3, 2008
Tarifa única de ônibus em SP, só pagando adiantado

Segunda-feira foi o primeiro dia útil de validade do Bilhete Único quase sem unidade.
Desde sábado para ter direito a entrar em quatro ônibus e pagar uma tarifa única, o paulistano tem que pagar adiantado pelo menos R$9,20 aos cofres públicos e empresas concessionárias.
O Bilhete Único, que dava direito a quatro viagens de ônibus com uma tarifa, foi implantado na gestão de Marta Suplicy e foi o grande apelo de sua campanha eleitoral em 2004. José Serra que disputava com ela o posto de prefeito teve como principal apelo sua passagem pelo ministério da saúde.
Nos poucos debates e nas muitas propagandas eleitorais obrigatórias, a integração dos transportes foi um dos principais temas. Embora ambos os candidatos tenham prometido a integração com o metrô e os ônibus intermunicipais, nunca deixaram claro se isso aconteceria com tarifa única. Em entrevistas os candidatos diziam que iriam fazer e fazer bonito, mas não prometiam com todas as letras.
Enfim, a integração com tarifa única, claro, não aconteceu. E quem deseja tomar um ônibus e um metrô paga mais caro do que quem toma dois ônibus. Os especialistas disseram que não poderiam superlotar o metrô. Essa integração que não é integração serviu para passar um pano e limpar a barra da prefeitura quando alguém lhe acusa de não ter feito o que disse que iria fazer.

Desde a apuração dos votos de 2004, pouco a pouco, sempre com justificativas com pouco fundamento, o transporte público ficou para depois. Os corredores exclusivos para ônibus foram abertos para os carros em determinados horários e são livres para táxis. Estudantes (meia passagem) e idosos (passagem gratuita) foram submetidos a uma série de novas regras. Outras pequenas medidas difíceis de entender, como limite de tempo para os idosos girarem a catraca, aconteceram.
Mas o principal ataque foi a obrigatoriedade do cadastramento do Bilhete Único para o usuário que quisesse fazer uso do direito de entrar em até quatro conduções num prazo de duas horas, mas não tivesse o bilhete previamente abastecido de reais.
Na brincadeira do cadastramento dos Bilhetes, o “combate às fraudes no sistema” foi a justificativa. Na vida real a brincadeira não teve graça e o cidadão que não tem os dez mangos para pagar adiantado ao sistema e/ou não tem tempo nem paciência para ficar na fila da Casa lotérica para fazer o adiantamento, pagava em dinheiro na catraca e ficava sem integração alguma.

Mês passado veio o aumento da integração ônibus + metrô ou trem. Custa R$3,65. Passou quase batido pela mídia, afinal o que é menos R$ 0,15 por viagem no bolso da população? Nem deram bola.
Agora mais um duro golpe. Mesmo quem tiver o bilhete cadastrado não vai poder fazer a integração com tarifa única. Só o fará quem tiver o Bilhete carregado. Ou seja, ou o cidadão vai até um posto carregar o seu Bilhete a cada um ou dois dias para não ficar sem nenhum tostão no bolso, ou deixa R$ 23 (ir e voltar do trabalho por cinco dias) adiantado para a prefeitura.
Na verdade existe uma única possibilidade de integração sem estar com o Bilhete carregado: com cargas de pelo menos R$ 9,20 o usuário tem duas chances de validação na catraca. Coisa para complicar mais a vida do usuário de um sistema que deveria facilitá-la. A única possibilidade dada pela prefeitura é difícil de entender e de colocar em prática. Deixar esse brechinha é só para limpar sua barra, mais uma vez.
A medida atinge o peito do transporte público. Revela o desprezo dos governantes às necessidades do trabalhador assalariado, da maioria dos estudantes e de toda a população que anda com dinheiro contado no bolso.
Num mês em que o caos do transporte privado foi destaque na mídia, revela que não existe vontade alguma de incentivar o motorista a deixar o carro em casa, por exemplo, quando precisar ir a um compromisso perto de sua casa. A prefeitura, mais uma vez, retira uma vantagem real (financeira) de quem estava pensando em adotar o transporte público, pois o cidadão precisa cumprir uma série de regras se quiser tomar dois ônibus e pagar uma só tarifa.
Como sabemos, esse tipo de medida, geralmente, vem acompanhada de um docinho. Após uma divulgação ridícula e o silêncio da mídia, as novas regras já estão em vigor. A Sptrans e a prefeitura vêm investindo mais em informar o “Bilhete Amigão”, que permite viagens com tarifa única num período de oito horas (durante a semana são duas horas) aos domingos e feriados.
Relacionados:
Notícias de um trânsito invisível
Notícia da SPTrans no site próprio. Dia 27/03, dois dias antes do início da nova regra.
Imagens: Sptrans
7 comments Abril 2, 2008
Fazendas escravistas têm função social?!
O Grupo de móvel de combate ao trabalho escravo já passou por muitas fazendas onde os trabalhadores comem restos, dormem em currais e não recebem água potável. Onde ninguém recebe salário e capangas armados garantem que ninguém escape. Cemitérios clandestinos já foram encontrados, a presença de crianças não é rara. Recentemente, um trabalhador foi marcado com ferro e fogo, feito gado.
Muitos escravistas brasileiros são antigos conhecidos, já foram flagrados diversas vezes destruindo a dignidade de grupos humanos inteiros.
No país cuja constituição afirma que toda terra deve ter função social, estes fazendeiros não perdem direito às suas terras.
A bancada ruralista do congresso nacional mantém paradas as propostas de lei para combate à degradação do Homem. São velhos coronéis rejuvenescidos pela grana do bionegócio. São senhores que matam o tempo desautorizando equipe federal de combate à escravidão e fazendo declarações ufanistas sobre os recordes de produção agrícola nacional.
Quem acha que escravidão não é função social e que quem escraviza deve perder sua terra pode assinar o abaixo-assinado pela aprovação da PEC 438/2001 e ajudar esta proposta andar.
A Proposta de Emenda Constitucional 438/2001 prevê o confisco de terras onde trabalho escravo foi encontrado e as destina à reforma agrária. A proposta passou pelo Senado Federal, em 2003, e foi aprovada em primeiro turno na Câmara dos Deputados em 2004. Desde então, está parada, aguardando votação.
Leia e assine o abaixo-assinado pela aprovação da PEC 438/2001
Add comment Abril 1, 2008



