Uma pequena estória sobre a cara-de-pau
Abril 3, 2008
Publicitários copiam publicitários.
Alguém resolve fazer comerciais com trilhas sonoras pop, sem diálogo ou texto, só o logotipo da marca na tela final e, pronto, esse tipo de filme de filme invadirá os televisores por meses. Alguém começa a privilegiar a cor azul ou verde no ambiente, como nos seriados norte-americanos e lá vem uma enxurrada desse tipo.
A moda agora é o tom bonzinho, um texto meio auto-ajuda acompanhado de uma narração tranqüila e de imagens fofinhas, como animações infantis. Este conceito vem vendendo carros, bancos e poderia vender armas.
O filme acima, segundo o narrador é uma pequena estória sobre “gente que faz”, que faz as coisas funcionarem melhor.
“E se plantássemos árvores ao redor de nossas fábricas e ajudássemos o ar a ficar mais limpo?”, pergunta o narrador.
E se criássemos tintas à base d’água? E se criássemos o carro solar? O carro hídrido? E um carro que emite água?
E se todos nós fôssemos empreendedores e fizéssemos as coisas de um jeito diferente?
Se não dirigíssemos quando não precisamos. Se dirigíssemos mais devagar no trânsito em vez de arrancar e frear? Se mativéssemos os pneus calibrados para economizar combustível? Se reduzíssemos a bagagem desnecessária dos carros?
Estas são as perguntas do estratagema publicitário. A responsabilidade de quem estimula certo comportamento é anulada e transferida com cuidado ao usuário. Vide história da indústria do tabaco.
Responderíamos que se todos fôssemos empreendedores e usássemos um carro, o mundo seria um estacionamento. Bom, na verdade, teríamos que empilhar carros em terra e espalhá-los sobre os oceanos. Poderíamos dizer que carros que soltam água pelo escapamento não são encontrados nas concessionárias Honda. Que é impossível que um mundo melhor esteja baseado no transporte individual motorizado e que, portanto, é inaceitável que um fabricante da impossibilidade e de um mundo pior nos diga quais são as possibilidades de um mundo melhor.
Mas deixemos que uma outra propaganda da Honda, digo, a fabricante do mundo real, a Honda das vendas de fato, responda à Honda boazinha, à Honda dos carros d’água. A Honda da publicidade boazinha que foca no público feminino (segmento de seu carro Honda Fit) quer que os motoristas dirijam devagar para economizar combustível, a Honda cabra macho quer “potência na potência máxima”. Ambos os públicos-alvos das campanhas só acreditam nestas campanhas, pois foram educados pelo consumo para o consumo.

Outros comerciais recentes para adultos que brincam com carrinhos (vídeos no youtube):
Cadbury Trucks Commercial
Ford Ka – Bebe
Ford Ka – Moustro Fubolero
Ford Ka – Pato Monstruo
Ford Ranger – Torre
Corredor de Fórmula 1 também é boa praça: Renault España – Alonso
Entry Filed under: publicidade, transporte. Tags: automovel, meio ambiente, publicidade.
2 Comments Add your own
Leave a Comment
Some HTML allowed:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <pre> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>
Trackback this post | Subscribe to the comments via RSS Feed



1. Sobre propaganda e realidade III - não esqueça minha Monark « apocalipse motorizado | Abril 8, 2008 at 11:33 am
[...] correto substituiu o pensamento crítico. Banco Real não financia mais veículos para paulistanos Uma pequena estória sobre a cara-de-pau Sobre propaganda e realidade – I Sobre propaganda e realidade – II Não existe carro ecológico [...]
2. Sobre propaganda e realidade III - não esqueça minha Monark « apocalipse motorizado | Abril 8, 2008 at 2:12 pm
[...] correto substituiu o pensamento crítico. Banco Real não financia mais veículos para paulistanos Uma pequena estória sobre a cara-de-pau Publicidade da qual não precisamos Sobre propaganda e realidade – I Sobre propaganda e realidade – [...]