Archive for Fevereiro, 2008

Comparar mulheres, comprar carros

Alimentar o gosto por uma espécie de produto é parte da função das propagandas. Existem campanhas que pretendem manter a força de determinada marca (e não vender um produto da marca), como aquelas campanhas da coca-cola ou da nike que apenas nos lembram que sem estas marcas não existe felicidade.

Também existem campanhas que pretendem manter ou aumentar a força de toda uma categoria, como aquelas “sorvete faz bem” ou “coma peixe”. Obviamente, a propaganda do refrigerante da marca Y está simultaneamente reforçando o gosto pela categoria refrigerante.

O filme acima é uma propaganda pontual, ela refere-se à vitória de um carro ao ser comparado com seus concorrentes por uma revista. Claro, não se diz “nosso carro é melhor, segundo a revista tal. Compre-o”.

Num dos cenários preferidos das agências de publicidade, o litoral, o comercial afirma que o Rio de Janeiro é incomparável, que a mulher carioca é incomparável, mas que carro é comparável, e, comparando, eles têm os melhores carros.

O fechamento do comercial é que nos revela o cuidado permanente dos publicitários com a manutenção de um antigo estandarte da indústria automobilística, a ligação da categoria carro à idéia de virilidade e sucesso sexual.

“Quem compara, compra Chevrolet. Até a Carol já comparou”, diz o narrador, enquanto a Carol encosta-se ao carro.

Seria a Carol é uma consumidora que comparou e comprou? Poderia ser, num mundo onde todas as decisões de compra fossem apenas racionais. Este mundo não existe, simplesmente porque o Homem não é um animal motivado apenas pela razão. Ademais, o segmento consumidor que o filme pretede atingir não são as mulheres. Certamente não teríamos uma garota lançando olhares em primeiro plano, se assim fosse.

A mensagem em maior evidência é: no mercado da paquera você será comparado; o sucesso em conquistar uma parceira atraente, como a Carol, será muito facilitado se você comprar nosso carro.


Add comment Fevereiro 29, 2008

Vigiar

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Imagem: Dr John 2005. Alguns direitos reservados.

Não se sente bem quando chega em casa?

Parece que algo está faltando?

Aquela sensação estranha de que ninguém está te vigiando?

Você pode sair do seu apartamento, deixar-se ser filmado no elevador, ir até a garagem e brincar de “ponto morto” com os ângulos das diversas câmeras. Pode levar seu filho na escola e dar um tchauzinho para a orientadora pedagógica ou ir ao supermercado comprar batatas e sorrir para as lentes.

Pode caminhar pela calçada e deixar com que os prédios de classe média capturem em preto e branco seu corpo, pode ainda pegar um metrô e deixar gravada em cores sua face.

Enfim, são diversas opções, basta estar numa grande cidade para ser considerado um potencial perigo para o mundo e ser perseguido eletronicamente.

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Imagem: Surveillance light

Pensando nesta necessidade moderna de ser observado dia e noite por um exército de anônimos da sociedade da vigilância, foi desenvolvida por dois artistas a luminária de vigilância, assim você poderá relaxar no conforto do lar como se estivesse em uma prisão.

(Via Boing-boing > Gizmodo)

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Imagem: banksy

Mas e as oito horas que passamos no serviço? No seu trabalho não há câmeras de vigilância? Você não deve trabalhar num comércio nem numa indústria. As únicas câmeras que te vigiam são as do prédio onde fica a empresa? Você deve trabalhar num escritório, certo? Talvez você possa conversar com o seu chefe e requisitar este benefício trabalhista de ser considerado um funcionário-suspeito.

Mas se não der jeito, instale o descanso de tela big brother nos computadores da empresa. Ele mostra imagens reais da sociedade da punição de 400 câmeras de cidades panópticas.

(Via Neatorama)

Relacionado:
The Panopticon: Pictures Of Surveillance Cameras, grupo de fotos sobre vigilância


4 comments Fevereiro 28, 2008

Ecofinanciamento

ecofinanciamento_r.jpg

O seu carro, moto ou caminhão novo ou usado está ao seu alcance. Com o Leasing ou CDC, você aproveita as melhores taxas e prazos do mercado e ainda contribui para o reflorestamento da Mata Atlântica. A cada Ecofinanciamento realizado, mudas de árvores nativas serão plantadas pelo programa Florestas do Futuro da Fundação Mata Atlântica.

