Archive for Janeiro, 2008
SUV “nascido da Terra” matando a Terra
O filme “Nascido da Terra” da Toyota é uma produção à moda trailler de filme hollywoodiano, cheio de imagens impactantes acompanhadas daquela narração bem marcada de frases de efeito susurradas que sempre nos causa enjôo.
É um carro para gente que gosta de expedições, aventura. Gente tão ligada à natureza que ainda não aprendeu a caminhar ou a respirar sem estar dentro de uma cápsula de ar-condicionado. Desfrutam a natureza através de uma janelinha com película negra.
A gente está acostumado a imagens de grandes montanhas em filmes de tanques urbanos, afinal eles “topam qualquer parada”, mas a Toyota foi prodígia ao conseguir inverter a lógica da vida neste planeta.
Depois da seqüência de imagens de montanhas, flor desabrochando, nuvens, sol se pondo e lagarto na pedra; num tom árido de imagens amarronzadas, rápidas imagens de fogo e rochas são acompanhadas da narração sobre a dureza da pedra e a aridez da poeira.
Quando o carro do tamanho de dois carros brota violentamente da terra, a sentença: “a vida renasce” (”life born again”)
Relacionados à Toyota:
Por que não?
Space Invaders
Space Invaders
1 comment Janeiro 11, 2008
Guia prático ilustrado sobre pixação em São Paulo
Está difícil saber o que pode e o que não pode desenhar nas ruas de São Paulo? É complicado entender quem pode e quem não pode? Este guia foi elaborado especialmente para atender esta necessidade contemporânea.
Grafite em carro esportivo de gigante dos pneus pode

Grafite em favor da mobilidade não motorizada não pode

Trabalho: Mona Caron. Foto: apocalipse motorizado
Grafite em propaganda de banco recordista de faturamento pode

“Bombar” geral em bairro de mega barzinho hippie-chic não pode

Pixação de “pixador salvo” por ONG pode. É arte. É social

Pixação de pixador não tutelado não pode. É contravenção. É poluição visual

Grafite de multinacional automotiva pode

Grafite autônomo não pode

Trabalho e foto: Mundano. Todos os direitos reservados
Agradecimento especial a todas as agências publicidade, medidores de tendências, autoridades policiais, vigilantes privados, governantes, grandes marcas e ONGs-empresas que tornaram este guia possível.
Relacionados:
Cores da marketagem
Pixo, logo existo
Obs. Pixar (sic): grafia utilizada aqui em referênca àquela habitualmente utilizada pelos pichadores para pichar
3 comments Janeiro 9, 2008
Cores da marketagem

Afora os recentes estudantes de áreas ligadas à arte que utilizam o grafite em seus trabalhos, todo grafiteiro foi pixador e desenvolveu sua técnica pixando nas ruas.
Cada vez mais pixadores se interessaram por desenhos mais elaborados e com uma margem maior de expressão artística, já vistos fora do Brasil. Foram estes pixadores ainda sem a denominação de “grafiteiros” que deram unidade aos desenhos espalhados pela cidade, que estimularam outros a grafitar e fizeram com que o grafite se desenvolve-se no Brasil e, enfim, chega-se à massa para ser utilizado para fins variados.
A divisão entre pixação e grafite é uma divisão construída na cultura pop. Para a cultura de rua esta divisão não faz sentido teoricamente, embora na prática a atuação de pixadores e grafiteiros se separe.
A Puma, a Adidas, a Fiat, a Goodyear, a Suvinil ou qualquer outra empresa que “apoia o grafite” não tem nada a ver com esta história. Nenhuma delas deu uma lata de spray para algum pixador/grafiteiro ou deixou de perseguir àqueles que tentavam desenhar nos muros de suas propriedades antes do grafite ser aceito como estética motivadora de consumo.

“Srs. grafiteiros o dinheiro economizado na manutenção será doado a instituição de caridade. Colabore. Viste xxx.org,br” | Tradução: Moleque, a nossa ONG pode fazer desenho bonitinho; você não (… também com esses desenhos agressivos, não dá). Se tentar, a prefeitura apaga. Venha aprender com a gente no xxx.org.br
Quem dançou foram os pixadores que permaneceram pixando “tags” monocromáticas e não migraram para os desenhos coloridos. Estigmatizados como gangues de rabiscadores que emporcalham a cidade, a prefeitura de São Paulo declarou que policiais os caçassem pelas ruas. A mão direita batia enquanto a esquerda levava os “jovens sem perspectiva” para a “rede de proteção social” de ONGs para que fossem “salvos”, deixassem essa vida de lado e “desenvolvessem sua capacidade artística” (e ainda tem possibilidade de “geração de renda”!)
Nenhuma ONG que hoje semanalmente dá oficinas sobre grafite deu uma lata de spray ou emprestou um pincel para alguém antes da coisa virar moda entre educadores sociais. Estes “jovens em situação de risco social” inventaram sozinhos e contra as autoridades e vigilantes privados uma forma de organização e expressão original - brasileira e paulistana. Literalmente a escalada social deles foi feita com as próprias mãos. Hoje, a invenção foi capturada para ser utilizada contra a própria liberdade artística de seus inventores.
Relacionados:
Muro cinza 1 X 0 Arte, artigo, apocalipse motorizado
Pixo, logo existo, artigo, Panóptico
Obs. Pixar (sic): grafia utilizada aqui em referênca àquela habitualmente utilizada pelos pichadores para pichar
4 comments Janeiro 9, 2008
Pixo, logo existo

