Blindagem grátis

Abril 17, 2008

Os carros ganharam camadas de aço mas não perderam o luxo. É chique desfilar pelas ruas num carro que resiste a tiros de fúzil.

Quem acha que estar num Jaguar blindado é mais seguro do que estar num carro comum sem blindagem só pode viver dentro de uma bolha e desconhecer completamente o que desejam os assaltantes.

Estar num carro é muito mais perigoso do que não estar em um. Não sei, mas estar num carro que suporta tiros parece logicamente assustador. Em vez de entregar o carro, a carteira, o relógio e tentar preservar sua vida, a vítima prefere dizer que não vai abrir o vidro e se colocar a espera dos disparos.

Mas o que o termo “blindagem” está fazendo no lugar do tradicional “fechamento” neste panfleto? Aparentemente, “fechar o corpo” é menos atrativo do que “blindagem”.

A composição de frases de impacto e a busca do termo ideal sempre foram obstinações da propaganda. E o marketing popular sabe que os apelos de ascensão social são dos mais eficientes. Não existe revista que custe R$1,99 que tenha uma mensagem do tipo “para você que não tem dinheiro suficiente”, assim como não existe um único sabonete que mostre uma mulher negra num chuveiro simples e fraquinho na embalagem.

No capitalismo globalizado quem é pobre precisa tomar emprestado símbolos de status, uma vez que as chances de ascensão real são quase nulas. A propaganda de produtos e serviços populares trabalha com este conceito básico, emprestar, através do consumo, uma sensação de menor pobreza aos que dela não escaparão.

Enquanto a blindagem se torna desejo comum entre a classe alta, a propaganda voltada ao povo preocupado com suas desventuras espirituais é, como sempre, rápida em assimilar os termos em voga entre os ricos e ajustá-los aos pobres.

No fundo estes marketeiros populares sabem que ambas as camadas querem a mesma coisa, subir. E o marketing está aí para isso. No plano real, cada camada continua no seu mundo. Como o isolamento completo não existe e a dinâmica de dependência e exploração entre elas é que tenta manter tudo como sempre esteve, quando a diferença entre iguais aumenta ainda mais, o ódio, a violência e o medo se espalham com o vento.

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