“Mas esse mundo está de ponta cabeça mesmo” é uma daquelas frases que você ouve quando criança, acha que nunca vai dizer mas vira e mexe não encontra jeito mais sucinto de se expressar.

Depois do banco que promove um seguro de automóveis em que a pessoa escolhe um lote de floresta para preservação e associa a área adotada ao seu nome, temos o banco que faz financiamentos ecológicos de carros.

Na propaganda acima, ao redor do carro temos nomes de árvores, Jacarandá, Ipê-roxo… Entendido, ecofinanciamento significa que financiar a comprar de um carro preserva estas espécies.

Em nenhuma época, em nenhum lugar do planeta faria sentido dizer que uma máquina pesada movida à combustão é sinônimo de preservação, numa cidade de 10 milhões de pessoas, com 6 milhões de carros registrados num tempo de grande preocupação com as emissões de gases na atmosfera é, obviamente, incabível, um atestado do predomínio do marketing e do lucro sobre o bem-estar humano.

É impossível aceitarmos que um carro a mais nas ruas, poluindo, fazendo barulho, causando irritação, trazendo risco de mortes e asfaltando todos os espaços disponíveis seja vendido como sinônimo de preservação ambiental.

Na regra do comércio exagera-se com o objetivo de vender mais, o limite porém é simples, mentir não vale. Ou pelo menos era simples. Quando o comerciante vendia gato por lebre voltava-se ao enganador e tentava-se resolver a contenda ou espalhava-se pelo bairro a fama de mau vendedor.

Nos tempos do marketing e dos zelosos conselhos de auto-regulamentação publicitária o vendedor diz que carro preserva o ambiente e que, portanto, quanto mais comprarmos carros mais ele será preservado e fica tudo por isso mesmo?

Em países subdesenvolvidos como a Noruega, o governo não se furta a investigar se seus cidadãos estão sendo enganados por propagandas mentirosas, láassociar carro a ecologia é proibido.


1 comment Fevereiro 27, 2008

Cadê o ponto de ônibus que estava aqui?

O sujeito entrou num ônibus rumo à avenida Paulista e esperava descer na esquina da rua Augusta. Lascou-se. As calçadas da avenida estão em reforma e esta parada de ônibus foi anulada. Ele desce no parque Trianon, três quarteirões depois, e volta até a Augusta caminhando entre os pedregulhos da reforma.

Desculpe o transtorno. Estamos em obras

A prefeitura, responsável pela obra, prefere ferir o seu próprio sistema de transporte e impor um deslocamento absolutamente desnecessário ao usuário do que comer uma faixa dos automóveis particulares que utilizam o solo público para poluir.

O usuário do sistema público que caminha pela avenida e entra num coletivo paga R$2,30 para chegar ao seu destino e ocupa cerca de 0,5m² para tal. Durante as obras, é obrigado a engolir o “transtorno” que for necessário. O usuário do sistema motorizado privado ocupa uns 3m². A prefeitura cuida para que o mínimo de transtorno seja causado a este sistema.

Relacionado:
Os caras-de-pau e Kafka sobre quatro rodas


Add comment Fevereiro 26, 2008

Cuidado com os pedestres

cuidadoveiculos.jpg Placa estilo avesso do avesso pede que os pedestres tomem cuidado e não machuquem os carros

Os avisos de “Cuidados: Veículos” são uma farsa. Uma inversão da lógica do direito de proteção à vida.

Quem usa uma tesoura deve tomar certos cuidados diante dos demais. Quem usa um maçarico deve tomar certos cuidados diante dos demais. Parece-nos óbvio, quem usa um objeto que pode colocar a vida alheia em risco deve estar ciente dos cuidados de manuseio necessários.

Um pedestre não pode machucar um carro. Ele não faz uso de um objeto que requer cuidado, ele apenas faz uso de seu corpo (e ao usá-lo como um objeto de ataque é responsável por ele).

Na sociedade do automóvel a lógica se inverte. Dentro de um carro o homem se enfurece e esquece dos demais seres ao seu redor, esquece que manipula uma máquina de duas toneladas movida à combustão. Ao motorista é comum a sensação de que todos o ameaçam, motos, caminhões, carros e pedestres. A cidade é perigosa e é preciso ser mais esperto. Cortar, ultrapassar, aproveitar o sinal amarelo, avançar antes do sinal verde, converter, enfim, chegar o mais rápido possível.

Quando milhões de veículos se juntam, formam um exército sem ordem. São pessoas armadas em busca em um só objetivo, chegar antes. Os pedestres formam um exército muito maior, mas estão desarmados, sua armadura pode quebra-se ao choque de tropeção.