Foto: autor desconhecido
O trabalho autônomo executado no espaço público por uma molecada, combatido durante toda sua existência, chega aos tempos atuais apaziguado pelo marketing.
A necessidade de renovação dos apelos usados pelo marketing - como a noção de identificação - levou a situações peculiares nos tempos atuais. Carros ecológicos, bancos que nem parecem banco, refrigerante zero, ensaio de fotográfico de moda durante manifestação anti-globalização…

Funcionário municipal apagador de pixações
Em São Paulo a pixação foi perseguida ferozmente nos últimos anos e o grafite foi eleito a bola da vez na “street art”. Diferentemente do trabalho realizado há anos por jovens da periferia da cidade (office-boys, ajudantes gerais, estudantes…) que escalavam alturas ignorantes para deixar a marca de seu grupo, os desenhos coloridos mais trabalhados e realizados mais ao nível do solo despertou o interesse de jovens com poder de compra. Jovens de classe média se interessaram pelo assunto e não só passaram a admirar mas também a acessar as técnicas do spray.
As grandes marcas de produtos juvenis ganharam uma estética pronta para copiar, usar, abusar e a qual poderiam atrelar temporariamente seu logotipo. Como toda estética da cultura de massa, após o hype e a exclusividade de um pequeno, seleto e, portanto, especial grupo, veio o vazamento, o momento em que outros muitos grupos se apropriam da estética. Na sequência veio a massificação, quando a produção em massa chega aos grandes distribuidores e todos, então, ganham a “permissão” de acessar aquele “estilo” e os grupos da era hype o abandonam.
A apropriação do grafite pelas empresas e agências de publicidade, como em outras tantas atividades da cultura de resistência, não impede que a atividade se desenvolva. Seu curso, porém, é fortemente alterado. Para além das discussões artísticas, as de ordem ideológica ganham força, qual é o grafite de verdade, qual é o grafiteiro vendido, todos têm que sobreviver, como resolver o dilema, qual o limite, isso e aquilo…
Em geral, os opositores destas culturas se esquecem do velho dito: onde há fogo, levaremos gasolina.
Obs. Pixar(sic): grafia utilizada aqui em referênca àquela habitualmente utilizada pelos pichadores para pichar
Relacionados:
Pixo, coleção de fotos, grupo do flickr
3 comments Janeiro 9, 2008
Como construir sua própria praça

Bairro Recife, Recife-PE. Embaixo de um estacionamento vertical de automóveis.
Síndicos como Kassab e subsíndicos como Andrea Matarazzo estão sempre pensando em que cor pintar o portão, em colocar pisca-pisca no jardim, instalar câmeras de segurança nos elevadores e passa-pizza no portão de entrada.
Tem síndico que se elege prefeito e acha que cidade é condomínio. Para eles tanto faz se o ônibus passa no horário ou se as pessoas passarão seu período de descanso assistindo as mesmas novelas de sempre.
Os governantes não gostam de praças em que é possível sentar, tomar ar, encontrar pessoas, passear, se divertir, descansar ou ler; preferem aquelas em que nada acontece - e quando acontece é pancadaria.
Os animais que habitam a cidade estão vivos e ao procurar saciar suas necessidades se modificam constantemente e modificam seu habitat. A metrópole é, portanto, imprevisível. Iniciativas despretensiosas que defendem a vontade de associação e comunhão entre pessoas livres acontecem em bairros de todo o mundo. Custam quase nada, não precisam de planta de empreiteira, nem de consultoria de ong e tem efeito imediato; correm ao largo de “revitalizações” milionárias que buscam a “requalificação do espaço urbano”.
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A pé pela cidade, artigo, Contraponto e fuga
1 comment Janeiro 7, 2008
Banco de praça à moda Matarazzo

por Brad Downey. Via: Brad Downey Returns To The Streets of Manhattan
O prefeito de São Paulo e seu secretário das subprefeituras responsáveis pela implantação de praças sem bancos, com bancos que não permitem um abraço entre namorados, com áreas de brejo para impedir o acesso aos chafarizes, com carros passando no meio e outras praças antipraça ainda não viram esta.
Esperamos que não vejam. Certamente a Praça da Sé poderia ganhar mais um equipamento anti-gente se colocássemos um texto-legenda: desenvolvido por jovens arquitetos e urbanistas de Columbia, o banco de praça apelidado de “My Manhattan” foi instalado por toda Nova Iorque com sucesso. “Ele é confortável, impede que moradores de rua se deitem e assim garante a segurança dos cidadãos”, afirmou Michael Bloomberg.
Relacionados:
Ato anti-higienista no aniversário de SP - parte 1, fotos, CMI
Ato anti-higienista no aniversário de SP - parte 2, fotos, CMI
Add comment Janeiro 7, 2008