Acelerar na faixa de pedestres é uma ameaça armada, avançar enquanto o pedestre realiza a travessia é um ataque armado. Ameaçar e avançar usando um carro são crimes, são ameaças de morte.

O direito universal à vida pede que protejamos os mais fracos. O direito universal entende que um Homem desarmado não pode ser atacado por outro armado. As centenas de mortes de pedestres não podem ser encaradas como acidentes, não podem ser entendidas como efeito colateral da sociedade motorizada, elas só podem ser encaradas como o ataque de uma pessoa armada a um inocente.

Motorista, é impossível atacar uma máquina de aço 16 válvulas, fiquem traqüilos não lhe pungiremos nenhum mal. Não lhe machucaremos, estamos desarmados. Só queremos andar desarmados sem sermos ameaçados em cada esquina percorrida.

Todos nascemos pedestres.

Todos somos pedestres.

cuidadopedestres.jpg
Placa estilo papo certo pede que os motoristas cuidem de não machucar os pedestres

Relacionados:
Não assassinar, uma das vantagens de não dirigir, artigo, Panóptico
Carro mata, use com cuidado, artigo, Vá de bike
Ao pedestre, com carinho , artigo, Vá de bike


6 comments Fevereiro 22, 2008

Observando a mídia

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Já foram publicados 13 artigos sobre a revista mais nefasta do Brasil. Luís Nassif, com a ajuda de seus leitores, vem juntando as peças da história de terror do semanário. O dossiê também está disponível em inglês para o mundo saber.

Agora, o Biscoito fino e a massa, que vem acompanhando as primárias norte-americanas e já mostrou o grave erro do “maior jornal do país”, inicia uma série de artigos simples e diretos: Perguntas que a imprensa americana não fará.

Criticar não é só xingar aos ventos, como uma minoria da esquerda acredita. Desmontar é parte do aprendizado para entender como as entranhas adoecem e para criar algo melhor. Sempre impressiona que máquinas nocivas continuem a operar quando existem alternativas saudáveis. Sendo assim, para os saudáveis desmontar e criar se tornam tarefas concomitantes.


1 comment Fevereiro 21, 2008

Eu destruo o planeta

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Uma das opções rumo à privatização da cidade e à promoção do isolamento de luxo é comprar um apartamento num condomínio hotel-clube e ganhar uma árvore - com direito a estampar o nome da família nela; outra é comprar um apartamento com uma praia artificial embutida. São formas chiques de se auto segregar, de cultivar o medo e de pagar pela ilusão de deixar a da fealdade do mundo do lado de fora.

É possível também fazer uma apólice de seguro “carbono neutro”. Segundo a seguradora é possível:

“escolher um lote de floresta para preservação, que varia conforme o perfil da apólice contratada. O cliente associa a área adotada ao seu nome ou apelido”.

É a lógica da primazia do indivíduo sobre o coletivo, aquilo que a publicidade sabe tão bem explorar. Aqueles que conseguiram escapar da pobreza e têm trabalhos estáveis passam a lutar não apenas pela manutenção do conforto, mas a lutar pela manutenção do status social. Numa cultura onde cada trabalhador é inimigo do trabalhador da mesa ao lado a vida se torna um infernal enfrentamento (para cultura do inimigo vide o retrato e estimulo do programa de TV “O Aprendiz”).

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Quando ser ecológico é moda e sinônimo de status nada mais natural do que comprar uma área de preservação e aumentar seu status.

Nada de reduzir a emissão de gás na atmosfera, nada reduzir a produção de lixo, nada de reduzir nada. Afinal, a intenção é aumentar o consumo, a posse de bens, a aparência. Assim, quanto mais se suja mais se limpa. Essa é a lógica da campanha “seguro carbono neutro” e da maioria das ações corporativas ligadas à ecologia.

Trata-se, claramente, de um apelo ligado a posse como podemos ver. No site da campanha é possível encontrar outros usuários que “adotaram” áreas. Como a família que brinca de construir sua própria cidadezinha e tem uma árvore com seu nome, aqui o segurado pode grudar uma etiqueta virtual com seu nome numa floresta.

Claro, quem pode mais, aparece mais, já que a parte que te cabe “varia conforme o perfil da apólice”. Quem consome mais tem direito à uma área maior. Utilizando a calculadora de CO2 a classe média entra na brincadeira da batalha do micro-poder e corre atrás de garantir algo maior do que o do vizinho.

Quatro toneladas de sujeira? Beleza, alto padrão de consumo, tem direito a cheque especial, cartão dourado, caixa exclusivo, desconto nas tarifas e 88 m2 de mata nativa.


2 comments Fevereiro 20, 2008

Propagandas e coincidências

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A mídia corporativa é cheia de coincidências.

Você começa a estranhar a atenção que determinado bairro passa a ter no jornal, três meses depois um novo empreendimento imobiliário é lançado no bairro. É uma coincidência que cria ambiente, que, digamos, dá o clima para que determinadas campanhas publicitárias ganhem “corpo”.

Outras coincidências são no estilo direto. Uma casa noturna que tem entre os sócios um colunista de cultura vira e mexe merece destaque no roteiro cultural; uma seqüência de textos simpáticos à uma marca de Fórmula 1 e dias depois se descobre que o repórter viajava a convite da marca; e assim segue.

Esta semana o Guia da Folha traz uma pequena coincidência. O anúncio de maior destaque, o de contracapa, mais uma vez é de uma determinada hamburgueria (repare na marca acima). O teste do guia, uma das seções de maior visibilidade, provou milk-shakes em três lanchonetes, adivinhe qual a primeira citada e a que foi preferida pela repórter.

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Add comment Fevereiro 18, 2008

Lelé da cuca

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É engraçado como as grandes empresas foram criando uma nova lingüagem com o propósito de se livrar de responsabilidades; tempos verbais novos e pessoas novas. Falam no gerúndio sobre o futuro e de si próprio sem “eu” ou “nós”, a questão é sempre com os outros.

Você liga para a Telefonica dizendo que sua conexão de internet não está funcionando e eles pedem para você ligar o modem na tomada, transferem a ligação para outros três departamentos “responsáveis” e quando você, quase convencido de que a culpa é sua, resolve questioná-los mais uma vez, a linha é derrubada.

Os grandes varejistas, por exemplo, adoraram ditar regras sobre consumo responsável, regras que não cumprem, claro. Depois dos dez princípios do pacto global, outra rede chega com os 10 mandamentos, que, perceba abaixo, dá a entender que “cada um de nós pode fazer sua parte” e que um gigante multinacional do comércio pode fazer pouco.

1. CONTROLE e economize no orçamento doméstico.
2. COMPARE sempre os preços antes de comprar.
3. CONFIRA a origem e os prazos de validade dos produtos.
4. PROCURE sempre frutas, legumes, carnes e peixes frescos.
5. CONHEÇA os seus direitos de consumidor.
6. CONTRIBUA na melhoria de produtos e serviços utilizando o SAC das empresas.
7. APROVEITE bem o seu tempo, resolvendo tudo num só lugar.
8. PEÇA sempre o seu cupom fiscal, a garantia de sua compra.
9. EXIJA sempre o melhor atendimento.
10. ESCOLHA empresas comprometidas com o desenvolvimento sustentável.

Sobre o item 10, podemos seguir o conselho sustentável, usar a cuca e exigir que o proponente seja punido, pois o próprio declara em seu site que desmata demais. O departamento de marketing não anda muito bem da cuca.

A sacada e o texto abaixo é do Amazônia.org.br (dica do blog do Sakamoto):

O Carrefour possuia até 2007 mais de 100 mil cabeças de gado na Amazônia Legal, cujo abate é realizado em parte pela Friboi e cuja origem parece ser, em sua maioria, ilegal. Quem o sugere é o próprio Carrefour, em seu site. Das várias fazendas que possuia, a empresa menciona apenas aquela supostamente melhor em termos de desempenho ambiental, isto é a São Marcelo, em Juruena, no Noroeste de Mato Grosso.

Na realidade, as fazendas de gado da rede Carrefour, no Mato Grosso, foram vendidas no segundo semestre de 2007 para a viúva e filhos do fundador da rede, o francês Jacques Defforey.

De qualquer forma, se “quase a metade” da fazenda São Marcelo tiver ainda mata nativa - admitindo portanto que ela tenha aproximadamente 40% de cobertura florestal - metade da produção adquirida pelo Carrefour desta fazenda seria ilegal, pois o mínimo que a lei exige nesta região é uma cobertura florestal de 80%. O Carrefour nem sequer menciona as outras fazendas. Entre elas há a Vale do Sepotuba e a Matovi, que possivelmente devem apresentar indicadores de ilegalidade maiores, pois nem sequer aparecem na lista “Garantia de Origem” do mesmo site. (Fonte: Amazônia.org.br

:: Continue lendo Na Amazônia, cuca vai pegar o Carrefour, Amazônia.org.br

Relacionados:
Família Senna, responsável… por escravidão


Add comment Fevereiro 18, 2008

A velha mídia envolta pela nova mídia

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Protesto contra a velha mídia no Campus Party. Foto: mauricio maia. Alguns direitos reservados

Um, dois ou cinco jornalistas em cada grande redação sabe como funciona o universo jornalístico autônomo, pessoal, independente e a blogosfera. Sobre a blogosfera, passaram anos ridicularizando os blogs, considerando-os diários infantis, enquanto isso jornalistas e não jornalistas inteligentes passaram a utilizar o formato de postagens do blog como espaço para as mais variadas matérias.

Os jornalões perceberam que se ferraram. Inauguraram, então, seções de blogs com própria equipe de jornalistas, a maioria não sabia e continua sem saber como funciona o trabalho colaborativo, um dos conceitos principais da blogosfera, e seus blogs perderam sentido. O fato de um jornal não lincar matérias, entendendo todos como concorrência, já, de cara, os enfraquece. Julio Daio já mostrou brevemente por que os blogs de jornalistas não funcionam, além de não saber lincar, não estão acostumados a ter respostas, têm interesses específicos, simplesmente não lêem blogs etc.

O ataque do Estadão aos blogs, ao mesmo tempo que revelou seu desespero infantil, revelou que as armas do desrespeito, da mentira e do cinismo continuam sendo empunhadas sempre que a ordem das coisas é chaqualhada. Atualmente, também assistimos o desespero risível da mídia em busca de idéias 2.0.

É vergonhoso que o jornal que se diz “o maior jornal do país” peça para seus leitores enviarem fotos, porque ele não estava lá quando a polícia massacrou uma multidão durante evento público na praça da sé, e é odioso que utilize as fotos de usuários ansiosos por uma falsa fama para mentir sobre o que aconteceu - sendo que um de seus jornalistas colaboradores provido de autonomia pôde em seu blog no extinto “nominimo” furar o bloqueio e contar a verdade junto com outras centenas de blogueiros.

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Protesto contra a velha mídia no Campus Party. Foto: mauricio maia. Alguns direitos reservados

Com o Campus Party em curso, a imprensa é uníssono naquela história de virtual, futuro tecnológico assim, assado, jogos proibidos e matérias que generalizam, não explicam, não informam… poderiam, ao menos, criticar.

Como a grande mídia não sabe trabalhar como a mídia autônoma e como a organização do evento resolveu mantê-los como sempre foram mantidos - com status diferente dos jornalistas autônomos - uma “sala de impresa” estilo aquário foi instalada no centro de um dos andares do evento.

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Protesto contra a velha mídia no Campus Party. Foto: imprensacampuspartybr. Alguns direitos reservados

Ao lerem o alto nível das matérias, como uma legenda de foto da Folha que dizia “Os amigos x, y e z foram atrás das mulheres” (um dos entrevistados contatou seu advogado e a legenda mentirosa foi reeditada) e tantas outras como “Jovem de 20 anos sofre convulsão durante a Campus Party”, “Inauguração da Campus Party tem samba, vaias e performance de Gil” não deu outra senão sacanear os jornalistas que, num lugar cheio de assuntos, seguem com as futilidades de sempre e obedecem o roteiro Como usar carteira de jornalista para boicotar um evento.

A liberdade que os usuários da web têm para relatar um fato é impossível na atual estrutura das grandes redações. Especificamente, para qualquer assunto que têm como suporte a web, a grande mídia demonstra um desconhecimento e superficialidade tamanhos que a solução é simplesmente retornar com mais inteligência, criatividade e humor, elementos escassos nas redações.

Outras frases no aquário dos dinos: Em busca do vale encantado, Velociredator, não alimente os fósseis.

PS. Pesquisando artigos, vi que o Estadão mostra em sua página principal (manhã de sexta) a matéria “Blogueiros chamam jornalistas de ‘dinossauros’”. Não entendi a frase “chamamos os blogueiros para fazer uma foto de nós, ‘dinossauros’”, o que se vê neste vídeo é que os blogueiros foram em grupo até a sala e fizeram um protesto satírico.

Atualização
Relacionados:
Como defender seu emprego na velha mídia com unhas, dentes e extremo mau-gosto
A sustentável leveza dos blogs


1 comment Fevereiro 15, 2008

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